Cotidiano

Enterrar os mortos

Sandro Rogério dos Santos • 28/10/2018 04:30:00

Cristo não tinha lugar para ser sepultado. Um amigo, José de Arimateia, cedeu-lhe o seu túmulo. Mas não só isso, teve a valentia de se apresentar diante de Pilatos e pedir-lhe o corpo de Jesus. Nicodemos também participou, ajudando a sepultá-lo (cf. Jo 19,38-42). Enterrar os mortos parece um mandato supérfluo, porque todos são enterrados. Mas, por exemplo, em tempo de guerra, pode ser um mandato muito exigente. É importante dar sepultura digna ao corpo humano porque este foi alojamento do Espírito divino. Somos “templos do Espírito Santo” (1 Cor 6,19).

Ademais, enterrar os mortos é uma obra de misericórdia corporal. Na Carta do Ano da Misericórdia, o Papa Francisco afirmou que o mistério da fé cristã parece encontrar a sua síntese nas palavras: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”. Na ocasião, Francisco exortou a Igreja a redescobrir pela prática das obras de misericórdia –espirituais e corporais– a força do Deus justo e misericordioso, despertando a consciência dos cristãos amiúde adormecida na indiferença para com os pobres. Às vésperas do Dia de Finados, considero oportuno abordar esse assunto.

Honrar a memória dos mortos é dar ‘peso’, reconhecer o real valor de cada pessoa em sua singularidade e em nossa vida. Também outros povos, de costumes mais arraigados, têm a sua tradição de cuidar dos mortos. Há, por exemplo, tradições africanas que enterram o morto no quarto onde viveu a sua vida. Desde o enterro inicia-se o processo do luto. Por um tempo o quarto fica lacrado mas depois é aberto para ser novamente habitado. “Nessa região da África [Benin], não islamizada, o subsolo das casas pertence aos mortos. É como se, simbolicamente, as famílias alicerçassem suas casas nos ossos dos seus antepassados. As casas são uma espécie de armazém da memória das gerações”. (Evaristo Eduardo de Miranda). Essa convivência entre vivos e mortos é vista como forma suprema de honra, cortesia e benevolência para com os mortos.

A honra dos mortos tem a ver com a honra dos vivos. Para sociedades que não honram os seus cidadãos vivos não se deve esperar honra quando mortos. Nos tempos pouco afeitos à ideia de morte e com forte tendência a camuflar o sofrimento e a morte, haverá mais dificuldade de se manter tradições, costumes, ritos comemorativos à lembrança dos antepassados. Volto ao âmbito cristão para destacar o papel do batismo, que é a forma por excelência de abertura das portas do céu. Este sacramento é o maior título de nobreza, a mais bela honraria já conferida a um vivente. Os ritos exequiais (conjunto de cerimônias durante o velório) garantem o sucesso do processo de luto e a plena posse da herança espiritual dos falecidos. Eles são o complemento simbólico do batismo, pois tratam poética e simbolicamente do tema da perda e da restauração da individualidade.

Nesses ritos de despedida as pessoas tocam no corpo do morto, velam-no e dão-lhe sepultura. Esse corpo presente evoca a unidade da pessoa (corpo e alma). Enterrar os mortos é homenageá-los, é um dever e uma honra. O visível dos ritos permite acessar o invisível do mistério. O simbólico organiza de algum modo o que a morte desorganizou. O já citado Evaristo Miranda afirma “como sementes de humanidade, os mortos estão plantados e disseminados nos mais diversos lugares. A significação das honras prestadas é sempre mútua, do morto para o lugar e do lugar para o morto”. Quantos lugares são importantes por causa daqueles que ali viveram e foram enterrados. Visite o cemitério (‘dormitório’). Honre a memória dos seus. Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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