Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.
Gênesis 1.31
No texto da semana passada, exaltei a Amazônia e sua riqueza natural, dádiva de Deus que em sua gratuidade providenciou-nos o jardim (ambiente/mundo) para o cuidado, desenvolvimento e sustento de toda a criação.
Refiro-me à gênese e à preservação da vida. Não apenas à vida humana (homo sapiens), mas o mundo animal e o sistema (ordem) ambiental que garante a existência.
Por ocasião da Assembleia Constituinte de 1987, o índio Ailton Krenak (ambientalista, escritor premiado) subiu à tribuna da Câmara dos Deputados e de terno branco passou a pintar o rosto, enquanto apelava aos constituintes que aprovassem uma emenda constitucional tratando do direito dos indigenistas. Pela primeira vez, num país depois de 480 anos de história, os índios tiveram seus direitos reconhecidos em uma Constituição, denominada de cidadã.
Daquele veemente discurso, a verdade que não pode ser ignorada para a vergonha dos que atentam violentamente contra os indígenas e os que procuram protegê-los: “Eu creio que nenhum dos senhores, nunca poderia apontar atos, atitudes da gente indígena do Brasil que colocaram em risco seja a vida, seja o patrimônio de qualquer pessoa, de qualquer grupo humano nesse país” (Krenak, Ailton).
Em 1988, imaginei que o assassinato de Chico Mendes (na frente de esposa e filhos) seria o divisor de águas no país, para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, o cuidado dos povos indígenas e população ribeirinha. Chico Mendes, seringueiro desde criança, lutava contra a expansão fundiária que substituiria a borracha pela pecuária em grande escala, dificultando o acesso à terra de pequenos produtores que viviam da economia de subsistência. Analfabeto até os 19 anos justificou seus projetos socioambientais por meio da palavra/letra e organização popular ao dar voz aos mais simples do norte do país, que não eram invasores de propriedades alheias, mas desejavam apenas a manutenção de seu labor e sustento.
Agora, passados 42 anos, escrevo para o jornal O Imparcial no momento em que também acontece o velório de Bruno Pereira na região metropolitana de Recife (PE). Bruno era servidor federal e ex-coordenador geral de índios isolados e recém contatados da Funai (Fundação Nacional do Índio). Com profunda experiência de indigenista e honroso trabalho entre os povos da Amazônia, prestava serviços à Univaja (União dos Povos Indígenas na reserva Vale do Javari).
Desnecessário narrar o drama que envolveu esse moço e sua família desde o dia 5 de junho, quando ele e Dom Phillips (jornalista) desapareceram no trajeto fluvial entre a comunidade ribeirinha de São Rafael até à cidade de Atalaia do Norte (AM). Seguido por uns poucos homens (covardes) que insistem na pesca predatória, principalmente do pirarucu, e ávidos pela segunda maior reserva indígena do país (85 mil km²), foi brutalmente assassinado pela ganância daqueles que apenas pensam em destruição e extinção do índio e de todos aqueles que os protegem.
Quantos Brunos morrerão (deixando órfãos, filhos e filhas), até que aprendamos a necessidade de preservar a Amazônia, a população indigenista e todos os homens e mulheres que não desejam outra coisa, se não a manutenção da vida? Amazônia, sua linda! Deus tenha piedade de nós!