Como os alimentos ultraprocessados tomaram nossa mesa (e nossa saúde)

OPINIÃO - Osmar Marchioto Jr.

Data 02/04/2025
Horário 04:30

Se você nasceu antes dos anos 80, provavelmente lembra de quando o almoço começava com salada, arroz, feijão, um legume picado com carinho e um bife. O que talvez você não tenha notado é que, aos poucos, esse prato foi sendo substituído por alimentos que vêm prontos, coloridos, crocantes e, muitas vezes, com nomes que mais parecem códigos de laboratório.
Estamos falando dos alimentos ultraprocessados, produtos criados majoritariamente pela indústria a partir de substâncias extraídas ou sintetizadas, com pouco ou nenhum alimento de verdade na fórmula. Pães de forma embalados, salgadinhos, refrigerantes, bolachas recheadas, embutidos, nuggets, macarrão instantâneo, refeições congeladas... A lista é extensa, tentadora e cada vez mais presente na rotina dos brasileiros.
Esses produtos não apenas ocupam mais espaço nas prateleiras dos mercados. Eles também estão ocupando silenciosamente mais espaço na nossa alimentação diária. Hoje, é comum vermos uma criança começando o dia com achocolatado e biscoito, um adulto almoçando comida congelada, um lanche rápido ou salgadinho e refrigerante. São escolhas práticas, rápidas, mas que cobram um preço alto.
E o problema está justamente nisso: o ultraprocessado é traiçoeiro. Ele é conveniente, durável, barato e, acima de tudo, projetado para ser irresistível. Mas por trás da praticidade, esconde-se um perfil nutricional empobrecido: muito açúcar, gordura ruim, sal e calorias vazias; pouca fibra, pouco nutriente, pouco alimento de verdade.
Essas características criam o cenário perfeito para o ganho de peso, o aumento da pressão arterial, dos triglicérides e de doenças como diabetes, hipertensão e esteatose hepática. É como se estivéssemos construindo um terreno fértil para doenças crônicas sem perceber, apenas repetindo padrões que se tornaram normais.
Esse padrão alimentar se espalhou por todas as faixas de renda, regiões e todas as idades. Está na lancheira das crianças, no prato do trabalhador, no jantar apressado de quem chega em casa cansado. 
Mas calma: este texto não é um sermão. É um convite à consciência. 
Ninguém precisa cortar tudo do dia para a noite. E não se trata de demonizar um produto ou outro. O que precisamos entender é que quanto mais nossa alimentação for baseada em alimentos in natura ou minimamente processados como frutas, legumes, arroz, feijão, ovos e carnes frescas, melhor será para nossa saúde a médio e longo prazo.
O primeiro passo? Começa no carrinho de compras porque é ali que decidimos, muitas vezes sem perceber, a qualidade do que vai compor nossas refeições nos dias seguintes. Leia os rótulos com atenção. Desconfie de listas de ingredientes longas, cheias de nomes que você não reconhece. Dê preferência ao que vem da terra, da feira, do campo. Valorize os alimentos frescos, da estação, cultivados com simplicidade, que alimenta com qualidade. O que exige descascar mais do que desembalar, o que requer panela, fogo e um pouco de tempo, geralmente é o que mais nutre. Comer bem é um gesto de cuidado com o corpo, com a família e com o futuro.

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