Pelo menos oito empresas de carga requerem a recuperação dos trilhos e a reativação da malha ferroviária na região entre Presidente Prudente e Presidente Epitácio, de acordo com a UEPP (União das Entidades de Presidente Prudente e Região). Por pedido de sigilo, a união não pode revelar os nomes das interessadas, mas informa que são de conhecimento da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e da Rumo ALL (América Latina Logística), concessionária responsável pelo trecho. Ainda conforme a UEPP, o volume anual levantado e comprovado é de 927.786 toneladas e os principais produtos são açúcar, etanol, calcário, fertilizante, milho, soja, farelo, combustível e couro (
veja tabela). Os dados não englobam as cargas das regiões Centro-Oeste e Norte, que seriam alocadas em interligação com a Ferrovia Norte-Sul, que vem até Panorama (SP).

Demanda para a ferrovia regional foi debatida entre interessados
Com o objetivo de solicitar que a companhia faça um levantamento das empresas que necessitam do transporte ferroviário para o escoamento de produção, membros da UEPP e OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Prudente reuniram-se com o representante comercial da Rumo ALL, Gabriel Maranhão, na manhã de ontem, no Aruá Hotel. Apesar do conflito de opiniões, o encontro terminou com uma promessa que pode trazer esperança aos interessados: a concessionária deve apresentar, até 15 de janeiro, um relatório com o detalhamento das demandas e, com base nisso, expor uma proposta comercial.
A reunião precendente ocorreu em dezembro de 2015, quando a UEPP protocolou um relatório onde as empresas discorriam sobre suas produções mensais e anuais, bem como as intenções para o uso do transporte. Conforme noticiado por
O Imparcial em agosto, o último despacho sobre o caso foi publicado em julho deste ano, quando a Justiça Federal não concedeu suspensão do processo para a executada e esta continuou obrigada a revitalizar e a reativar a ferrovia, cujo prazo já havia encerrado em setembro do ano anterior. Desde então, vigora uma multa de R$ 30 mil por dia pelo descumprimento da companhia.
Opiniões
Para o diretor de comunicação da UEPP, Marco Goulart, entende-se que, na prática, o retorno da malha ferroviária está estagnado. "Infelizmente, estamos no campo das promessas, porque, na prática, o que temos hoje é uma linha férrea que não tem a mínima condição de tráfego. Sendo assim, a companhia não pode fazer a promessa da venda de um produto, que é o transporte ferroviário, se o tráfego for inviável. Então, a situação não é condizente com o que estão oferecendo, beirando até mesmo à má-fé", expõe. Segundo Marco, existe uma esperança, mas é preciso que as entidades continuem cobrando a reativação. "É importante salientar que trata-se de uma concessão pública e que a companhia possui um contrato com o governo federal a fim de manter o trajeto em pleno funcionamento", complementa.
O prefeito de Presidente Epitácio, Sidnei Caio da Silva Junqueira, Picucha (PMDB), esteve no local para acompanhar a reunião, que, como aponta, faz parte de um conjunto de encontros realizados pela concessionária. "Entendemos que, em função de uma ação do MPF contra a ALL, há a obrigação de promover essas reuniões. No entanto, desta vez, o representante comercial deu um prazo para visitar as empresas, o que representa um diferencial", denota. Para ele, a situação acende uma luz no fim do túnel para as empresas que estão dispostas a utilizar a malha ferroviária, posto que a demanda comprovadamente existe. "A reativação da ferrovia é completamente viável, falta apenas o aval da ANTT e Rumo ALL, que precisam colocar o sistema para operar. Nós entendemos que há outros trechos mais rentáveis, contudo, a desativação da malha na nossa região nos prejudica demais", avalia.
O vice-diretor do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), Itamar Alves de Oliveira Júnior, é mais relutante em relação ao caso. "A concessionária quer prorrogar a demanda porque não tem intenção de resolver o problema. Eles irão agora fazer o levantamento existente na nossa região, entretanto, o número de empresas que utilizariam a malha ferroviária vai além: existe demanda em todo o centro-oeste. Eles sabem disso, porque a maioria dessas empresas é cliente deles", explana. Itamar afirma que suas expectativas para a resolução do problema são baixas, dado que "o que a empresa quer é prorrogar os fatos para que possa se defender do processo que existe no MPF contra ela", pontua.
Outro lado
A reportagem tentou ouvir o representante comercial da Rumo ALL, Gabriel Maranhão, que pediu que a solicitação fosse feita à Assessoria de Imprensa da companhia. Em nota, a empresa informou que a Rumo ALL "vem cumprindo o seu papel de concessionária ferroviária de cargas e se mantém à disposição dos interessados em firmar contratos de transporte de longo prazo". "A empresa já participou diversas vezes de seminários em Presidente Prudente, nos quais é explicado o funcionamento da ferrovia e onde é oferecido o transporte buscando a captação de cargas, firmando contratos de longo prazo e analisando possíveis origens, destinos, fluxos e volumes de transporte voltados à contratação", comunica. Em relação ao encontro realizado ontem, diz que, demonstrando sua boa-fé, se disponibilizou a realizar reuniões específicas com a comunidade local com vistas a analisar propostas de contratos de transporte de longo prazo que possam viabilizar o transporte ferroviário.
Escoamento pelos trilhos
EMPRESA*
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MERCADORIA
|
TRANSAÇÃO
|
VOLUME ANUAL
|
UNIDADE DE MEDIDA
|
VOLUME ANUAL (TU)
|
A
|
açúcar
etanol
calcário
fertilizante
|
venda
venda
compra
compra
|
100 mil
100 mil
3 mil
4 mil
|
ton/ano
m³/ano
ton/ano
ton/ano
|
100.000
80.000
3.000
4.000
|
B
|
sem indicação
|
venda
|
360 mil
|
ton/ano
|
360.000
|
C
|
milho, soja e farelo
|
venda
|
120 mil
|
ton/ano
|
120.000
|
D
|
combustível
|
venda
|
120 mil
|
m³/ano
|
96.000
|
E
|
material elétrico e eletrônico
|
venda
|
1,2 mil
|
ton/ano
|
1.200
|
F
|
artefatos de couro
|
venda
|
360
|
contêineres/ano
|
8.586
|
G
|
couro curtido
|
venda
|
15 mil
|
ton/ano
|
15.000
|
H
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farelos de soja
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venda
|
140 mil
|
ton/ano
|
140.000
|
*Nomes das empresas não foram divulgados.
Fonte: UEPP