Cotidiano

Eleição dos bichos

Arlette Piai • 09/10/2018 04:05:00

2018, época de decidir quem seria aspirante ao cargo de protetor das florestas. Desde os pássaros, insetos, aves de rapina, até os bichos grandes e pequenos, muitos aspiravam ao cargo. O beija-flor era bem cotado pela capacidade de visitar as flores com néctar e levar em seu bico o pólen da planta que reproduz novas plantas, que reproduz novas sementes, que reproduz novos frutos que fazem nascer novas plantas. 

Que trabalho maravilhoso diziam as aves e insetos. Se não fossem os beija-flores a natureza seria manca. Certo dia um beija-flor saiu para conversar com os bichos: “Bom dia! – disse”. “Bom dia... bom dia... bom dia...”, respondeu o eco. “Quem és tu?”, perguntou o beija-flor? “Quem és tu... quem és tu... quem és tu...”, respondeu o eco. “Estou só...”, disse ele. “Estou só... estou só... estou só... estou só”, respondeu o eco. “Que engraçado!”, pensou o beija-flor. Os bicos não têm imaginação, repetem o que a gente diz.

O planeta pede socorro, é urgente eleger o aspirante a protetor da natureza.  A candidata raposa, fazia sua campanha, ela não tem lá boa fama, mas jurava lealdade para recuperar o planeta. Por outro lado, o polvo-de-anéis-azuis fazia também sua campanha. O beija-flor tendo voado por muito tempo pelas areias, pelas rochas, descobriu, enfim, uma estrada e um lugar bonito. “Bom dia”, disse ele pra todo mundo. “Bom dia!”, disseram as rosas. “Quem sois?”, perguntou espantado. “Somos as rosas”. E ele ficou perplexo. Sua flor lhe havia dito que ele era o único da sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil iguaizinhas a ele num só jardim!

O beija-flor continuou caminhando e viu a candidata raposa, mas a história da raposa todo mundo conhece e há a certeza do mal irreversível. Outro candidato encontrado na caminhada foi o polvo-de-anéis-azuis, que impressionava a todos com seus anéis azuis e prometia que se eleito o protetor da floresta todos teriam anéis azuis que fariam nascer milhões de anéis, que salvaria com muita riqueza todo o planeta com o azul dos seus anéis. Pediu a todos que não ouvisse um insignificante beija-flor falando coisas insignificantes. 

Na incerteza e medo da perigosa raposa, associado ao poder da mídia, os bichos transformaram um mito. E, assim, o polvo-de-anéis-azuis fora eleito. Se houver males, pensaram os bichos, é sempre preferível o menor deles. Mas uma rebelião quase foi formada pelos defensores de ambas as partes. A coruja, sábia, interferindo, falou: “Um dia compreendereis que não existe nenhum bicho totalmente mau e nenhum bicho completamente bom. A natureza é contraditória; a hipocrisia pode existir, às vezes, nos bichos sinceros, como a baixeza nos nobres de espírito; e nos maus pode existir também a bondade”. Entretanto, se o mau caráter estiver comprovado em ações efetivas, o descarte desses bichos nas eleições faz-se necessariamente indispensável.

Alguns bichos não entenderam muito bem a mensagem da coruja, dispersaram-se, e foi iniciado um novo ciclo de mais quatro anos, governado pelo protetor da floresta: o polvo-de-anéis-azuis. Todos conscientes, no entanto, de que o poder é dos bichos que deverão participar ativamente vigilantes, afinal o futuro depende do que fazemos hoje, e só é moral o desejo acompanhado da severa vigilância e execução.

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