O professor e suas memórias

OPINIÃO - Marcos Alegre

Data 11/01/2018
Horário 13:03

Fui alertado por uma reportagem de O Imparcial sobre o lançamento de um livro que retrata memórias de docentes da Unesp (Universidade Estadual Paulista). É meu tema de hoje; comentar alguns pontos desse livro, lançado no dia 20 de junho, e que conta alguns aspectos da história da FCT (Faculdade de Ciências e Tecnologia) da Unesp, campus de Presidente Prudente. Esse livro foi prefaciado pelo doutor Marcelo Messias, diretor da instituição, e doutor José Carlos Silva Camargo Filho, vice-diretor.

Não se trata de um livro de ficção e nem de história, quando o autor se debruça sobre documentos, mas é a memória que comparece. É a memória de várias pessoas consideradas agentes importantes para as “memórias docentes”. O grande objetivo deste livro é a reconstrução ou reinterpretação da história do campus da Unesp de Prudente entre os anos de 1975 e 1980. Creio que vale a pena colocar aqui o ponto de vista de um docente entrevistado pela Cedem (Centro de Documentação e Memória da Unesp). “Os depoimentos constituem ponto de vista pessoal e parcial, às vezes apaixonados e nem sempre isentos e agravado por lapsos da memória e sem nenhum rigor científico e, por isso, devem ser tomados com cautela e apenas como parte do quebra-cabeça que podem ajudar a fazer a história propriamente dita”.

O livro segue um roteiro bem definido, a começar pela introdução onde os autores expõem a metodologia utilizada, mas é inegável que as entrevistas constantes como apêndices são a parte mais importante do livro e razão de seu título. É interessante observar que as entrevistas não foram preparadas, por isso a frase que mais aparece é: “Eu não me lembro”. Eu creio que isto conta pontos para os autores do livro. Ao mesmo tempo é interessante ver, nas entrevistas, as divergências sobre o mesmo fato. Um bom exemplo é a imagem do jornal O Imparcial de 28 de novembro de 1976, cuja manchete informa: “Quase cinco mil pessoas na concentração da FAFI”. Era a reunião na qual compareceu a atriz Aracy Balabanian. Uma das pessoas entrevistadas disse que foi a essa concentração e não viu tantas pessoas, “o ginásio estava meio vazio”.

Outro fato que foi bem discutido: “Por que só ficou a Geografia?”. Outra entrevistada alega que a Geografia ficou porque tinha mais doutores e não faria sentido fechar um curso tido como forte. Isso pode ter pesado, mas na verdade a geografia estudava a paisagem, o ambiente e não foi considerada ciência humana e aparecia mais ou menos de acordo com os planos da ditadura que pregavam o desenvolvimento tecnológico como pilares que assegurariam o sucesso desses planos.

Para encerrar este pequeno relato vou lembrar de dois acontecimentos trágicos. Um deles relatado por uma entrevistada, que diz sobre um filho do professor Armen, que foi atropelado por um carro e levado ao hospital e o garoto morreu ali. Eu presenciei esse fato, que teve também a presença da Aracy no hospital atulhado de gente. Na verdade não foi um filho, mas uma menina, que foi levada de avião para Santa Catarina. Outro fato eu assisti bem de perto. A esposa do Armen, grávida, sofreu uma queda feia nos degraus na entrada da faculdade. O professor Fernando tinha carro e nós e mais umas duas ou três pessoas levamos a mulher para a Santa Casa, mas o bebê morreu. No dia seguinte, no cemitério, vi o Armen, com as barbas grisalhas banhadas de lágrimas carregando nos braços o caixãozinho do bebê. Pedi para segurar um pouco e ele me deu um sonoro não. É isso aí, meus amigos leitores, é a memória que comparece.

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