“O maior desafio é trabalhar contra o sistema capitalista. Nosso trabalho é de proteção do ambiente e da natureza, dos quais fazemos parte.”
– Laudessandro, agricultor quilombola de Ivaporunduva
Estive no Quilombo Ivaporunduva, no Vale do Ribeira, durante um trabalho de campo realizado em setembro de 2024. Fui para observar, ouvir, aprender. E voltei com mais do que anotações: voltei com a certeza de que Ivaporunduva é muito mais do que uma comunidade tradicional — é um território de resistência ativa diante da negligência histórica do Estado brasileiro.
Ali, mais de 110 famílias vivem do que a terra oferece — sem explorá-la. Cultivam banana orgânica, produzem alimentos para escolas públicas, compartilham saberes ancestrais com visitantes e se articulam politicamente em redes estaduais e nacionais. Tudo isso enquanto lutam, dia após dia, pela posse definitiva de seu território.
Ivaporunduva é reconhecido como o quilombo mais antigo de São Paulo. Mas esse reconhecimento não veio fácil — nem veio completo. Em 1994, a Fundação Cultural Palmares certificou a comunidade. Só em 2010 veio o título de parte das terras. O restante ainda aguarda. Enquanto isso, o governo oferece títulos provisórios de “usufruto”, como se o pertencimento à terra pudesse ser temporário.
O Brasil já deveria saber: terra sem título não é posse. É uma ameaça constante. E ameaça sobre território é também ameaça sobre cultura, memória, segurança alimentar, espiritualidade, futuro.
No campo, conheci Elson — historiador, educador, liderança comunitária. E Laudessandro — agricultor, coordenador do grupo de produção orgânica. Os dois me receberam com maior simpatia e firmeza. Falam com o coração, mas também com dados, com projetos, com resultados. São agentes políticos em pleno funcionamento, mesmo sem gabinete, verba ou mídia.
Eles não querem caridade. Querem justiça. Querem o que a Constituição de 1988 prometeu e ainda não cumpriu. Querem viver em paz, produzindo com a terra, e não contra ela.
A banana orgânica colhida por mãos quilombolas alimenta crianças em escolas públicas. O turismo de base comunitária que oferecem é também aula de história, geografia e humanidade. A renda que circula entre eles é coletiva. A terra, sagrada.
Mas o agronegócio avança. O mercado pressiona. O clima castiga. E ainda assim, Ivaporunduva não desiste. Enfrenta com palavras, com roçados, com oficinas de saber tradicional, com política do corpo presente. É resistência viva.
O artigo completo sobre a história, a organização e os desafios de Ivaporunduva acaba de ser publicado no Caderno Prudentino de Geografia, no número especial “Ocupação Preta: a história de um é a narrativa de todos”, lançado em parceria com o Nupe (Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão). Esse número é fruto direto do evento promovido pelo Nupe em novembro de 2024, em Presidente Prudente — um encontro potente de ciência, cultura, luta e pertencimento.
Lá, outras vozes negras compartilham suas pesquisas, vivências e reflexões. Porque a história de um é, sim, a narrativa de todos.
Estive lá. Vi, ouvi, senti. E agora escrevo para que mais gente saiba: Ivaporunduva resiste — mas não pode resistir sozinha.
Referência sugerida:
GUEDES, H, H; LIMA, V, M, M. Quilombo Ivaporunduva: história, organização e desafios. Caderno Prudentino de Geografia, Presidente Prudente, v. 2, n. 47, p. 146–168, mar. 2025. Número especial: Ocupação Preta: a história de um é a narrativa de todos. Disponível em: https://revista.fct.unesp.br/index.php/cpg/article/view/13034. Acesso em: 02 abr. 2025.
YOUTUBE. Documentário sobre o Quilombo de Ivaporunduva. Publicado por Canal Quilombos do Ribeira. Disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=8IoTAtvgRc4&t=3s. Acesso em: 02 abr. 2025.
QUILOMBOS DO RIBEIRA. Quilombo Ivaporunduva – Início. Disponível em: https://www.quilombosdoribeira.org.br/ivaporunduva/inicio. Acesso em: 02 abr. 2025.