Entrevista

“Prudente ainda procura a sua vocação; é uma cidade muito nova”

Quando o assunto é a história do maior município regional, o nome dele logo vem à tona: conheça a trajetória do paulistano e cidadão prudentino, Ronaldo Macedo

ANDRÉ ESTEVES • 29/09/2018 09:33:00

Trabalho em museu levou Ronaldo a estudar a história local. Foto: José Reis

Enquanto alguns tendem a deixar cidades menores para buscar oportunidades em polos maiores, o historiador Ronaldo Antonio Barbosa Macedo, 68 anos, fez o caminho inverso: após sair da capital paulista, ele encontrou a realização pessoal e profissional em Presidente Prudente. Nascido em São Paulo, graduou-se em História na USP (Universidade de São Paulo) e atuou no segmento editorial até 1984, quando se mudou para Indiana para resolver problemas de ordem familiar. Dois anos depois, recebeu o convite para trabalhar na Biblioteca Municipal de Prudente, onde ficou responsável por elaborar a programação de atividades educativas e culturais. Em seguida, passou para a antiga Coordenadoria de Cultura do município, ligada à secretaria estadual correspondente, organizando atividades nas áreas de música e recreação infantil. A partir da criação da Secult (Secretaria Municipal de Cultura), na década de 1990, retornou para a Biblioteca Municipal e iniciou a idealização de projetos ligados à literatura, leitura, redação e incentivo à pesquisa, assumindo posteriormente a direção de Recursos de Operações, que tratava de assuntos referentes à estrutura de eventos realizados pela municipalidade.

A possibilidade de exercer integralmente a profissão de historiador surgiu em 2002, quando a Prefeitura passou a ser gestora do Museu e Arquivo Histórico Prefeito Antonio Sandoval Netto. Na época, o local mantinha em seu arquivo todos os tipos de materiais. Entendendo que deveria servir mais como um espaço de preservação da memória da cidade do que um “depósito de velharias”, Ronaldo promoveu a reorganização do museu, descartando o que não lhe cabia, modificando a sua área visual e arquivo e catalogando materiais. A partir do enxugamento, a ideia do historiador era abrir as portas para que a população voltasse ao passado de Prudente. Na época, no entanto, sentiu que as pessoas chegavam ao prédio sem ter a menor noção sobre o histórico do município. A partir de pesquisas em documentos, periódicos e livros, ele criou um curso de História, instituído em 2006, a fim de lecionar aos interessados sobre o desenvolvimento de Prudente e sua inserção na história do país.

Apesar de não estar mais ligado ao museu, Ronaldo aplica o curso ainda hoje como forma de retribuir a cidade que lhe abraçou. Em entrevista concedida a O Imparcial, o profissional fala sobre a sua relação com a história e seu interesse em conhecer como se deu a formação de Prudente, além de avaliar o atual sistema político do país e ressaltar o perigo de ignorar o passado, como ocorre em discursos em defesa da intervenção militar.

O Imparcial: Ronaldo, como surgiu o interesse pela formação em História?

Ronaldo: Na verdade, sempre me dei bem com esta área. Nunca fui das exatas e inclusive não gostava. A princípio, ia cursar Medicina. Meu pai era médico e queria alguém seguindo o caminho dele. No meio do percurso, durante o cursinho pré-vestibular, tive uma aula de História que abriu meus olhos e me fez decidir: “é isso o que quero”. Larguei tudo e fui fazer vestibular para História. Entrei na Universidade de São Paulo nos piores anos da ditadura militar – de 1971 a 1974 –, quando muita gente sumia e éramos mal vistos porque contestávamos o regime. Quando terminei, havia a necessidade de trabalhar, mas não ingressei diretamente no meu campo. Fui cair na área editorial. Trabalhei 10 anos na Editora Abril como revisor e preparador de texto. Em seguida, me tornei secretário gráfico da revista Playboy. Tudo a ver com o que eu tinha feito [brinca]. Até que vim para o interior em 1984 e entrei para a Prefeitura de Prudente. Na realidade, onde fui me encontrar como historiador? Em Prudente, não em São Paulo. Meu pai morreu antes que eu mudasse de rumo e minha família não gostou muito da minha decisão, mas eu preferia ser um profissional sério a fazer uma coisa imposta. Ou você abraça a causa ou você sai dela.

Você é referência quando o assunto é a história de Presidente Prudente. Quando e em quais circunstâncias surgiu a vontade de estudar e pesquisar sobre a formação do município?

