Ademir Martinho de Souza | CARROCEIRO

"Um emprego formal me daria estabilidade"

ANDRÉ ESTEVES • 24/02/2018 14:15:39

Há mais de 30 anos tentando fazer o seu pé de meia em Presidente Prudente, Ademir Martinho de Souza se dedica a uma profissão quase extinta no espaço urbano: o carroceiro. Com a propagação das caçambas e fretes de veículos, a concorrência aumentou e se tornou praticamente “injusta” aos olhos do trabalhador, uma vez que diminuiu a procura pelo seu serviço. Enquanto não encontra uma atividade mais generosa, o morador da Vila Centenária depende do interesse dos proprietários de imóveis para a realização de pequenos serviços, como limpeza de terrenos e remoção de entulhos. Ademir é casado, mora com a esposa e tem cinco filhos casados. Ele saiu da zona rural em busca de uma vida melhor na zona urbana. Aqui instalado, trabalhou como pedreiro e até mesmo como coletor de lixo, porém, abriu mão das duas atividades para ser carroceiro em tempo integral. Em entrevista a O Imparcial, o trabalhador relata as dificuldades que permeiam a profissão e os sonhos que cultiva para o futuro. Leia a conversa na íntegra:

 

O Imparcial: Qual é a função de um carroceiro e há quanto tempo desempenha a atividade?

Ademir: O carroceiro faz de tudo. Para ganhar o seu pão, você tem que pegar a carrocinha e ir tirando devagar a sujeira, já que pagar uma caçamba é caro. Para o contratante, o custo é menor. Se a pessoa não tem condições, ela prefere chamar um carroceiro porque é mais barato. A gente vai lá, ganha o dia e faz o serviço para a pessoa, que fica contente. Eu já estou nisso há 30 anos. Vim do sítio, passei a morar na cidade e comecei a trabalhar por conta como pedreiro, mas não deu muito certo. Como a carrocinha estava dando mais lucro para mim e era com ela que eu estava tratando a minha família, entrei num ponto ali para baixo do [supermercado] Estrela, na Cecap, onde tinha bastante amigos meus. Alguns morreram, outros aposentaram, mas eu permaneci. Um deles passou o ponto para mim e eu estou lá até hoje.

 

Quais são seus instrumentos de trabalho e como é a sua rotina?

Tenho pá, enxada, rastelo, máquina de roçar, tudo. Lá no ponto, tem uma plaquinha com o meu número. Na verdade, a plaquinha caiu, mas está encostada embaixo do poste. Além disso, eu tenho bastante contato por fora. Para o que me chamarem, estou disponível. No dia a dia, eles [os clientes] ligam para mim, então eu vou até o local, seja quintal ou calçada, faço o serviço, coloco os entulhos na carroça e depois jogo fora.

 

A renda obtida é suficiente para o sustento da família?

Hoje eu vivo só com a renda da carroça e acaba não sendo muito. No passado, eu tirava a faixa mensal de R$ 1,6 mil. Atualmente, não sai isso, porque cada viagenzinha na carroça custa R$ 40 e se você cobra R$ 80 para fazer duas, a pessoa acha caro. Então a gente acaba diminuindo o preço. Depois disso, fico parado durante semanas, esperando ligarem de novo. Para ser sincero, não consigo nem R$ 800 por mês. É pouco. Muito pouco. Em tempos de chuva, não dá para fazer direito o serviço, então fica meio ruim e eu tenho que estar procurando outra coisa para fazer. Vou fazendo uns bicos até me ligarem novamente: “Ademir, é o carroceiro? Eu tenho aqui um entulho na Rua das Mangueiras [porque lá eu conheço tudo], dá para você vir?”. Daí eu vou lá, dou um preço e a gente faz um pacote.

 

Mas o seu serviço está restrito somente à Cecap?

Sim, como não posso deixar o cavalo amarrado em qualquer lugar, porque a Prefeitura pega no pé, eu só faço naquele perímetro, então isso restringe o serviço. Se eu conseguisse me locomover para outras áreas, teria mais serviço. Aqui [na Vila Centenária] não tem onde jogar entulho. Se houvesse caçamba em cada bairro, isso facilitaria, pois não posso trazer a carroça para cá. Por que eu vou jogar onde? Aqui [no bairro] tem espaço. A falta de logística me atrapalha muito.

