O gene egoísta

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 02/02/2024
Horário 05:06

A obra “O gene egoísta” continua sendo o livro de Richard Dawkins que mais me fascina. Traduzido para mais de 25 idiomas e ultrapassando 1 milhão de cópias vendidas, o livro populariza a ideia da evolução centrada no gene, capturando os leitores para uma sequência de argumentos de que os organismos são apenas “máquinas de sobrevivência” a partir das quais os genes que estão aqui se perpetuaram ao longo das gerações. É isso mesmo. Somos herdeiros de genes egoístas que venceram uma corrida entre irmãos que foram deixados para trás. A essência do ser-biológico é replicar-se de modo a reproduzir-se a si mesmo nas gerações futuras. A partir daí, Dawkins defende que a seleção natural opera no nível dos genes, não dos indivíduos ou espécies.  
Bem, as ideias de Dawkins receberam críticas. Muitos biólogos argumentam que a evolução também ocorre em níveis superiores, como indivíduos, grupos e espécies (seleção de grupo). Pois é, a evolução em ambientes dinâmicos é imprevisível. Afinal, as interações ambientais podem ter um papel maior do que se imagina. Sei também que a ideia das “máquinas de sobrevivência”, levada ao extremo, favorece a crença no determinismo biológico, segundo o qual o comportamento humano seria inevitavelmente egoísta ou determinado pelos genes.  Apesar do meu fascínio pelas obras de divulgação científica que ajudam a popularizar conceitos e teorias, é claro que a cultura não segue os mesmos mecanismos da genética, pois envolve interpretação, contexto e aprendizado social complexo. É por isso que deixo a obra de Dawkins ao lado da “Queda do céu”, do líder yanomami Davi Kopenawa (são os yanomamis que tentam impedir que o céu desabe sobre nossas cabeças, lembra-se?).
Dizem que uma árvore de 20 metros pode bombear mais de 1.000 litros de água por dia...e como na floresta são mais de 600 milhões de árvores, consegue imaginar a grandeza desse fenômeno? Essa gigantesca massa úmida alimenta os chamados “rios voadores”, que contribuem com as chuvas que abastecem grande parte das terras agrícolas do país. Seriam os “genes egoístas” que formam as árvores lá da Amazônia as responsáveis pela comida que chega na minha mesa? Não é, responde David Kapenawa. Estudo recente do Instituto Serrapilheira revela que a maior parte da floresta está nas terras indígenas. Ou seja, a água bombeada pela árvore em pé, os rios que correm na atmosfera, as chuvas nas plantações, a comida na mesa, tudo isso é fruto da cultura, da reciclagem da água em terras indígenas. 

 

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