Na casa da vó tinha uma sala grande, com dois ambientes, com muitos sofás, tapetes e cortinas duplas, com forro e renda. Tinha uma mesa grande, redonda e de madeira escura, com cadeiras imponentes. O relógio de parede, de madeira e pêndulo. A estante, com aparelho de som com caixas enormes, enciclopédias médicas e de saber geral. Tinha também uma TV de tubo, também em madeira, da Semp Toshiba.
No quarto da vó tinha o guarda-roupa marrom e verde, com mistérios que nunca ousei ultrapassar. Tinha também a penteadeira, com espelho horizontal enorme e muitas gavetas. Tinha preferência pelas gavetas do vô, com inúmeros objetos fascinantes. Os relógios Orient, um de fundo azul, outro verde. O canivete suíço, trazido dos Estados Unidos pelo filho do patrão. A Bíblia da vó, sempre aberta e da onde às vezes pegávamos alguns trocados para comprar doces no bar. Os quartos dos tios, que respeitava e raramente ousava entrar.
Na cozinha da vó tinha armários, mesa, cadeiras e geladeira na cor vermelha, da Frigidaire, decoração futurista típica dos anos 1970. No canto, próximo da janela, estava a máquina de costura, que fazia da cozinha ateliê nos intervalos entre as refeições. A maior parte da vida a vó passou ali, cozinhando e costurando camisas, calças sociais e ternos. As limonadas, o queijo frito, os bifes saborosos, os copos de leite quente com chocolate. O café sempre fresco, que acabara de passar. O pão caseiro, feito no cilindro, a manteiga que derretia no pão quentinho.
Na casa da vó tinha um quintal enorme, onde cabiam uns cinco carros enfileirados, mas que vivia mesmo era cheio de moleques, os da casa e os da rua. O Natalino, o Tonho, o Cabeção, o Ivanildo, o Guga e o Neném. Tinha também o ranchinho, com as coisas do vô, arreios, selas, facas e facões, coisas de fazenda e de trabalho duro, muitos cheiros que ainda habitam a memória. Tinha também o sabão feito em casa, os retalhos da vó, as ferramentas, o freezer de carnes, os galões de leite, de metal, para 20 litros.
Tinha também o quintal do fundo, comprido, gigantesco. Lá tinha pé de manga, de caqui, de laranja, mexerica. Tinha goiaba e acerola, o enorme limoeiro dá onde saiam os limões que por anos a fio abasteceu as refeições com limonada fresca. Teve pés de maçã, mas esses eu não vi. Tinha hortelã, erva cidreira, manjericão, pé de figo e até cajueiro. A cadeira de área do vô, recostada na sombra, no fundo do quintal, lugar onde sempre o encontrava nos dias quentes para uma conversa franca e doce.
Tivemos uma infância incrível na casa da vó. Mas as casas não são feitas de pilares, paredes de tijolos e forros de madeira. Casas são feitas por aqueles que a habitam e quando esses se vão levam consigo a alma que as preenchia de vida. Quando o vô se foi, uma parte da casa foi junto. A vó deu vida à casa por mais de duas décadas depois disso. Esse ano ela se foi também e com ela a vida que dava sentido àquela habitação. As ruínas da casa revelam o caráter inexorável da passagem do tempo, da provisoriedade da vida e da finitude da existência.