O bebedouro do Parque do Povo no divã

De forma inusitada, o bebedouro recém-construído pela Prefeitura, em parceria com a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), fez contato comigo, muito deprimido. Pediu socorro, pois se encontrava depredado e havia sido assaltado. É urgente, disse-me. Claro que eu o atendi, de imediato. Agendamos e ele veio. Foi logo se deitando no meu divã. Estava muito frustrado. Eu o acolhi calorosamente, e dei todo espaço de que precisava para suas expressões emocionais. 
Ele foi logo relatando: “Eu lhe pergunto: Por quê? Eu cheguei pleno, lindo e todo bem equipado, torneiras para crianças, adultos, deficientes e pets, completo. A água fresca, gelada e todo meu corpo, anatomicamente, empático, para receber a todos. E daí, fui destruído por vândalos. Estou aqui, incomodado e inconformado. Tive e vivi meu momento de plenitude. Pude jorrar meus jatos com todo o vigor, beberam da minha fonte. Ah! A transitoriedade! Tenho certeza de que eternizei os momentos em que servi os cães, as crianças, os idosos, e pessoas que ficaram orgulhosas por eu estar ali, contribuindo de alguma forma. 
Eu estava gostando do local, o Parque do Povo é para o povo, sempre sonhei pertencer a um espaço onde pudesse conviver com as pessoas civilizadas, afetivas, maduras, construtivas e amorosas. Doeu-me quando arrancaram a primeira torneira, a da criança. Foi tão violento. Eu senti muito, jamais recusaria magoar ou frustrar uma criança, pois sei que o futuro pertence a elas. Vi bem nos olhos do destruidor, ódio e uma violência avassaladora pela beleza estética. Ele estava acostumado com o feio. E eu estava bonito no ‘pedaço’. 
Algumas pessoas, incomodadas com o que as outras têm de belo, por ter o feio dentro de si, destroem, pelo simples fato de não ter a capacidade de usufruir como o outro usufrui, de determinadas coisas. É como a inveja, muitas pessoas não invejam o objeto em si, o carro, a casa, o barco que o outro tem, mas sim, o como o indivíduo usufrui e a felicidade momentânea que aquilo proporciona. Tentaram arrancar as outras torneiras, mas não conseguiram levá-las, somente as destruíram. Permaneceu lá, a dos pets, mas o jato foi deteriorado e uma parte do meu corpo arrancado. Ah, como dói!”. 
Silêncio. Eu o ouvi atentamente. Foi comovente. Empática doía em mim, sua narrativa. Eu disse para o bebedouro: “Que o considerava como uma mãe com os peitos cheios de leite. Amamentando os filhos com algo nutridor. Uma fonte inesgotável de amor. Só o amor constrói. Quando somos desde a concepção, construídos ou feitos com amor, podemos ou encontramos internamente, forças, ousadia, valentia e naturalmente, capacidade para reconstruções e reparações”. Divido um pensamento interessante sobre os Maori (refugiados-Nova Zelândia), diz assim: “Vire seu rosto para o sol e as sombras cairão atrás de você”.
 

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