Cotidiano

Poema da culpa

Maria Angélica Amoriello Bongiovani • 02/11/2018 05:02:00

Culpa é aquela velha rabugenta, verrugas no queixo, olhos semiabertos, que arrasta o chinelo pelo chão, já sem força. Toda vestida de preto, vive em luto patológico ou melancólico. Carrega dentro de si algo já em decomposição. Qual é a idade da culpa? Não importa. Dependendo de seu potencial, aprisiona, invade a alegria e limita expansão. Muito intrusiva, autoriza e desautoriza quando quer. Não conheço bruxas. Mas parece uma descrição fidedigna. Cabelos grisalhos, longos, secos e esturricados, e muitos ao chão, pelo estado de inanição afetiva.

A culpa reverbera, regurgita, dá refluxo, mal-estar e indigestão. É barulhenta por dentro, atormenta e ninguém aguenta. Sendo bruxa, envenena a corrente sanguínea diariamente, obstruindo lentamente. Placas de ateroma são depositadas impregnando. Embolia, fibromialgia, miocardiopatia são companheiras e íntimas da culpa. A culpa não sonha. Sonhos libertam para caminhos da criatividade. Culpa provoca insônia, levando para caminhos da destrutividade. É tão dolorosa que acaba provocando uma repetição ao ponto de origem. Assim, acaba não saindo do lugar.

Quando a culpa relaxa, muito raramente por sinal, decolamos. Lá em cima, em êxtase, assim como Ícaro, com suas asas de cera, despencamos. A alma da culpa esborracha no chão como o pai de Ícaro, Dédalo. Quem manda voar muito perto de regiões frias! Enrijece mesmo. Assim como a culpa, que mais parece depois da bruxa, um pântano escuro, não se planta semente. Nada brota. Quando a culpa relaxa, novos investimentos são realizados de forma muito pesada, lenta e prolongada. Muitos desistem pelo caminho. Alguns abandonam e reiniciam. A culpa desvitaliza. Você vai, segue em frente, no caminho do êxito, não se acha merecedor; abandona.

Descobri que a culpa é bipolar. Oscila entre altos e baixos. Do megalomaníaco ao deprimido. Esfarrapada culpa. Se eu quero te arrancar de mim, não consigo. Só se me arrancar de mim mesmo. Como lidar com a culpa? Assim, a “culpa” soprou no meu ouvido: “Por que abortei aquele filho?”; “Por que deixei meu filho ir naquela viagem?”; “Por que não o denunciei a polícia?”; “Por que o deixei abusar de mim por tanto tempo?”; “Por que bebi tanto naquela noite e fui dirigir?”; Por quê? Ah, se soubesse!

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