Era uma tarde comum, daquelas que se esvaem sem deixar rastro na memória. Estávamos eu e meu irmão Roy, lado a lado, encostados no murinho da Avenida Washington Luiz, ali em frente de casa, do outro lado da avenida. Aquele murinho, para nós, era um recanto de reflexão, um canto dedicado à liberdade, à vagabundagem sadia de uma juventude que sonhava em mudar o mundo. Um ponto de observação do ritmo da vida que pulsava do outro lado da rua.
De repente, a cena ganhou uma nova melodia. Um senhor, de mãos calejadas pela vida e pela música, parou em frente ao nosso improvisado palco. Era o maestro Orozimbo, um músico sofrido, desses que carregam no corpo e na alma as cicatrizes de uma paixão nem sempre recompensada. Em suas mãos, um pequeno pandeiro repousava, humilde, mas cheio de potencial.
Naquele instante, testemunhei algo mágico. O olhar do Roy fitando o instrumento foi como se uma faísca se acendesse. Um amor à primeira vista, silencioso e profundo. Ele não hesitou em perguntar ao maestro como se tocava aquela pequena maravilha. Orozimbo, com a generosidade dos artistas genuínos, mostrou os quatro movimentos básicos, os gestos primordiais que dariam vida àquele som universal. Quatro movimentos simples, quase elementares, capazes de gerar uma infinidade de ritmos, ecoando uma ancestralidade que nos era familiar, a herança árabe que corria em nossas veias.
No dia seguinte, a curiosidade do Roy se materializou. Lá estava ele na loja de instrumentos do Sebba, saindo com o seu próprio pandeiro, um pequeno círculo de madeira, pratinelas e couro que mal cabia em suas mãos. A partir daquele dia, a trilha sonora da nossa casa mudou. Eu o via diariamente, absorto na prática dos quatro movimentos mágicos, a repetição incansável lapidando o talento que ali nascia. Em poucos dias, o que era tentativa hesitante se transformava em ritmo fluente, natural. Era como se o pandeiro e Roy tivessem sido feitos um para o outro, peças de um destino musical que começava a se desenhar.
Nosso universo musical era bem eclético, mas o samba falava mais alto. Os solos do bandolim do seu Jamil Caram nos mostrava o chorinho, gênero musical genuinamente brasileiro. O maestro Zíngaro com seu violino e a mão direita rápida do baterista Bodinho nos encantavam. Realizamos nosso sonho tocando caixa guerra na lendária Fanfarra do Colégio I.E. Fernando Costa do mestre Caracú. A cantora libanesa, Fairuz, a Voz do Oriente, nos levava às origens da nossa família.
O horizonte de Prudente logo se tornou estreito demais para a ambição musical de Roy. Ele partiu para o Rio de Janeiro, o berço do samba. Foi estudar Educação Física na Universidade Gama Filho. Foi também em busca de aprimoramento rítmico do pandeiro. Lá, teve o privilégio de cruzar o caminho de um mestre, o lendário Carlinhos Pandeiro de Ouro, baluarte da Mangueira e parceiro de Martinho da Vila. Com Carlinhos, Roy absorveu ensinamentos preciosos, aprimorando sua técnica e refinando seu estilo, que já demonstrava uma assinatura única.
Quando Martinho da Vila veio fazer um show no Tênis Clube, ele chamou o Roy que o acompanhou junto com grandes músicos, como: Zeca da Cuíca, Carlinhos Pandeiro de Ouro, Jorginho do Império, Manuel do Cavaco, Ula no surdo e Papão na bateria. Foi uma noite mágica. O primeiro pandeirista prudentino no meio dos grandes sambistas do Brasil. A Escola de Samba Malacos do Tênis do Mestre Amendoim foi a maior revolução sociocultural num clube considerado de elite. Roy se dedicou contribuindo, trazendo conhecimento musical e vivemos tempos de ouro com os Malacos proporcionando grandes carnavais no salão e nos desfiles de rua. Várias gerações desfilaram nos Malacos do Tênis e até hoje relembram essa grande emoção, mostrando que os sonhos não envelhecem.
Com a maestria recém-adquirida e um pandeiro como passaporte, Roy alçou voo. Sem dinheiro no bolso, sem o apoio de sobrenomes influentes, ele confiou no seu talento e na força do seu ritmo para desbravar o mundo. A França se rendeu ao seu talento contagiante, o Caribe dançou ao som do seu pandeiro, e no Japão, ao lado da querida amiga Ana Caram, ele mostrou a universalidade da nossa música. Nos Estados Unidos, experimentou novas sonoridades, e em Cuba, encontrou a salsa, vivendo ali um breve e intenso capítulo da sua história musical. Aprendeu três idiomas, o francês, inglês e espanhol nessas andanças pelo mundo.
O carnaval carioca também se curvou ao talento de Roy. Ele desfilou nas grandes escolas de samba – Portela, Beija Flor, Mangueira, Salgueiro – e dividiu a avenida com a icônica mulata Globeleza, Valéria Valença, na Caprichosos de Pilares. Um feito notável para um garoto que havia descoberto a música por acaso, encostado num murinho em Presidente Prudente. Sua consagração veio com o reconhecimento em Vila Isabel, sendo considerado um dos dez melhores pandeiristas da tradicional escola de samba.
Roy, o adolescente que vislumbrou num simples pandeiro e em quatro movimentos elementares ganhou um passaporte para o mundo, nunca se esqueceu daquele encontro fortuito no murinho da Avenida Washington Luiz. Mestre Orozimbo, o músico sofrido que lhe apresentou aquele universo rítmico, partiu deste mundo esquecido num quarto de pensão. Mas na memória de Roy, ele vive eternamente. Em cada batida do pandeiro, em cada sorriso que a música proporciona, há uma silenciosa homenagem àquele que plantou a semente da sua paixão. Roy sempre pensa e reza por ele com carinho, reconhecendo a importância daquele encontro casual numa tarde como tantas outras, que se transformou no prólogo de uma vida dedicada à magia do pandeiro.