“É o unidos do samba, que chegou pra sambar”. O trecho faz parte de um dos sambas-enredo da Unidos do Jardim Paulista, escola fundada na década de 70, em Presidente Prudente. E quem estava lá, fazendo parte de quem arregaçou as mangas para isso ocorrer é a carnavalesca Maria Izabel da Silva, mais conhecida como Bel nos carnavais prudentinos. Aos 58 anos, ela guarda consigo um envolvimento de pelo menos 40 anos com a festa mais tradicional do país, de modo que foi até mesmo passando de geração em geração.
Hoje, presidente da Liga das Escolas de Samba de Prudente, além de ser professora, ela ainda tem a vida destinada aos esforços para impedir que o carnaval regional não se acabe. Como ela mesma diz, “para quem gosta, para quem ama, é importante não deixar o samba morrer”. O que, ainda de acordo com Bel, tem sido difícil na cidade, “não só por questões financeiras, mas também pela falta de apoio social e preconceitos”.
Mas, mesmo com o cenário crítico, no que tange à festa, as memórias carnavalescas ainda existem e guardam os anos de ouro do carnaval prudentino, que, conforme a carnavalesca, ocorreu entre os anos 80 e 90. Cambaleando, com luta e muita vontade, ano após ano, a festa chegou até aqui, mesmo não sendo realizada em 2019, após o cancelamento do apoio da Prefeitura que ocorria anualmente.
Com O Imparcial, e aproveitando o clima de samba, serpentinas e alegria, Bel dividiu um pouco dessas histórias que viveu até hoje, que não se resumem à festança, desfiles e fantasias, mas também “às dificuldades e perrengues” que muitos não conhecem - dos bastidores -, mas não deixam de existir para que a história do carnaval prudentino chegasse até aqui.
O Imparcial: Como começou e se desenvolveu o envolvimento com o carnaval de Presidente Prudente?
Bel: Eu venho de uma família de vários irmãos. Então, por conta disso, digamos que sempre fui mais menino do que menina [ri]. Eu fazia de tudo um pouco com eles, seja estar envolvida no meio esportivo até cantar. E a partir do canto, na década de 70, nós fundamos a Unidos do Jardim Paulista, que foi quando eu comecei como cabrocha. Esse era o termo utilizado para as passistas. Mas, com o tempo, por desavenças na diretoria, eu saí de lá, isso nos anos 80 mais ou menos, e fundamos outra escola: a União da Vila. Eu costumo dizer que essa é minha escola mesmo, que eu abracei, e foi onde tudo começou a deslanchar mais. Mas ela também só durou 10 anos, porque foi surgindo novas escolas e os membros foram se dividindo. Por alguma delas eu fui rainha, passista e porta-bandeira, que sempre foi a função que mais amei fazer. Nomes como Águia Dourada e Zona Leste, por exemplo, foram as últimas em que atuei, e agora sou a presidente da Liga das Escolas de Samba.
O que você sentiu quando desfilou pela primeira vez no carnaval de Prudente?
A primeira vez que eu estive no carnaval foi por um grupinho de escola, na verdade. Eu estava entrando no ginásio - com mais ou menos 11 ou 12 anos -, estudava no Navio [Escola Municipal Dr. João Franco de Godoy], e fomos como sambistas. A fantasia, na época, eram as sainhas da educação física. Eu lembro que foi bem legal, porque eu queria ser vista e gostei daquela sensação de estar ali. E nos outros anos, pouco a pouco, fui criando essa relação com o carnaval, desfilando também por outras escolas.
São praticamente 40 anos de envolvimento com o carnaval prudentino. O que essa história representa para você?
Olha, é uma sensação inexplicável. Até mesmo nos anos em que eu não estava trabalhando, na avenida, desfilando, eu passava e hoje ainda passo, se for possível, a noite toda vendo as escolas entrando no desfile e fazendo aquele show. Mas estar no meio de tudo é diferente. Ser aplaudida pelo público, ver os olhos atentos das pessoas, os foliões... enfim, só quem desfila é que sabe dar essa resposta. Naquele momento ali, inteirado completamente nisso, você esquece a condição financeira, os problemas. Tudo é maravilhoso. Eu gosto muito e sinto prazer naquilo. Hoje, beirando quase os 60 anos, eu não desfilo mais, mas sinto falta. É uma balança, porque o corpo e a cabeça querem, mas o corpo, às vezes, não obedece. Porém, é muito bom. E eu espero que Prudente possa voltar a ser o que éramos no passado, isto é, referência regional.
E quais foram as histórias de carnaval que mais te marcaram?
São muitas histórias. São muitos pontos bons que, mesmo com o tempo, não deixam de estar na nossa memória, na memória de quem participa ou já participou. Mas algumas foram as principais, como a primeira vez que desfilei com rainha de bateria do carnaval, pela União da Vila e também pela Unidos do Jardim Paulista, que foi a minha primeira escola, quando realmente comecei. Eu não posso dizer que uma época em cada escola foi melhor que a outra, mas foi diferente. Eu gosto de todas as escolas, mas como a Zona Leste foi uma das últimas que desfilei, eu tenho um carinho muito grande também. Mas todas que passei me marcaram. Eu não posso me esquecer do ano em que desfilamos no tema do Kunta Kinte, que foi maravilhoso.
