Que domingo é esse? 

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 28/03/2025
Horário 08:09

O feriado não começou legal. Ansioso para a chegada da minha filha, Luiza, grávida de quatro meses, acontece um evento nada agradável. O barulho do carro faz com que minha cachorra, Amora, lata. Um sinal que minha filha chegou. Abrimos a porta com aquela alegria, Amora começa a pular também de alegria e corre para seu costumeiro embate com os cachorrinhos de uma querida amiga. Ela late, eles latem, ela late, eles latem, e ficam nisso e sempre foi assim. Coisa de cachorro. 
Mas dessa vez o azar estava presente. Um dos cachorrinhos põe sua cabeça por entre o vão do portão e Amora morde sua cabeça. Ficamos sabendo depois, à noite em casa, em plena festa de aniversário da Luiza. Minha cunhada mostra as fotos que foram postadas no Whats no grupo do bairro. Putz, que dó. Ficamos muito chateados. 
No outro dia, logo de manhã, fomos fazer uma visita para nos desculparmos pelo ocorrido. Mas infelizmente não tinha ninguém na casa. Alguma providência teríamos que tomar. Criamos mal a Amora. Criamos mal vírgula, você é o culpado, disse Mulher-Maravilha. É sim pai, a Amora é muito mimada, não tem limites e a culpa é sua. Virei um pária. Chegaram à conclusão que precisaria de um adestrador. Pediram a indicação para o Dr. Wilman. 
Hoje de manhã, às 9h, o seu Geraldo entra em casa. Insistiram muito que eu participasse e acompanhasse todo o período de adestramento. Seu Geraldo começa a explicar sua metodologia de trabalho. Já tinha observado o comportamento da Amora. Nos dá uma demonstração e nos deixa impressionado com seus métodos. Castigo e afago, essa é a base da psicologia de qualquer cachorro. Nessa parada toda, falaram pro seu Geraldo que eu também tinha que ser adestrado. Castigo e afago. Serão quatro horas semanais e começo amanhã. Fui julgado, condenado. Vou recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal) e quem sabe o Gilmar Mendes pode me conseguir um habeas corpus.  
Mulher-Maravilha vai com minha filha para Mogi-Mirim. A outra filha está na praia. Um domingo de 1º de abril condenado na solidão não é mole não. Não se esqueça de dar comida para a Sofia e para Amora. Não se esqueça disso, não se esqueça daquilo, a Flávia vai chegar as 23h, não se esqueça de ir buscá-la. Estou em adestramento desde o dia que me casei. 
Ufa, depois de cumprir à risca tudo que foi determinado nesse domingo de solidão, lá pelas 16h estou almoçando em casa, sozinho, a Dinah me liga: Persio sua mãe caiu, bateu a cabeça e está no hospital, mas ela está bem. Corro até o hospital para checar esse "está bem" afinal minha mãe tem 97 anos. Cheguei no quarto 214 e meu irmão Teco está com ela. Graças a Deus está realmente tudo bem. Teco começa a me contar que o sogro dele está na UTI. Putz, que domingo. Quem te avisou da mamãe? Ninguém. Como ninguém? Como que ficou sabendo? Por acaso. A Cecilia entrou na UTI para ver seu Cláudio e como só podia entrar uma pessoa fiquei lá no saguão do hospital esperando. De repente, chega o resgate carregando na maca uma velha senhora que estava gritando. Coitada dessa velha senhora, pensei. Quando a maca passa perto de mim, vi que era a mamãe e também gritei: "É minha mãe". Pqp Teco, que circo é esse. 
Você ficou sabendo dessa maneira? O domingo de solidão e surpresas está quase chegando ao fim. Nesse momento estou sozinho no quarto, esperando as 23h chegar, rezando para não ter nenhuma surpresa e como ninguém é de ferro, vou escutar uma música dos anos 60, “Woman, Woman” de Gary Puckett and the Union Gap. Do not cry for me. Vejam vocês.

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