Cotidiano

Como se não bastasse

José Renato Nalini • 07/11/2018 04:02:00

As péssimas ambientais não cessam de mostrar a tragédia em que nos encontramos neste Brasil tão bem aquinhoado pela providência e tão carente de responsabilidade cidadã e de consciência ecológica. A Universidade Municipal de São Caetano realizou uma pesquisa na Represa Billings e constatou que, além daquilo que já a tornava impura, há mais doze novas bactérias prejudiciais à saúde.

A pesquisadora Marta Marcondes adverte que todas elas causam doenças de pele, gastrointestinais e respiratórias. A legião dos ameaçados é enorme. Não são apenas as que moram em Eldorado, Diadema e no Grajaú, zona sul da capital. Mais de 1,5 milhão de pessoas consomem água da Billings. Estão bebendo água imprópria.

A represa não é mar. Não tem movimento e fonte própria. Vai recebendo esgotos, dejetos, o atestado contínuo da ignorância de quem produz sujeira pensando que a natureza se encarrega de processá-la e de converte-la em substância pura. Não é assim. As bactérias resultam daquele acúmulo: o lodo imundo que fica no fundo da Billings e se essas águas forem revolvidas, a situação ficará ainda pior.

Com o arremesso diuturno de imundície, a capacidade de armazenamento de água fica menor a cada dia. O perigo cresce em proporção geométrica. A seca não ajuda. Pelo contrário: agrava a situação. Menos água, mais poluição. Não é diferente a condição da Guarapiranga. E nada se faz para sanear os únicos reservatórios de água de uma população que não para de crescer. Permitiu-se – ou até incentivou-se - a ocupação de áreas de proteção ambiental. Sem qualquer planejamento, compensação ou controle.

A intensa e crescente produção de resíduos sólidos, a ausência de cuidado em relação a substâncias tóxicas, a falta de sensibilidade em geral, típica a uma sociedade egoísta e consumista, só agravam o cenário. O Brasil que dizimou a Mata Atlântica, extingue rapidamente a Floresta Amazônica, polui solo, atmosfera e água em todos os níveis, dá um testemunho nítido do que significa o abominável retrocesso.

O descompromisso da praxe mais gananciosa, em cotejo com a retórica edificante da Constituição da República, é um brado de alerta para os poucos que não perderam completamente o discernimento. Uma pena que as maiores vítimas são os inocentes das novíssimas gerações, cujo destino foi confiado ingenuamente à nossa responsabilidade. 

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