Filipe Celso de Oliveira Bueno

“Ser bailarino sempre foi um objetivo e é algo que almejo como profissão”

Conheça a história do bailarino de 14 anos que, apesar do preconceito sofrido, conquistou não só o seu espaço no universo da dança, mas a aceitação e o respeito

ANDRÉ ESTEVES • 04/08/2018 08:34:00

O talento como bailarino garantiu a Filipe uma vaga na Escola Bolshoi, em SC. Foto: José Reis

Em Billy Elliot, filme estadunidense que chegou ao Brasil no início do século, o espectador acompanha a trajetória de um menino de 11 anos, que é obrigado pelo pai a treinar boxe, mas possui um talento natural para a dança. Após receber a atenção de uma professora de balé, o garoto decide contrariar a opinião de familiares e amigos para se tornar um bailarino. A história levada para as telas do cinema não é muito diferente daquela vivenciada pelo prudentino Filipe Celso de Oliveira Bueno, cujo relato sustenta o famoso ditado: “a vida imita a arte”.

Assim como o personagem da ficção, o garoto de 14 anos despertou, desde cedo, o interesse pela dança, mas esbarrou na restrição de gênero imposta a determinadas atividades, sendo desviado do seu caminho para treinar aquilo que, normalmente, é esperado dos meninos: o futebol. Insatisfeito, começou a fazer aulas de balé sem que o pai tivesse conhecimento, e a conquistar, aos poucos, não só o seu espaço no universo da dança, mas a aceitação e o respeito.

Aluno da Escola de Dança Beth Libório, administrada pela professora de mesmo nome, o rapaz dá agora um passo importante na sua carreira como bailarino: o ingresso na Escola de Teatro Bolshoi, em Joinville (SC), única filial do Teatro Bolshoi da Rússia. O local oportuniza a formação de artistas do balé a partir da vaganova, metodologia lecionada nas escolas russas. Educado a partir do método royal, oriundo das escolas inglesas, Filipe encara de frente o desafio de ampliar os aprendizados e aprimorar o seu desempenho enquanto bailarino.

Em entrevista concedida a O Imparcial, com espaço para algumas observações feitas por sua professora, o jovem relembra como entrou para o mundo da dança e compartilha a luta para vencer o preconceito e alcançar suas primeiras conquistas, além de lançar luz ao questionamento: as atividades que uma pessoa gosta de realizar realmente devem ser medidas pelo seu sexo? Acompanhe a entrevista na íntegra:

O Imparcial: Quando surgiu a ideia de fazer o balé e por quê?

Filipe: Minha irmã faz balé desde muito pequena e, quando vinha para as aulas, me trazia junto. Na época, comecei a pegar gosto pela dança, mas meu pai não me deixava fazer. Ele chegou a me matricular no futebol, porém, eu não gostava do esporte. Houve uma vez em que minha irmã foi me procurar para irmos embora e eu estava sentado atrás de uma árvore, chorando, pois eu não queria fazer futebol e, sim, dança. Então, minha mãe veio e conversou com a Beth para ver se eu podia participar das aulas. Comecei a frequentar a escola, só que escondido do meu pai. Certa vez, no final do ano, ele me assistiu em uma apresentação, viu que eu gostava e passou a deixar.

Ainda hoje, você enfrenta problemas com a aceitação?

Posso dizer que todo o processo foi um pouco difícil. A maior recusa vinha do meu pai, que hoje aceita normalmente. O problema continua vindo de fora. Quando comecei, alguns amigos levavam a minha vontade de dançar para o lado do preconceito, enquanto outros aceitavam bem. Agora que estou mais velho, não há tanto preconceito, mas eventualmente acontece. Na escola, tenho alguns colegas que me xingam de vários nomes, o que eu encaro como preconceito. Antigamente, quando eu era mais novo, chegava em casa e chorava muito. Agora não mais. Procuro erguer a cabeça, ignorar e fingir que não estou escutando. Uma vez, até considerei sair do balé por causa dos comentários negativos, mas pensei bem e não desisti.

[Beth: Na época que o Filipe começou, o pai não queria, não sabia que ele fazia as aulas e tinha receio de ter um filho no balé, contudo, hoje temos meninos cujos próprios pais fazem a matrícula. Quando esses rapazes chegam, concedemos bolsas para eles, justamente com o propósito de incentivar a participação masculina no balé. Há alguns que ficam e outros, não. Mas, de modo geral, acredito que o preconceito está sendo desconstruído. Há, sim, o bullying, principalmente na escola, contudo, está mudando muito.]

