Cotidiano

Paciência e o tempo

Nagib Anderáos Neto • 08/11/2018 04:08:00

Não importa se vamos devagar, o importante é não parar, teria dito o pensador chinês Confúcio (551 aC - 479 aC), para quem transportar um punhado de terra todos os dias permitiria fazer uma grande montanha. Para ele, não corrigir as nossas falhas seria o mesmo que cometer novos erros. Seus ensinamentos não conformavam uma religião, senão um guia comportamental, para ser posto em prática. Ensinara que cada um deveria corrigir a própria conduta, antes da alheia.

A síndrome da urgência é uma doença da modernidade, apesar da sabedoria popular já nos ter prevenido sobre os prejuízos da impaciência. A pressa é inimiga da perfeição, costumávamos ouvir dos mais velhos. E para com quem tem urgência, devemos ter paciência. O bem mais precioso da vida é o tempo, que, em essência, é ela própria; para ganhá-lo, seria necessário aprender a pensar, criar soluções para os problemas do dia-a-dia, ideias e pensamentos que fossem úteis a todos. Os apressados, sempre a cobrar urgência de si e dos outros, são os que mais violentam o tempo e a vida, mais erram, pois fazem tudo superficialmente.

A natureza segue seus processos e ciclos, não tem pressa, é uma mestra exemplar. As invenções humanas são formas de conquistar tempo livre, que depois é desperdiçado. São os paradoxos da inteligência, capaz de imitar a natureza para inventar coisas maravilhosas, e depois deixar que as modernidades venham destruir o homem, pelo excesso de comodidade e falta do que fazer no imenso tempo que sobra.

Como liberar-se da escravidão imposta pelos ponteiros do relógio e a urgência? Como adiantar-se ao tempo? A pressa é uma doença causadora de muitos erros, acidentes e desentendimentos; urticária psicológica, que torna as pessoas desatentas, esquecidas, ineficazes, levando-as a falar demais, correr e ser superficial.

Todos vivem muito apressados, pressionados por compromissos e horários, numa louca e absurda carreira, a comprometer a saúde física e psicológica. Ao fazer tudo apressadamente, desesperadamente, a qualidade do que se realiza fica comprometida; a correria leva ao automatismo, à rotina, à desatenção, ao desprezo pelos detalhes, que mereceriam um olhar mais cuidadoso. É como se as pessoas corressem atrás de um futuro a não chegar nunca, e almejassem um final sobre o qual se precipitassem, sem saber o desfecho.

A rotina e a pressa são causadoras da depressão, vazio e tristeza. Fazer tudo sempre da mesma maneira, sem nenhuma variação ou renovação, faz fracassar a capacidade de iniciativa, submergindo o indivíduo no marasmo do tédio e na desconfortável sensação de inutilidade. Aproveita-se o tempo fugindo da rotina, rompendo os hábitos, as mesmices, os preconceitos. “Sejamos como os rios, que renovam constantemente suas águas”, escreveu certa vez González Pecotche.

Ao agir mecânica e rotineiramente, não se pensa no que se faz; vive-se distraída e esquecidamente. É necessário criar o hábito de pensar, e aperfeiçoar tudo o que se faz, colocando novas atividades e estímulos na vida. Não sejamos como Sísifo, o trágico herói mitológico, condenado a realizar por toda a eternidade um trabalho inútil e sem esperança. Transformemos a vida renovando e aperfeiçoando nossos pensamentos, criando novas atividades, e superando as condições pessoais.

Numa cidade grande parece que todos estão a correr dos outros e de si, para se entocar num fosso, ou se precipitar numa depressão, que os mais astutos e careiros médicos de alma não conseguem curar. A pressa é uma fuga, incomoda hóspede psicológica, incompreensão, falta de conhecimento. Por detrás dela há um defeito, que se chama impaciência, doença a danificar o sistema nervoso.

No livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, González Pecotche diz que “o impaciente é um escravo do tempo, o fantasmagórico, que nada tem a ver com o autêntico, tão frequentemente dissipado em banalidades, justamente por se desconhecer o seu real valor”. E o autor sugere que, quem padeça dessa doença, se exercite no cultivo da paciência inteligente e ativa, a que “além de infundir serenidade torna o homem compreensivo, permitindo-lhe pensar com utilidade e proveito, e estar atento às suas necessidades e deveres durante todo o tempo, curto ou largo, que abarque a espera”. Saber esperar é como saber viver, desde que a espera não seja a passiva, sempre a nos fazer sofrer.

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