Quando eu era criança, me lembro que a gente conhecia Prudente por conta do Corinthians e tinha a curiosidade momentânea de saber onde era. Coincidentemente, vim parar na região e procurei me informar sobre ela. Em São Paulo, também não tínhamos muito acesso à história da capital, porque, em uma metrópole, são várias pequenas histórias que se juntam para formar uma maior. Aqui, era muito mais simples. Descobri que o município fazia parte do caminho bandeirante, um processo que começou no século 17. Na época, achei muito interessante e percebi que havia ali uma história ímpar, composta por uma série de obstáculos, problemas e enfrentamentos. Um lugar que, com apenas 4 anos, já era município me chamava atenção. “Como outras levam 100 anos enquanto aqui foram necessários quatro?”. Esse questionamento me fez ir atrás das informações e passá-las para frente, de modo que todos também pudessem conhecer.

Todo o conhecimento adquirido sobre a cidade foi baseado em pesquisa?

Sim, principalmente no museu. A gente tinha um projeto chamado Memórias, no qual você conversava com pessoas que foram pioneiras ou eram descendentes de pioneiras. Assim, tínhamos contato com histórias que não eram encontradas em lugar nenhum. As pessoas viveram dificuldades, lidaram com problemas de abastecimento, enfrentaram guerras e revoluções. Comecei a colher da história oral muito mais conhecimento do que havia em livros técnicos. Os jornais também me ajudaram bastante, pois têm um papel importantíssimo. São registros do momento. Você via ali o que acontecia na cidade e não estava nos livros. A documentação que o museu reúne é fundamental e precisa ser mantida e preservada, pois a história está ali. Tudo que compilei não foi publicado, transformei em uma apostila para o curso que leciono, no qual coloco Prudente dentro do contexto do Estado de São Paulo e do Brasil, resgatando todo o processo histórico até o século 20, quando não éramos coisa nenhuma no território paulista. Mas no momento em que Prudente surge, esta parte do Estado vira do avesso e se ergue – daí a importância da cidade.

Qual a importância dos munícipes conhecerem a história da cidade, Estado e país onde vivem?

História é uma coisa muito distante. É necessário começar pelo berço das civilizações até chegar à história do Brasil, com a disputa de coroas por uma área nova. No entanto, acredito que, antes de qualquer coisa, é preciso fechar no menor para depois abrir para o maior. Isso pode ser iniciado pelo seu próprio bairro. Sabemos em que ano ele surgiu, por que a rua onde residimos tem esta denominação, o que aquele cidadão fez para que seu nome se tornasse um endereço? A partir disso, podemos estender a visão para a cidade inteira. Por exemplo, aonde um turista vai quando quer conhecer a cidade? Ao museu, pois é ali que está guardada a memória. O maior público do nosso museu são as crianças e, embora encontrem aqui uma assistência interessante, este processo é muito solto, pois não há uma preparação anterior a isso e nem uma continuidade depois. Defendo que a história da cidade seja introduzida já nos primeiros anos da formação básica, mas de uma forma séria e não para cumprir programas. Tem que ser fixa e permanente. As pessoas sabem que Prudente foi a maior produtora de menta do Brasil na época da segunda guerra mundial e que é por esta razão que o produto está na bandeira? São coisas pequenas, mas que projetam a cidade de uma forma que ninguém imagina. Não é a toa que o município conquistou seu espaço.

Recentemente, temos acompanhado uma série de discursos que fazem apologia ao regime militar. Quais são os riscos de esquecermos o nosso passado?

Quem faz apologia à ditadura militar não a viveu. A grande maioria que vejo defender este período não o conhece. Acha que a ditadura é organizada – o país era realmente organizado, mas às duras penas, a ponto de você trancar pessoas em porões e sufocar quem contestava o regime. Quem viveu essa fase como a gente viveu – e muita gente que eu conhecia desapareceu nas mãos dos torturadores – sabe o que é. Economicamente e administrativamente, o país parecia bem, mas era tudo conversa, porque escondiam o que havia por trás. Os militares nos enfiavam garganta abaixo o que queriam, a exemplo dos atos institucionais. Você não tinha representatividade, não elegia ninguém, era tudo indireto, consistia em indicações de cima para baixo. O pessoal não entende isso e defende esta alternativa. Eu não sei que alternativa é esta.

Podemos afirmar que a nossa democracia está em risco?

