Cotidiano

Eu sonhei que...

Maria Angélica Amoriello Bongiovani • 07/12/2018 04:30:00

Eu sonhei que o sinaleiro ficou vermelho e não havia mais os rapazes do malabarismo. Doía vê-los ao sol, mal se equilibrando, ansiando por miseráveis moedas. Eu sonhei que o sinaleiro ficou verde e o indivíduo atrás do meu carro não buzinou ansioso para seguir o seu caminho, às pressas. Eu sonhei que andava pelas ruas e não via tantos cães perambulando sem eira nem beira, por um pedaço de lar. Eu sonhei que, não havia crianças mendigando pelas ruas por um prato de comida. Eu sonhei que não havia pais orientando seus infantes a pedir esmolas no sinaleiro, para poderem alimentar seu próprio vício. Também sonhei que não havia “empresário” arrebanhando crianças em fase de latência para pedir esmolas, e ao chegar ao fim da tarde, vir pegar o que arrecadaram o dia todo, em troca de uma pequena quantia de “substancia da alegria fabricada”, que ele mesmo os doutrinou.

Sonhei que não vi o “empresário” chegando e as crianças correndo em sua direção como se fosse o Papai Noel, com um saco enorme, cheio de cola, e não Coca-Cola, pedrinhas, ervinhas, balinhas, e até o pó branco. Sonhei que o pó branco era leite ninho. Que saudade das balas baianas, sete belo, bala chita, doce de leite, doce sírio e dadinho! Eu sonhei que pedrinhas de brilhante eu jogava para o meu amor passar. Eu sonhei que a verba que o Estado disponibiliza para a Educação havia chegado ao seu destino. Chegou! E que as crianças entravam em filas, todas uniformizadas na sala de aula. E que os alunos pediam licença para o professor para sair ou entrar na sala de aula. E que o bom dia, boa tarde e boa noite haviam retornado ao repertorio da língua portuguesa.

Também, “por favor”, “obrigado”, “sinto muito”, “está precisando de ajuda?” e “pode passar na minha frente, o senhor é idoso, posso aguardar”. Eu sonhei que o aluno foi doar sangue, mas não para ganhar um ponto na média. Eu sonhei que o orfanato se encontrava vazio. Eu sonhei que a verba para a Saúde pública havia chegado também. E que os médicos trabalhavam com mais recursos. Podiam pedir os exames de urgência, sem terem que, desanimados, assinarem o atestado de óbito. Eu sonhei que tinham descoberto a cura do câncer. Eu sonhei que próximo ao aeroporto não havia mais lixo empilhado. E que as pessoas estavam mais conscientes de que o lixo é um problema de cada um de nós. E que cada poltrona que não serve mais para um, deve servir para o outro. Os terrenos baldios é que não precisam. Quem é que precisa sentar em sofás no meio do mato?

Eu sonhei que, cada um se responsabilizava pelo seu lixo. O planeta é de todos. Somos todos responsáveis pela sua preservação. Cada forma de maltrato ao planeta e todo seu desdobramento ambiental, reflete em cada um de nós e toda a nossa família. Todo malefício que provocamos hoje no meio ambiente, por menor que seja, irá refletir amanhã no meio em que vivemos. Todos, de alguma forma, serão atingidos. Eu sonhei que tolerar as frustrações inerentes à vida estava sendo mais bem digerida em nossa realidade.

Eu sonhei que os seres humanos, diante de faltas, vazios, perdas e traumas toleram melhor a dor, simbolizando. Ou seja, não utilizam soluções mágicas ou defensivas para compensar as angustias negando ou fugindo para descargas ou atuações como: compulsões, drogadições, alcoolismo, etc. Enfrentam com seus recursos e na medida do possível vão elaborando o mal-estar inerente ao viver. Somente dessa forma poderemos chegar ao desenvolvimento e o fortalecimento emocional. Daí eu acordei... E vi que, no vermelho do sinaleiro, o rapaz malabarista continuava lá, a espera de moedas.

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