Cotidiano

Uma recordação de infância

Maria Angélica Amoriello Bongiovani • 29/06/2018 05:30:00

Goethe, poeta, escritor, romancista, filosofo, etc, faz uma observação numa das primeiras paginas da autobiografia que começou a escrever aos 60 anos de idade. “Quando procuramos recordar o que nos sucedeu nos primeiros anos da infância, muitas vezes chegamos a confundir o que nos disseram outras pessoas com o que realmente sabemos por testemunho e experiência própria”. Ele nasceu em 28 de agosto de 1749. A constelação dos astros lhe era favorável, pois ele veio ao mundo “como morto”, e apenas após vários esforços conseguiram que abrisse os olhos. Goethe relata um acontecimento que pode ser situado nos “primeiros anos da infância (até a idade de quatro anos?), e do qual ele parece ter conservado uma lembrança pessoal.

A recordação é a seguinte: “Tinha havido uma feira de louças no bairro, e não só a cozinha fora abastecida por algum tempo com tais mercadorias, mas também nós ganharíamos, como brinquedos, uma série de utensílios semelhantes em miniatura. Uma bela tarde, quando reinava a paz em toda a casa, estava eu entretido com meus pratos e panelas no vestíbulo (o lugar que dava na rua) e, como não sabia mais o que fazer com eles, joguei à rua um desses brinquedos e achei divertido vê-lo quebrar-se de maneira inesperada.

Os Ochsenstein, que me viram bater as mãozinhas no meu transporte de júbilo, gritaram: “Outra vez!”. Não hesitei nenhum instante. Lá se foi uma panela e, como eles não cessaram de gritar “Outra vez!”, todos os pratinhos, os pequenos vasos e as panelinhas se espatifaram um depois do outro na calçada. Acabaram as miniaturas e a alegria dos vizinhos era tanta que iniciei jogando pela janela os pratos de uso diário nas refeições. Foi então que apareceu alguém, mas demasiado tarde, para dar ponto final àquela e proibir-me a brincadeira”.

Já sabemos dá rivalidade entre irmãos e suas formas implícitas e múltiplas em expressões. Naquela época havia nascido outro irmão de Goethe. E ele estava enciumado. Freud (psicanalista), em 1917, escreve que “pode-se então formar a opinião de que o ato de lançar fora a louça é uma ação simbólica ou, mais precisamente, mágica, com que o menino (tanto Goethe como meu paciente) dá vigorosa expressão ao desejo de eliminar o intruso (irmão) que o incomoda. Não contestamos o prazer do menino em quebrar objetos. Quando um ato já em si é prazeroso, isso não constitui um impedimento, mas um incitamento a repeti-lo, está à serviço de outros propósitos.

O menino que destrói a louça sabe que está fazendo algo ruim, pelo qual os adultos o repreenderão e, se esse conhecimento não o referia, provavelmente há um rancor contra os pais que deve ser satisfeito; ele quer mostrar-se mau. A criança em sua tenra infância já manifesta alguns sentimentos de hostilidade como ciúmes, inveja, enfim, angústia de separação, exclusão ou desamparo. Segundo Freud, “sabe-se que as crianças, quando suas paixões despertam, jamais desenvolvem reações veementes ante os irmãos que já existem, dirigindo sua aversão “aos que chegam”. Esse “jogar para fora”, no entanto, parece ser parte essencial da ação mágica, tendo origem no sentido da mesma.

A nova criança, ou irmão que nasceu, deve ser levada embora, possivelmente pela janela, porque veio pela janela. Toda a ação equivaleria, desse modo, à reação verbal já nossa conhecida, de uma criança que, ao ser informada que a cegonha lhe trouxera um irmãozinho “diga para levar ele de volta!”, foi sua resposta. Freud relata em seu volume 14, tradução de Paulo Cesar de Souza que, “seria arriscado basear a interpretação de um ato infantil numa única analogia. Por isso retive durante anos minha concepção da ligeira cena de Poesia e verdade (Goethe).

Um dia, veio-me um paciente que iniciou a analise com as seguintes afirmações, registradas literalmente: Uma de minhas primeiras recordações é de meu pai dizendo que eu havia ganhado um irmão, na época tinha três anos e nove meses. Lembro que um pouco depois, joguei pela janela, na rua, vários objetos, escovas, sapatos e outras coisas. A criança em tenra infância, já tem vida psíquica e sofre. Precisamos olhá-la ternamente e compreender a sua essência.

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