Sim, dos dois lados. Essa ideia de polarização – esquerda e direita – é absurda. Ou é você ou sou eu. Não existe isso. Há também muitas propostas mirabolantes que vemos todos os dias, como o espetáculo do crescimento e o desenvolvimentismo. É simplesmente politicagem: você usa a carência que o povo tem para se promover. Além disso, há muita falta de informação e gente que se agarra em supostas tábuas de salvação, que são a direita e a esquerda. Está difícil discutirmos o nível de candidatos que temos por aí, independente do cargo que pretendem, sem falar dos palhaços de plantão que querem voltar ao poder.

O pedido por intervenção militar revela uma falha na educação?

De algum modo, sim. Quem está batendo em cima da ditadura é principalmente a juventude, desde a adolescência até os 30 anos. É gente que não viveu o momento. Pessoas com um pouco mais de idade, como eu, não querem nem ouvir falar, porque sabem o que foi. Estes cidadãos querem reeditar uma coisa que não deu certo e caiu porque não tinha mais aonde ir. O propósito era uma perpetuação do poder. O pessoal tem que procurar preparo e informação. As redes sociais se tornaram uma tragédia. Eu mesmo não consigo ficar cinco minutos no Facebook, porque só vejo besteira. É preciso analisar propostas, sua viabilidade de execução e se não é fala de papagaio.

Há algumas semanas, o Museu Nacional foi alvo de um incêndio que destruiu 200 anos de memória. Você acha que o episódio enfatizou a importância de valorizarmos nossos museus ou foi um fato isolado?

Acordaram um pouco. O Museu Nacional não é o primeiro. O de Língua Portuguesa acabou. Apesar de ser virtual, era importantíssimo. Agora o Nacional vem do século 19, ou seja, era um acervo que vinha sendo construído ao longo do tempo e agora não pode ser recuperado. Diziam que não havia recursos para a manutenção do prédio, mas como é que agora a verba apareceu? O problema é descaso. Infelizmente, a memória não tem a mesma atenção que um estádio de futebol, por exemplo. O que se gastou na reforma do Maracanã era suficiente para manter o Museu Nacional por inúmeras décadas. O estádio é importante? Sim, mas não mais importante quê. No Brasil, valorizamos muitas coisas que dão retorno político e nos esquecemos das que têm realmente relevância.

Após uma história marcada por muitas transformações econômicas, Prudente continua em evolução ou vivenciamos um período de estagnação?

Eu sempre falei que Prudente ainda procura o seu caminho. O município sempre se adaptou às transições na economia. Tivemos vários tipos de culturas dentro do setor agrícola, como o café, o amendoim e a menta. A pecuária veio em seguida e tomou espaço. Mais tarde, chegou a indústria e os frigoríficos, que acabaram indo embora para outros Estados. Hoje, o que sustenta a cidade é o setor terciário, composto pelo comércio e pela educação, que engloba várias universidades responsáveis por trazer gente para cá e fazer a roda da economia girar. Embora tenhamos potencial turístico, o que mantém o município é o comércio, tanto é que o Sesc [Serviço Social do Comércio] não está aqui de graça – ele vai aonde o comércio é forte e garante retorno. O Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial] é outro exemplo. A indústria é que não é tão significativa. Temos as pequenas empresas, a maioria familiar, voltadas para a produção de bebidas e massas alimentícias, mas que não dão respaldo econômico maior. Seria interessante termos indústrias que gerassem empregos e atraíssem investimentos para a cidade, coisa que ninguém conseguiu trazer. Porém, acho que Prudente ainda procura a sua vocação. É uma cidade muito nova. Cem anos não é nada. Está na adolescência. São três gerações no máximo.

Enquanto historiador, quais são os seus planos futuros?

Eu não parei, embora não seja mais administrador do museu. Continuo fazendo pesquisas, estudando e conversando com pessoas sobre temas do meu interesse. Gosto muito de Prudente e quem falar mal dela para mim, vai arrumar confusão. A partir do momento em que me deram o título de cidadão prudentino, me sinto parte da comunidade. Tenho mais carinho por Prudente do que pela cidade onde nasci, porque o município me deu mais retorno e mais acesso. Em São Paulo, eu era só mais um perdido na multidão. Aqui, abriram espaço para mim, o que me fez crescer dentro da minha área. Eu tinha a farinha na mão para fazer o pão, fiz e continuo fazendo, dentro das minhas disponibilidades. Não tenho vontade de deixar Prudente. Fui adotado pela cidade e a adotei há muitos anos. O meu interesse de levar a história do município para frente é justamente uma forma de retribuir tudo aquilo que recebi.

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