Cotidiano

Transtorno de pânico

Maria Angélica Amoriello Bongiovani • 09/11/2018 04:05:00

O conceito de Freud (1895) de neurose de angústia tem bastante semelhança com o que a psiquiatria tem chamado TP (transtorno de pânico). Ele descreve sintomas como irritabilidade aumentada, expectativa ansiosa, ataques de ansiedade, equivalentes somáticos do ataque de ansiedade (taquicardia, distúrbios respiratórios, sudorese, tremores e calafrios, distúrbios digestivos, parestesias, pavor noturno, tonturas e vertigens). Relata também comportamento de esquiva em que o paciente evita situações que lhe relembram crises.

Os ataques de pânico descritos pela psiquiatria podem ocorrer em variados quadros psiquiátricos (surtos psicóticos, uso e abstinência de substancias psicoativas, transtornos de humor, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse agudo e pós-traumático, etc.). Há transtorno de pânico sem agorafobia, que é quando os ataques ocorrem de forma recorrente e inesperada, seguidos do receio de que se repitam, com medo de consequências terríveis (ataque cardíaco, loucura, morte, etc.) e levando a mudanças no comportamento. Quando também se desenvolve evitação de locais ou situações de onde não se pode fugir ou que dificultam a busca de auxilio, o diagnostico será de “transtorno de pânico com agorafobia”.

Neste modelo, não implica em fobia de lugares abertos, mas em medo de ter um ataque de pânico e não encontrar rota de fuga ou auxílio. o transtorno de pânico leva a uma dinâmica rotineira de muito sofrimento para quem o tem e sente, estendendo para toda a família. Há sofrimento humano e necessita de uma investigação esmiuçada melhor, sobre as possíveis causas da crise de “pânico” frente ao seu contato. A psicanálise tem se aprofundado no estudo e observam-se grandes dificuldades de simbolização e das vicissitudes do afeto, permitindo sua melhor compreensão e o desenvolvimento de teorias que facilitam o acesso técnico a pacientes somatizadores, narcisistas, autistas, psicóticos e borderlines.

A psicanálise preocupa-se muito com o aspecto mental, em como ela se constitui e se desenvolveu e como suas funções se tornaram deficitárias. A impossibilidade de pensar as emoções leva à descarga por meio de identificações projetivas massivas no ambiente e no corpo. Os pacientes que procuram a psicanálise têm menos relação com as crises devido a uma busca de compreensão do grande vazio que chega a transbordar. Os ataques de pânico se constituem num marco vital, que leva ao tratamento vivido como uma oportunidade de reavaliar a vida, o que nunca fora sequer pensado. Não poucos pacientes, no final do processo analítico, “agradecem” os ataques pelas radicais mudanças de vida obtidas. Dessa forma, abre-se espaço para ressignificação e mudança psíquica.

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