Sociedade cansada

Sandro Rogério dos Santos • 04/11/2018 05:38:00

Falta-nos, aos humanos desta hora histórica, um pouco de transcendência, contemplação e silêncio. Estamos agitados em demasia numa correria sem fim. Sem tempo para maturar as ideias, dizemo-las desconsiderando consequências a não ser a necessidade do ‘eu preciso dizer o que penso’ (e, assim, mostrar o equívoco alheio). Estamos cansados. Fatigados. Precisamos descansar. Dar descanso ao celular. Desligar o computador. Desligar os aparelhos eletrônicos. Pisar os pés na grama. Tomar um banho demorado. Tentar estar (corpo e espírito) onde se está. Viver o presente sem a ansiedade do momento seguinte. Um pouco mais de silêncio contemplativo fará bem a todos nós.

Por exemplo, quando nos pedirem opinião sobre qualquer coisa, parar um tempo antes de dizê-la, fará bem a todos nós. Uma sociedade superficial, com ares definitivos e tagarela não me parece ser a mais adequada à convivência e à saúde dos indivíduos. Estamos cansados. E cansados não nos entendemos. Precisamos de compreensão e, parece, ninguém ousa nos compreender. Jesus convidou a descansar n’Ele os fardos e os jugos da vida; e a aprender d’Ele, ‘manso e humilde’ (cf. Mt 11,28-30). Os não-cristãos descansem no prazer de uma conversa lenta, atenta, acolhedora com as pessoas amadas, envolvendo-se pela conexão entre elas, sem mediações, numa espécie de ócio.

Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, parte da sociedade está trocando o mal-estar do limite por um novo mal-estar: o do excesso de possibilidades. Hoje, se algo é possível fazer, eu me sinto obrigado a realizá-lo. É como se estivéssemos sob a ditadura das possibilidades. E passar dos limites é uma forma de caminhar para o vazio da exaustão (que vem depois do cansaço e da fadiga). De fato, além de cansados, estamos abatidos e desanimados; e não falo apenas do mundo político, mas da sociedade em geral. Há uma espécie de adoecimento da alma.

O título desta crônica é inspirado no livro “sociedade do cansaço” do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que mora em Berlim. Com ele, percebemos que a aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons, de mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, a superinformação que nos chega pelas mídias sociais, nos produzem doenças neuronais: depressão, dificuldade de atenção e uma síndrome de hiperatividade. Chegamos ao fim do dia estressados e desvitalizados. Nem dormimos direito, desmaiamos.

O ritmo da vida de cobranças exacerbadas afeta-nos a todos. Levamos para casa o trabalho e o vigia. Todos os dias temos metas a cumprir e a roda-viva não termina nunca. Essa autocobrança desequilibra emocionalmente as pessoas, gerando irritabilidade e ansiedade permanentes. O número de suicídios é assustador. Ressuscitou-se, na observação de outros pensadores, um slogan da revolução de 1968, agora radicalizado. Então, se dizia: “metrô, trabalho, cama”. Agora, se diz: “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer: doenças letais, perda do sentido de vida e verdadeiros infartos psíquicos.

Esperança e Alegria são duas palavras frequentes nas palavras do Papa Francisco. Ele grita da janela vaticana para que revisemos o nosso jeito de ser e de estar no mundo. Fala não somente aos católicos, mas aos homens e mulheres de boa vontade espalhados pela cidade e pelo mundo inteiro (urbe et orbi); indica o resgate da vida e dos espaços de convivência para jovens e idosos e o encontro desses dois extremos da existência. Afinal, agitação sem experiência, barulho sem serenidade... podem nos fazer perder o caminho da realização futura e do êxito existencial que não se dá apenas pela produção de coisas, mas por uma vida com sentido.

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

 

 

 

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