Quais modalidades de dança você pratica e as diferenças entre elas?

Faço jazz, balé e sapateado. O balé é uma dança mais leve, enquanto o jazz é mais forte. Já no sapateado, você não usa tantos os braços, mas os pés. Entre todas elas, me identifico mais com o balé, porque acho que meu corpo reage melhor a ele. Na realidade, o balé sempre foi o meu maior interesse.

O que mudou no seu corpo desde que começou a praticá-las?

Quando comecei, eu tinha bastante dificuldade para a dança. Já hoje, sinto muita facilidade. O balé, por exemplo, melhorou muito a minha qualidade de vida e disposição, além de ter educado o meu corpo e me trazido mais disciplina.

Recentemente, você recebeu uma notícia que dará uma guinada em sua vida e na carreira como bailarino. O que significa ser aprovado na Escola de Teatro Bolshoi?

A Bolshoi é uma escola de Santa Catarina que leciona o balé e o contemporâneo. Na semana passada, fiz uma audição nela e consegui passar. Na hora, eu estava com a minha mãe e minha irmã e liguei imediatamente para contar a novidade ao meu pai, que ficou supercontente. Isso representa uma felicidade muito grande, porque ser aprovado é muito difícil, considerando que há tantos outros bons bailarinos. Para a audição, participei de quatro etapas de aulas de balé junto com cerca de 40 meninos. Aqui em Prudente, embora haja outros garotos na escola, sou só eu na minha turma, então, chegar nesses locais e ver outros fazendo o balé me mostra que o preconceito é injustificado e me encoraja a continuar, pois percebo que não sou o único.

[Beth: Em uma avaliação geral, não há muitos meninos no mundo da dança, então, quando aparece um interessado, investimos nele para que continue. A vantagem é que esse universo é muito mais fácil para o menino que tem talento, justamente porque não há tantos bailarinos homens. A gente percebe que, quando o garoto tem aptidão para o balé, ele tem muito mais chances do que uma menina.]

Uma vez aprovado, qual é a próxima etapa?

Tenho planos de ir para a escola e estou organizando a minha vida para isso. A Bolshoi me concede uma bolsa de 100% e a moradia é por fora. Então, se meus pais conseguirem ir para lá, vou morar com eles. Caso contrário, há perto da escola as casas de mães sociais, que alugam quartos para bailarinos. Seja como for, estou muito animado, pois era algo que eu queria para mim. Ser bailarino sempre foi um objetivo e é algo que almejo como profissão.

O que muda no seu aprendizado a partir do momento em que você for matriculado na Bolshoi?

Os métodos são diferentes, pois aqui a Beth ensina o royal, enquanto lá é aprendido o vaganova. Sendo assim, vou ter que correr atrás, pois os professores e os alunos não vão parar por causa de um aluno novo.

[Beth: O royal é o modelo aplicado pela escola inglesa e o vaganova, pela russa. O método inglês é mais dançante e vibrante e trabalha com o braço mais redondo, por exemplo. Já o russo é mais colocado e contido e trabalha com o braço mais alongado. É tudo balé, mas a maneira como a dança se mostra é diferente.]

Você acredita que o país ainda carece de oportunidades para bailarinos?

No Brasil, eu não vejo tantas oportunidades, mas sei que lá fora existe bastante. Tanto é que meu objetivo é chegar ao exterior, apesar de eu nunca ter saído do país ainda. Todas as minhas competições foram aqui dentro e já consegui ganhar prêmios individuais e em grupo, pois há apresentações solos; pas-de-deux, feita a dois; e em conjunto.

Quais são os seus planos enquanto pessoa e bailarino?

Primeiramente, espero que dê tudo certo na Bolshoi, a fim de que eu possa me formar e ir para a Rússia. Em Santa Catarina, são de 4 a 8 anos de estudo e tenho toda a formação ali dentro. Portanto, assim que eu me formar como bailarino, quero poder dar sequência ao meu trabalho na Rússia, onde há o Teatro Bolshoi.

Qual a mensagem que você passa para outros meninos que têm o interesse de fazer balé, mas se sentem intimidados pela opinião pública?

Eu digo para que ergam a cabeça e finjam que não estão escutando os demais, porque isso só atrapalha.

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