Não havia na cidadezinha um músico sequer, nenhum mesmo, nem amador e muito menos profissional. Música mesmo só nas rádios e nos aplicativos, ao vivo, nunca mais se ouviu falar, só na lembrança dos antigos. Nem violão, nem viola, sanfoneiro, flautista ou pianista. O fato, espantoso, não era decorrente de uma proibição por lei vinda do conservadorismo dos últimos tempos, antes disso, vinha mesmo da incultura e da ignorância que reina absoluta em nossos dias. Ninguém sabe mais nada e ali, naquela cidade, ninguém era capaz de tocar um instrumento.
Mas queria-se, na igreja evangélica local, louvar a Deus e o criador parece ter apreço pela música tocada ao vivo, a partir dos angelicais instrumentos enviados pelo mesmo à sabedoria dos homens. Organizou-se um conjunto musical, com violões que foram comprados pela municipalidade, afim de compor a banda de músicos locais, para o louvor e a graça da Providência Divina. Mas ninguém sabia tocar e como poderiam aprender? Tentaram de tudo, de velhos livros de músicas a vídeo aulas na internet. Impossível avançar nessa arte sem um mestre. Deus ficaria contrariado se pudesse ouvir os ensaios.
Um dia, ao acaso, como esses que ocorrem sem explicação, um guitarrista a bordo de seu Volkswagen vermelho chegou à pequena cidade, vindo de longe e sem intenção de ficar. O carro precisava de manutenção e ele de descanso, de modo que encontrou no caminho o lugar ideal. Excêntrico aos olhos locais, um fusca com três guitarras no banco de trás, um cubo e outros equipamentos. O cabelo comprido e a camiseta preta, o ateísmo incontido, a incompreensão da religiosidade alheia e a contracultura davam o tom ao forasteiro.
O estranharam, como de costume, mas, acabou achando oficina, janta e pouso. No outro dia, só se falava nele e sem o saber, já era motivo de curiosidade e espanto. Além de pequena, a bela cidadezinha era bastante isolada, distante de todos os lugares e ali, estranhos eram incomuns. Souberam dele apenas o ofício, era de falar pouco e não vinha bem ultimamente. Preferia o silêncio, e taciturno, mantinha certo ar de mistério. Queriam saber se era evangélico ou católico. Informação preciosa aos intentos que tinham para ele.
O pastor relutou, mas quando soube das guitarras foi ter com o forasteiro. Explicou-lhe as dificuldades com o louvor, a necessidade de agradar os ouvidos de Deus com boa música, sob pena da insatisfação da divindade. O músico pensou na proposta, titubeou, se confundiu com os propósitos anteriores, achou por bem aceitar, afinal, vinha perdido e precisava de dinheiro para continuar a jornada. Ensinar um grupo de dez pessoas de variadas idades e características a tocar violão seria desafiador o bastante para entretê-lo. Mas era ateu e no fundo achava tudo aquilo uma completa bobagem.
A sabedoria musical, a paciência e os esforços empreendidos pelos filhos de Deus deram rápidos resultados. Em coisa de cinco semanas já se podia ouvir a boa música que emanava das cordas dos violões nos louvores cotidianos dos ensaios. Uma das alunas lhe disse: Você foi enviado por Deus!