Não só as histórias que marcaram você ao longo desse tempo, devem ter também aqueles que não saem dos bastidores, que vocês guardam entre si. Como é isso?
Sim, são curiosidades de bastidores que ficam pra gente e, na maioria das vezes, é bem engraçado. Uma delas, bem legal, foi quando fizemos o samba enredo contando a história do Kunta Kinte. O rapaz que estava representando o escravo, a gente teve que realmente amarrá-lo, porque ele chegou bêbado no dia do desfile. Tem uma com o Hélio, que fazia parte da nossa comissão de frente, que entrou na avenida com uma meia de cada cor e foi muito engraçado, porque a gente percebeu somente na hora. Tinha outra moça, que chegava bêbada, jurava que era Iemanjá - era dependente - e exigia que a deixasse entrar na avenida. Fora a vez que, mesmo sendo trágico, a gente ainda riu. Porque teve uma vez que nós descemos pra Manoel Goulart, e era o primeiro ano com jurados e tudo mais. Era um dia muito chuvoso, mas quando chegou a nossa vez de entrar, a chuva piorou ainda mais. O tema do desfile era a primeira, havia vários guarda-chuvas lindos e coloridos, mas só sobraram as varetas, de tão forte que foi. Isso sem contar a Judite, uma das nossas integrantes, que passou querosene achando que era desodorante.
Muita gente conhece apenas a parte do carnaval relativa à festa. Mas como é trabalhar com isso?
Não só festa mesmo. Vamos começar falando das dificuldades, que não é só financeira. Nós temos uma comunidade sem participação. Não temos mais um grupo forte para montar a escola. É uma questão até meio que preconceituosa, sabe? Não sei se é porque vem de uma tradição afrodescendente. Mas até mesmo hoje essa tradição não existe mais. Não como antigamente, quando a gente tinha aquela empolgação, existia a comunidade do samba. Se naquela época a sociedade ainda tinha um certo receio, imagina agora. Se fizer um evento hoje e falar que é escola de samba as pessoas pouco comparecem. Então, é gostoso porque gostamos de fazer isso. Mas para quem é das antigas e hoje ainda tenta manter viva a chama, é difícil. Aos poucos as pessoas vão cansando, ficando velhas, e, infelizmente, a juventude não continua com a cultura. Então, temo que possa chegar uma hora que não haja mais resquício do carnaval em Prudente.
E quando foram esses anos de ouro do carnaval?
Ah, a gente pode dizer que foi na década de 80 e início da década de 90. É porque nesse tempo a comunidade era mais forte. O povo ia mesmo para a avenida celebrar e ver o desfile. Existia aquele briga gostosa entre as escolas, sadia, para saber quem ia levar o melhor carnaval à avenida.
Para você, qual a importância de dar força e continuar desenvolvendo o carnaval aqui na região?
Primeiramente levar o nome de Presidente Prudente, porque temos capacidade para isso. Se trabalhar bem, até renda para o município é possível gerar. Ano passado, por exemplo, quando acabou o desfile, as pessoas iam para Presidente Bernardes continuar a festa. Então, hoje as pessoas saem daqui para curtir e pular o carnaval que tem na região. Se a gente vira uma referência, isso fica o contrário. E isso movimenta a cidade. Então, se houver políticas públicas, companheirismo e parceira, todo mundo ganha. A cidade ganha, o comércio ganha, os foliões ganham. Acredito que isso é uma questão para se pensar bem. Entendo a situação financeira que todo o país vive, mas podemos fazer mais. Com tudo isso, poderemos resgatar o que já fomos um dia: nome do carnaval.
E vendo essas questões complicadas, a falta de ajuda e empenho, podemos dizer que é a morte do carnaval prudentino?
Esse ano não tem carnaval em Prudente. Isso ocorre porque houve o cancelamento da ajuda que sempre foi oferecida pela Prefeitura, mas não também pela falta de planejamento das escolas. Até pensamos em fazer, mesmo com a falta de apoio. Mas não tem nada, não tem verba, então, não tem como. Não deu para abraçar esse ano, então, teremos que curtir o carnaval em casa. Mas é triste saber que está deixando de se cultivar uma cultura. Porque o carnaval é cultura, é alegria e faz as pessoas felizes, mesmo muitos tendo preconceito. É uma festa que, se bem trabalhada, pode gerar renda. Me entristeço por conta disso. É um momento delicado para o país todo, mas não podemos deixar morrer, como o próprio samba diz. Para quem gosta, para quem ama, é importante não deixar o samba morrer. O que acontece é que não existe a tradição. As pessoas que eram consideradas cabeças, no passado, estão deixando de ser. Então, acredito que a tendência pode ser essa sim. Há uma minoria que ainda tenta, mas chega uma hora que a chama desse fogo acaba de vez. Falta cultivo, falta estrutura, falta verba, mas também falta vontade e amor. Volta ou outra a gente pensa numa proposta, tenta bolar algo, como adotar a Praça do Samba, desenvolver projetos e arrecadar recurso, mas passa. É triste.