“Conhecer a nossa história é importante para a consciência do valor do negro na sociedade”

Professor acredita que a educação é a única forma de promover reflexões sobre igualdade social e preconceito, pois se trata de um ambiente propício para formação crítica e cidadã de seres humanos

José Reis - Lucas acredita que empoderamento negro pode romper o preconceito
José Reis - Lucas acredita que empoderamento negro pode romper o preconceito

No dia 20 de novembro é comemorado o Dia da Consciência Negra, que propõe a reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Músico de formação e professor de coração, Lucas dos Santos Ferreira, 26 anos, rompe com todos os estigmas colocados em cima desta população e diz que empoderar-se diante da sociedade é uma das formas de combater todo o preconceito ainda existente no Brasil. Ele fala que é de extrema importância que os negros saibam de onde vieram e sobre a história do povo antecedente, para que tenham conhecimento da própria cultura, para que assim estejam conscientes do valor que possuem na sociedade.

Docente há quatro anos, Lucas conta que a área da educação nunca foi um objetivo de vida, mas que quando se deparou com a atuação se apaixonou pelo trabalho. Ele acredita que a educação é a única forma de promover reflexões sobre igualdade social e preconceito, pois se trata de um ambiente propício para formação crítica e cidadã de seres humanos. Hoje, ele dá aulas em escolas da rede estadual de educação, assim como aulas particulares de violão. Formado em licenciatura de música, ele conta que entre as referências de atuação das pessoas negras que teve durante a trajetória, um professor de violão se destacou. “Ele sempre me ensinou valores sobre a vida e o ambiente da música. Além disso, sempre me espelhei em minha família que sempre se impôs diante do preconceito e nunca deixou de correr atrás dos sonhos”, expõe.

O Imparcial: Durante a sua trajetória dentro do ambiente escolar, você sentiu uma escassez de professores negros?

Lucas: Sim. Existem poucos na rede de ensino, mas não sei se é por conta das oportunidades ou pela escassez na procura pela área da educação, que hoje em dia é geral entre a população. Posso dizer que, enquanto professor, nunca cheguei a sentir preconceito racial, mas sei de muitas pessoas que frequentemente passam por isso. Talvez eu nunca tenha percebido, pois não me deixo abalar por esse tipo de coisa. Sei que para evitar esse tipo situação, nós, como negros, não podemos abaixar a cabeça e sempre temos que mostrar que estamos ali por nosso mérito e não vamos desistir da nossa função ou do que almejamos por conta da opinião alheia.

Em sua opinião, qual a importância de levarmos a diversidade racial para dentro das salas de aula?

É imprescindível, pois temos que mostrar que todos podem, independente da cor da pele ou situação social. Muitos falam que no Brasil não existe preconceito, mas existe sim, porém, na maioria das vezes, é mascarado. Por exemplo, se uma pessoa negra entrega um currículo em uma empresa, e disputa a vaga com uma pessoa branca, por mais que o negro possua um melhor currículo, o da outra pessoa sempre será o preferido. São nesses casos que vemos que segregação racial ainda existe e que ela precisa ser discutida dentro da sala de aula. Devemos ensinar esses alunos que não podem classificar as pessoas de acordo com a cor da pele ou pelo modo de vestir, por isso esse ensino é necessário para mostrar que as pessoas não possuem diferenças.

A população negra conquistou maior espaço no mercado de trabalho ou ainda tem que avançar nesta área?

Acho que a população negra já avançou muito neste quesito, mas possui capacidade para avançar muito mais. Muitas oportunidades existem, mas temos que driblar o preconceito e fazer com que sejamos reconhecidos pelo que somos e pelo nosso potencial. Há uma visão estereotipada da pessoa negra. Por exemplo, se você vir um negro bem vestido, com carro do ano, as pessoas já pensam: como ele conseguiu isso? Como se não fossemos capazes de conseguir o que almejamos. Temos que ir atrás destas oportunidades e mostrar que o que conseguimos não é por sorte, mas sim resultado do nosso suor e dedicação.

Por que você quis se tornar professor?

Na verdade eu não queria. Eu cursei a faculdade de Música e, através dos estágios, comecei a gostar dessa carreira, e pude perceber que é satisfatório ensinar alguém e ver até onde ela pode chegar e acompanhar as conquistas ao longo da caminhada de ensino. Quando comecei a dar aula de artes, vi que muita coisa poderia acontecer para mudar esse estigma de que o ensino da arte é fácil. A arte você leva para a vida, pois ela contribui para uma formação crítica e cidadã, fazendo com que os alunos adquiram outra visão de mundo e vai além do próprio nicho em que vivem.  

Durante a sua infância, você sentiu falta de docentes negros que lhe servissem como modelos e nos quais se inspirasse?

Senti sim, principalmente que eles fossem mais qualificados e bem preparados, pois poderiam mostrar mais para o povo suas qualidades, para que nos espelhássemos neles. Eu tive alguns professores na escola que foram muito importantes para meu reconhecimento e inspiração, mas o que mais me marcou foi um professor de violão. Ele me ensinou muitas coisas, que vão além dos termos técnicos da música. Ele me ensinou valores humanísticos, como humildade e dedicação.

No dia 20, é lembrado o Dia da Consciência Negra. Qual a importância do negro conhecer a sua história e a sua cultura?

É extremamente importante, pois eles precisam saber de onde vieram, o que os seus antecedentes passaram para poder chegar até aqui, assim como refletir como algumas situações ainda não mudaram. Eles devem estar cientes de toda a história que correm em suas veias, pois se trata de uma história belíssima de superação, que percorre até os dias de hoje, e é necessário que, além do mais, todo esse conhecimento favoreça a luta diária contra a discriminação racial e o preconceito que ainda estampa a nossa sociedade, seja de maneira explícita ou mascarada.

Você procura levar temas como igualdade social e preconceito racial para dentro da sala de aula?

Sim, principalmente como valores de como tratar as pessoas da mesma forma, através de uma abordagem expressiva, mostrando canções de vários gêneros, o contexto onde foram produzidas, origens dos artistas e demais. Quando mostro os quadros e pinturas antigas, procuro abordar aspectos de como as pessoas viam o mundo ou o Brasil daquela forma, como eram as culturas, como forma de romper com os pensamentos de desigualdade que podem existir e fazendo com que desenvolvam um olhar crítico e de respeito com outras crenças, raças, religiões e culturas.

A escola deve ter compromisso com o desenvolvimento cidadão dos alunos?

Sim, com certeza. Isso é muito importante, pois, no âmbito escolar, os alunos podem aprender a conviver com o outro, em meio à diversidade e, assim, compreender e respeitar as diferenças. Se o aluno cresce com isso, ele aprende a melhorar a visão de mundo. A escola tem esse compromisso de formar os alunos para que não cresçam pessoas fechadas na própria realidade, e que saibam conviver com as diferenças para que vivam em um mundo melhor.

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