Ser diferente é normal. Em razão disso, segue até hoje, no Centro Cultural Matarazzo, a exposição “Horizonte Cor e Alma”. A mostra traz 48 telas de 17 artistas, de 5 a 44 anos, que possuem alguma necessidade especial. A iniciativa do professor Jorge José da Silva, 45 anos, faz parte do PojetoCor que desde 2015 tem como foco aproximar deficientes com o convívio social por meio da arte.
Entre as telas, Jorge explica que os estilos variam desde retratos de elementos do cotidiano até imagens afloradas da imaginação. “Cada um tem sua particularidade, uns gostam mais de florais, outros pintam coisas que veem na rua, tem de tudo um pouco”, expõe.
O professor trabalha há 15 anos com crianças especiais, segundo ele, no início o projeto era fechado apenas para autistas – área na qual se especializou. Entretanto, com o tempo percebeu a necessidade de abranger as demais deficiências como Down e física. Conforme Jorge, o principal foco do trabalho é desenvolvimento comportamental. Além disso, busca dar visibilidade a esta minoria e mostrar para a sociedade as habilidades e competências que possuem. “Comecei a estudar na área porque esse público é muito carente de coisas voltadas exclusivamente para eles, queremos proporcionar a inclusão”, explica.
Segundo ele, tanto para as crianças quanto para seus familiares, participar das atividades transforma a forma como se sentem inseridas no mundo. Outro fator resultante das oficinas é o incentivo a independência. Explica ainda que alguns conseguem até uma renda financeira uma vez que, ao vender alguma tela, o custo é totalmente destinado ao autor. “Porém, é mais do que dinheiro, eles se sentem valorizados, ficam muito felizes em poder mostrar para a família as coisas que produzem, se sentem capazes”, frisa.
Pincelando a rotina
Para manter o projeto em funcionamento e tornar possível as oficinas, o ProjetoCor tem uma parceria com a Fraternidade São Damião da Paróquia São Francisco de Assis. A entidade doa o espaço para as realizações. Segundo Jorge, os encontros são diários, individuais e no período da tarde. “Cada um tem seu próprio horário onde vamos desenvolver as telas, a pintura é algo muito singular, então eles precisam de um momento só deles”, ressalva.
Segundo o professor, o projeto começou apenas com duas crianças que eram alunas dele. Entretanto, aos poucos, as pessoas foram ouvindo falar do projeto e hoje a turma é composta por 17 e está prestes a incluir quatro novos membros. “São muitos desafios, trabalho com crianças que pintam com a boca, que têm deficiência física, para mim o projeto é um leque de aprendizados”, pontua.
Embora seja árduo, Jorge classifica o trabalho como nada menos que totalmente gratificante. Ele conta que com o passar dos anos, ver a felicidade de uma criança que muitas vezes era excluída não tem preço que paga. “Às vezes eles são rotulados como sem expectativas, é maravilhoso poder mostrar que eles tem capacidade e que merecem respeito como qualquer outro”, acentua.
Com isso, o professor afirma que todo dia colhe frutos e absorve aprendizados que leva para sua própria vida. “A arte tem que chegar para todos e eu acredito que tudo que é feito de bom coração reflete na nossa vida, nas nossas atitudes, em tudo, desde que seja feito com verdade e amor”, enfatiza.
É exatamente por isso que Jorge reforça a importância da sociedade ampliar sua visão a respeito das diferenças. “As pessoas precisam acreditar uma nas outras, ninguém é incapaz, alguns tem limitações, mas todos merecem a mesma valorização simplesmente por existirem”, desabafa.
Abrindo novos caminhos
Desde abril deste ano, Jorge trouxe duas novidades para as tardes na Fraternidade São Damião. O Projeto DJ e o Projeto Especial Gourmet. Segundo o professor, em ambas as atividades os alunos têm contato com especialistas locais de música e culinária. “Eu fico responsável pelo projeto de pintura e outros professores pelos novos, a ideia de ampliar nosso leque deu-se pelo fato de todos eles gostarem das duas áreas, tanto música quanto culinária”, explana.
Outra novidade é a forma de trabalhar, que neste caso é em grupo. De acordo com Jorge, essa migração do individual para o coletivo foi aderida facilmente pelos alunos. “Nessas atividades os pais também podem participar, alguns participam e eles se sentem muito realizados”, conta.
Sobre os resultados que espera colher, o professor não pensa duas vezes antes de dizer que só quer que eles se sintam confortáveis no mundo em que vivem. “Espero que sempre busquem conhecimento, conheçam coisas novas, não se fechem e nem deixem de realizar tudo que desejam”, reforça.
Serviço
A exposição já está na Sala de Convivência do Centro Cultural Matarazzo até o dia 2 de setembro. A visitação pode ser realizada de segunda a sábado das 8h30 às 22h. Nos domingos e feriados o horário muda para 16h. O endereço é Rua Quintino Bocaiúva, 749 – Vila Marcondes em Presidente Prudente (SP).
Artistas
Pedro Henrique Calil Trevisan, 35 anos – Síndrome de Down
Renan Cardoso Spolador
Maria Rita de O. Ribeiro, 17 anos – Síndrome de Down
Gabriel Kenzo Nakaya, 20 anos – Transtorno Espectro Autismo
Adib Miguel Direne, 38 anos – Síndrome de Down
Zeca Scalon, 36 anos – Síndrome de Down
Denise Canziane Brambila, 23 anos – Síndrome de Down
Amanda Fernanda da Costa, 18 anos – Sequela Rubéola
Júlia Rodrigues Sakamoto, 19 anos – Déficit Cognitivo Cerebral
Vitória Oliveira Barbosa da Silva, 08 anos – Diagnóstico Arto-gripose Múltiplas Congênita
Lucas Capuci Gasparim, 21 anos – Síndrome de Down
Vinícius Benatti Santos, 16 anos – X Frágil
Tomás Russo de Andrade Souza, 5 anos – Síndrome de Down
Marcelo Augusto Direne, 41 anos – Hiperativo
Patrick Ken Kanda, 19 anos – Transtorno Espectro Autismo
Ana Clara Barbosa Rocha de Araujo, 11 anos – Síndrome de Down
Lucimara Emilio, 22 anos – Deficiente física
Saiba mais
O nome “ProjetoCor” diz respeito a ideia de que se trata de uma iniciativa que preza a harmonia, felicidade e paz, sensações essas que são transmitidas pelas cores.
“Às vezes eles são rotulados como sem expectativas, é maravilhoso poder mostrar que eles tem capacidade e que merecem respeito como qualquer outro”
Jorge José da Silva,
professor e idealizador do PrjetoCor