 

A crise econômica reduziu a procura pelo serviço?

Não só a crise, como também as caçambas e as caminhonetes. Tem gente que procura a caminhonete, que cobra entre R$ 70 e R$ 80, faz o mesmo serviço que eu e leva tudo. Quando eram só os carroceiros, eu não ficava parado um dia e, naquela época, havia muito mais ‘bocas’. Hoje já é menos.

 

O senhor tem sonhos?

Eu pretendia continuar como carroceiro, mas agora estou em busca de outras coisas, porque esse serviço fracassou. Quero ter outra função, já que em tempo de chuva eu não posso trabalhar. Eu estou atrás, entregando currículo em algumas firmas, só que por enquanto não apareceu nada. Atualmente, sou autônomo, mas queria ser empregado, porque as condições seriam melhores. Eu trabalharia direto e teria o salário em dia. Porque, sinceramente, estou parado. Por causa das caçambas e caminhonetes, a pessoa tem partido mais para esse lado. Ainda há aquelas pessoas que falam: “Ademir, você continua carroceando [sic]?”. Eu respondo que estou, entro no ônibus, vou até lá, pego o cavalo e a carroça na Cecap, realizo o serviço, entro de novo no ônibus e venho embora.

 

Por conta da diminuição no número de serviços, o senhor enfrentou dificuldades no meio do caminho?

Já passei dificuldade em tudo, a ponto de não conseguir pagar uma [conta de] luz ou uma [conta de] água. Até mesmo com relação ao alimento e ao remédio para a minha esposa. Hoje em dia, ainda passo. Nesse tempo de chuva, não dá para trabalhar, então saio em busca de bicos. Sou um homem apertado, mas também sou um homem de Deus. Falo para você que não é fácil, não. Tem mais de um mês que estou parado, sem fazer um carreto, só esta semana que fui ajudar um rapaz numa obra, então consegui comprar algumas coisinhas para dentro de casa, mas fica difícil. Tive que reduzir com mercado, estou comendo o básico, porque com o resto eu pago conta de água e luz, o que acaba atrapalhando a gente. Felizmente, a casa é do meu pai. Um emprego formal me daria estabilidade.

 

O emprego formal é seu único desejo?

Eu tenho tantos desejos na minha vida, mas um deles é possuir um carrinho para andar, porque só tenho a carroça e a uso apenas para o trabalho. Eu queria ter um carro para poder andar com a família e ver os parentes da minha esposa, que moram no Parque dos Pinheiros.

 

O senhor guarda histórias curiosas sobre o seu trabalho?

Tenho bastante histórias, mas a mais marcante envolve roubo de cavalo. Eu tinha uma égua muito bonita e trabalhava com ela o dia inteiro puxando entulho. Era muito bem tratada. Um dia, amarrei a égua e decidi deixá-la ali, porque sabia que se soltasse no pasto, seria um suador [sic] danado para pegar de volta. Quando ela queria vir, vinha, mas quando ela me olhava e dizia: “não vou”, não adiantava. Levaram a égua. Para mim, foi a gota d’água, ficaram só a carroça, o serviço para fazer e eu nervoso. Andei para tudo que é canto atrás da égua e passei muita humilhação, porque eu chegava nos sítios e os donos já achavam que eu ia roubar ou mexer em alguma coisa. Eu tinha um amigo que me chamou e perguntou por que eu estava triste. Na época, eu tinha criança pequena. “Ah, roubaram minha égua”, respondi. “Mas roubaram aquela égua bonita? Não, Ademir, vem fazer um serviço para mim”, ele disse. Daí fui lá, limpei uns pezinhos de coqueiro para ele e podei uns pingos de ouro. Ele pegou um envelopinho, colocou no meu bolso e disse: “Nem olha para trás, nem conta e nem me fala quanto custou esse serviço. Vai atrás desse animal”. Daí quando eu enfiei a mão no envelope, tinha R$ 1,5 mil. Fui, comprei um cavalo e continuei a vida. Ele já tem 16 anos. Está velhinho, mas forte. Já a égua eu criei, domei e ensinei, mas nunca mais a vi.

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