“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem, também podem aprender a amar”. As palavras de Nelson Mandela estavam impressas em um cartaz colorido logo na entrada da Escola Estadual de Ensino Integral Professor Joel Antônio de Lima Genésio, em Presidente Prudente, na manhã de ontem. O motivo era a comemoração do dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. A fim de aproximar os 360 alunos – do 6º ao 9º ano – a instituição desenvolveu pela sexta vez consecutiva o projeto “Amor, respeito e tolerância”.
A iniciativa reúne intervenções e oficinas desenvolvidas pelos estudantes ao longo de todo o ano letivo. Além disso, promove a mescla das áreas de ciências humanas, ciências da natureza, matemática e linguagens e códigos. Tudo isso para, no fim, trazer um punhado de história e consciência a respeito da cultura e do cotidiano do negro brasileiro, segundo explica a professora coordenadora de história, Iracema Neri Evangelista.
Vestida com roupas coloridas e um turbante na cabeça, a docente acredita que o vestuário é apenas uma partícula do objetivo que pretendem alcançar com o projeto. Este que parte do tripé: empoderamento, aceitação e tolerância. “Nós nunca vivemos em tempos tão hostis como hoje. As pessoas dizem que o preconceito não existe, mas não é isso que vemos nos noticiários. É preciso que a escola atue como incentivadora dessas crianças, para que aprendam a amar e respeitar o outro independentemente da cor da pele”, expõe.
A medida, conforme explica a professora, se torna cada vez mais necessária na sociedade, já que “adolescentes e jovens são assassinados diariamente nas periferias, muitas vezes, apenas por serem negros, por isso, deve existir uma leitura crítica sobre esse comportamento social”.
Negro e vice-diretor da escola, Claudemiro Aparecido Caetano, acredita que, infelizmente, hoje ainda é preciso que existam ações e atividades de conscientização. Isso, segundo explica, não se faria necessário se o negro fosse considerado “normal e igual” no meio social. “Mas ainda assim é importante, porque ajuda para que, aos poucos, quem sabe, se consiga amenizar o cenário de preconceito que paira sobre a nossa sociedade”, explana.
Intervenções conscientes
O grande destaque do dia foi a “dinâmica do espelho”. De acordo com Iracema, os espelhos pendurados no saguão da escolha têm a ideia de fazer com que os alunos olhem, através dele, e vejam frases coladas em cartazes. Escritas essas que falam um pouco sobre como é conviver com o racismo diariamente. “É o que queremos passar com o projeto: empatia e tolerância, se olhar como o outro e se colocar no lugar dele”, expõe.
Outra intervenção feita pelos alunos, que despertou o olhar de quem passava por lá, é a “Pegadas no caminho”. A professora explica que a ideia, feita por alunas do nono ano, é mostrar, por meio de mensagens entregues aos estudantes, que cada um tem o seu caminho a ser trilhado e que, às vezes, se cruzam com outros. “O objetivo é fazer com que percebam que, mesmo sem querer, nossas atitudes deixam marcas na vida do outro. É preciso cuidado com nossas ações para que não machuquem outras pessoas”, pontua.
Além disso, no evento era possível notar painéis com recados positivos e que instigavam a autoestima. Porém, um em especial, coberto por impressões digitais. Conforme Iracema, ele simboliza a prova de que cada ser humano possui uma marca e um lugar no mundo, “a eterna lembrança de que um dia passaram por aqui”.
Marcas que ficam
As amigas, negras, Maria Rita Araújo Miranda e Camila Rodrigues Souza, ambas de 12 anos, são estudantes do 7º ano e explicam que o projeto é a chance de “se sentirem livres e poderem ser quem elas realmente são”. Camila conta que tinha o hábito de alisar o cabelo com chapinha e hoje o aceita cacheado sem medo de represália. “Aprendi a gostar do meu cabelo e de mim, não me preocupo mais se as pessoas vão achar feio, o que importa é como eu me sinto, e sou feliz assim”, relata.
Maria Rita concorda com a amiga e completa ao dizer que, hoje em dia, as blogueiras e youtubers ajudam na sua própria aceitação enquanto jovem negra. “Hoje incentivo outras meninas a se libertarem e assumirem seus cachos, é algo que eu tive muita dificuldade, mas hoje vejo que é essencial para a construção da nossa identidade”, conta.
Já Ana Carolina Fernandes Lopes e Melissa Carvalho Silva, 13 e 14 anos, são brancas, mas não encontram nenhum diferencial em relação aos colegas que tenham outra cor de pele. “É a primeira vez que participamos e foi uma experiência muito bonita, faz você entender que ninguém é diferente de ninguém e que a pele não é significativa quando pensamos na pessoa como ser humano”, frisa Ana.