— Jurandir, vem cá rápido! Tem um homem lá em cima dos fios da rua! Olha só o que esse doido de pedra tá fazendo?
— Uai, mulher, deixa o homem trabalhar. Deve ser um gatonet de alguém. Passa a bola, seu pé de boi.
— Trabalhar o quê, José! Sai dessa TV, olha pra cá. Ele tá arrancando os fios de cobre! Olha! Se ele levar os cabos, a gente fica sem luz a semana toda!
— Jesus amado, é verdade! Vou chamar a polícia antes que esse doido se mate ou deixe o bairro no escuro!
— Finalmente chegaram.
— Senhor, ó só: aqui é a polícia! Desça imediatamente! O senhor está cometendo um crime de furto e colocando sua vida em risco!
— Ele não está ouvindo. Use o megafone!
— Ó só: aqui é a polícia. O senhor tem que arriá daí agora! Está cometendo furto.
— Furto nada! Eu tava só... verificando a instalação!
— Para. Os vizinhos tão aí. Todo mundo já te viu, rapaz. Aliás, cê não é fi do Cláudio? Desce daí.
— Sô não. Cláudio vizinho do meu pai, o finado Deoclécio, irmão da Dita.
— Ah, tá. Mundo pequeno, né? Eu sou afilhado da Dita.
— Ô soldado, faz seu trabalho aí. Para com essa lorota.
— Ah, é. Desce daí! Cê tá furtando fio.
— Tá, mas vocês querem me prender assim, do nada?
— Como assim, do nada?
— Sem nem me dar um café?
— Esse daí já tá com fome, parece mais preocupado com a janta do que com a cadeia...
— Ô abençoado, desce logo, vai! A minha geladeira cheia tá prestes a estragar os queijos tudo. Desce logo, homem!
— Ah, pronto. Vai cuidar da sua vida, tia. Só desço se me garantirem que na delegacia vai ter pão de queijo fresquinho!
— Meu Deus do céu... Ô, Rocha, liga lá pra padaria do Zé e vê se tem pão de queijo essa hora pra esse artista.
— E um café bem forte, porque depois dessa, eu também vou precisar...
— Rapaz, eu já vi de tudo neste mundo, menos bandido exigente no pão de queijo. Vai logo homem. O bairro inteiro está esperando sua negociação, no escuro.
— E se eu fosse você descia logo que já já vai começar o jogo do Galo e o povo vai ficar enfezado.
— Tá combinado, hein? Se for café fraco ou pão de queijo velho, eu volto pra cima e a gente fica aqui até o Natal!
— Pode ficar tranquilo, seu gourmet. Café quentinho e pão saindo do forno. Agora vem, que já encomendei até um queijinho pra acompanhar...
— Só em Minas mesmo... Um ladrão que paralisa um bairro inteiro e ainda consegue negociar o cardápio da prisão.
— Uai, Marta, mas pelo menos ele tem bom gosto. Pão de queijo fresquinho é sagrado!
ps. Crônica baseada na vida real. No último domingo (30), um homem foi flagrado furtando fios de cobre na rede elétrica, em Belo Horizonte (MG), e após ser confrontado pela polícia só desceu para ir à delegacia se os guardas dessem a ele um lanche e um refrigerante.