Cotidiano

Urbanismo, modo de usar

Rogério Quintanilha • 11/01/2019 04:30:00

Segundo dados do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), Presidente Prudente ultrapassou em outubro de 2018 a marca de 170 mil veículos registrados: 110 mil carros e caminhonetes, 40 mil motocicletas e motonetas, e o restante distribuído entre outros tipos. A cidade forçosamente se adapta aos novos números reformando ruas e espíritos conformados em cruzar novas rotatórias que logo estarão tão abarrotadas quantos as antigas. Mas o que o urbanismo tem a dizer sobre isso? Um consenso: não existe solução baseada no transporte individual. Não existe. Ao contrário, a dependência do automóvel tende, além disso, a consumir uma quantidade cada vez maior de recursos em obras viárias de eficiência cada vez menor que, por fim, apenas perpetuam esta dependência. E solução que preserva a origem do problema, vocês sabem, não é solução.

Urbanistas pelo mundo todo sabem que há outro caminho: prioridade, qualidade e acesso ao transporte coletivo; prioridade e qualidade de acesso ao pedestre; e, por fim, redesenho da própria cidade em núcleos de funções e classes sociais diversificadas de modo a diminuir distâncias e a necessidade de grandes deslocamentos para as atividades cotidianas. A integração entre os diversos modos de locomoção: o caminhar, o ônibus, a bicicleta, e sim, até o automóvel, especialmente o compartilhado, desde que deixe o posto de senhor da cidade e venha a adaptar-se a ela, e não o contrário.

A rua, dada como morta no século 20, mero corredor para automóveis e hostil aos pedestres, volta a ser protagonista e isto não é uma opção, é uma necessidade. Nas grandes cidades, mesmo no Brasil, cresce o número de pessoas que optam por não ter carros e ressurgem os mercadinhos de bairro a poucas quadras de casa. A rua de serviços, o restaurante, o cabeleireiro, o verdureiro da esquina, também estão na moda para quem cansou de rodar atrás de estacionamentos em shopping centers. É o retorno da vizinhança. Dessa forma, fica claro que o problema do trânsito não começa propriamente no automóvel, mas na forma como a cidade se distribui pelo espaço, se espalha excessivamente afastando funções e classes sociais e exigindo que rodemos muitos quilômetros por dia para cumprimos nossas tarefas diárias.

A isso chamamos segregação, e precisaremos falar sobre isso também. Mas se a segregação, esta separação e espalhamento da cidade que exige tantos e tão longos deslocamentos diários, causa tantos problemas, porque construímos nossa cidade assim? Há muitas respostas para esse problema, mas uma delas é que fazemos assim simplesmente porque podemos. Quero dizer com isso que antes do surgimento e popularização do automóvel, as cidades eram, e só podiam ser, compactas. Poucas quadras separavam a casa do comércio, do emprego, do lazer, os ricos dos pobres. Se o automóvel por um lado aumenta a nossa capacidade de deslocamento, por outro passou a exigir esse deslocamento até o limite.

As cidades espalharam-se, criaram-se as periferias, os subúrbios, os grandes equipamentos urbanos de lazer, comércio e serviços, aonde só se chega, praticamente, de carro. Era uma solução, virou um problema. Se tudo parece complicado, pode ficar pior: adicione à massa uma economia bastante dependente do automóvel como produto, uma sociedade extremamente desigual e elitista em que a segregação e a distinção social (onde você mora, onde você vai e com quem se mistura) está na alma da sociedade como em poucos lugares do mundo e uma cobertura simbólica de poder e status que encontrou no automóvel um símbolo perfeito para se manifestar. Está armada a bomba relógio das cidades brasileiras.

O urbanismo, essa ciência de fazer e, eu acrescentaria, entender cidades, pode partir da observação de um dado urbano, o aumento do número de veículos, e tentar explicá-lo dentro de uma conjuntura que envolve história, política, economia, arte, psicologia, sociologia, e tudo o que diga respeito a produção humana. Afinal, as cidades, assim como a religião e a ciência, estão entre as mais fantásticas e perigosas obras que o homem foi capaz de criar sem ser normalmente capaz, ele mesmo, de entender.

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