Itamar Xavier de Camargo • PROFESSOR DE ARTE

"Não foi o sistema prisional que fez algo por mim"

ANDRÉ ESTEVES • 14/04/2018 09:11:49

 Itamar, que também é escritor, faz planos de estender projeto de leitura para todo o país. Foto: José Reis

“Que importa a paisagem, as glórias, a baía e a linha do horizonte se tudo o que vejo é o beco?”. Os versos de Manuel Bandeira estão na ponta da língua do professor de arte, Itamar Xavier de Camargo, 38 anos, que relaciona a poesia ao próprio modo como enxergou a vida por muito tempo. O artista encontrou na arte a oportunidade de sair do seu próprio beco e descortinar um mundo além do qual estava habituado. Nascido e criado na periferia de São Paulo, entrou em contato com a marginalidade ainda na infância. Aos 16 anos, já tinha passagem na antiga Febem (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor) e, aos 22 anos, chegava a Presidente Prudente após responder cinco anos por formação de quadrilha e assalto à mão armada.

Ainda em Prudente, voltou a se envolver com pequenos crimes, mas decidiu por uma vida honesta depois de ser abraçado por uma comunidade cristã. Com o suporte de sua atual esposa, Itamar concluiu os estudos, ingressou no ensino superior e entrou para o mestrado. Com formação em Pedagogia e Artes Visuais e atualmente vinculado à rede municipal de Educação, o docente faz parte de uma minoria que conseguiu contornar a desigualdade social e se libertar de um sistema prisional que, segundo Itamar, “mais pune do que reabilita”. Em entrevista concedida a O Imparcial, o educador relata sobre o seu processo de amadurecimento pessoal, o acesso ao mercado de trabalho, o interesse pela arte, a oportunidade de contribuir com a formação de crianças e adolescentes e como saiu da invisibilidade social para poder contar sua história em rede nacional. Acompanhe nas linhas a seguir:

 

O Imparcial: Como foi a sua transição de São Paulo para Presidente Prudente?

Itamar: Foi difícil, pois eu tinha acabado de cumprir cinco anos de pena e cheguei a Prudente sem conhecer ninguém, com exceção de uma tia. Inclusive, vim para Prudente porque essa tia me visitava na penitenciária e constava o nome dela como meu familiar mais próximo, então fui obrigado a cumprir condicional na casa dela. Cheguei sem nada e, na época, eu tinha um nível de escolarização muito baixo, havia estudado até o 6º ano do ensino fundamental e não tinha qualificação e experiência profissional. Tudo isso me prejudicou de modo que eu não conseguia arrumar um emprego e comecei a, inclusive, cometer alguns delitos em Prudente, mesmo depois de cumprir cinco anos de pena. Fui sobrevivendo cometendo pequenos delitos e trabalhando em subempregos, como entrega de panfletos. Fazia o que fosse necessário para conseguir viver.

 

Em que momento você passou a sentir que sua vida entrava nos trilhos?

Eu conheci a minha atual esposa por volta de 2008 ou 2009, dois ou três anos após eu sair da prisão. Eu já tinha retomado os estudos e ela me levou para uma igreja, onde conheci um povo que me acolheu e, ao conhecer a minha realidade, começou a me ajudar com cesta básica e a pagar meu aluguel, porque eu estava prestes a não ter um lugar para ficar. Ver aquelas pessoas me ajudando me deixava envergonhado de algumas atitudes que eu tinha naquele momento. Por exemplo, me recordo que o último ato desonesto que cometi foi quando comprei um celular roubado por R$ 20 – os únicos que eu tinha no bolso – e pensei em vendê-lo por R$ 100 e ganhar um trocado. Mas ao ver uma pessoa me ajudando e amando a minha vida sem sequer me conhecer direito, aquilo me deixou muito constrangido, envergonhado e arrependido. Eu procurei o dono do celular ali nos contatos e devolvi o aparelho para ele. Acho que nunca mais voltei a cometer um ato de desonestidade a partir de então. Até mesmo naqueles momentos em que vem algo a mais na compra do supermercado ou deixam de cobrar alguma coisa, eu tento agir com honestidade.

 

Você acredita que a marginalidade foi reflexo da falta de oportunidades durante a sua infância e juventude?

Vejo que são diversos fatores que levam alguém a se envolver com crime ou drogas. Eu tento não encontrar justificativa, porque acho que não existe alguma para os meus erros, mas há, sim, explicações, porque contra fatos não há argumentos. Se avaliarmos os números, 80% dos caras que cumprem pena hoje têm histórico de abandono, pobreza, violência e abuso. Isso não justifica nada, mas explica de certa forma e comigo não foi diferente. Os meus pais são doentes mentais e se tornaram moradores de rua quando eu tinha 6 anos de idade. A partir disso, fui criado por um casal de tios que eram doentes também. Meu tio era alcoolista e a doença o levava a agir de forma agressiva comigo e com a minha tia. Isso fazia com que ela tivesse uma vida infeliz e se tornasse intolerante até mesmo comigo. Eu morava na zona sul de São Paulo, uma região violenta, então todo aquele meio contribuiu para a construção do meu caráter e da minha identidade humana e para que eu me tornasse quem me tornei.

 

O seu interesse pela arte sempre existiu ou foi algo que despertou após a retomada dos estudos?

Sou interessado pela arte desde a minha infância. Lembro que, aos 7 anos de idade, meu tio trabalhava em uma empresa que realizou um concurso de desenho. Me recordo que o tema era natureza e fiz um desenho que significava a queima de uma floresta. Para mim, o desenho não parecia ser muito bacana, mas fiquei em segundo lugar, o que me deixou motivado a continuar desenhando e praticando arte. Quando eu tinha 16 anos, cumpria medida socioeducativa na antiga Febem e lembro que havia um profissional de arte que me ensinou algumas técnicas de desenho. Ele escrevia um livro e me motivou a também escrever um. Na época, pediu para que eu fizesse as ilustrações que seriam utilizadas na obra dele. Eu perguntei como fazia para escrever um livro e ele respondeu que era só começar a escrever, parecendo ser muito fácil. Durante o período que cumpri pena, fazia desenhos nas cartas que os demais escreviam para seus familiares e, com isso, recebia um trocado ou um maço de cigarro.

 

E como você transformou a arte em seu ofício?

Depois de um momento de dificuldade e trabalhando em subempregos, consegui o meu primeiro trabalho na Associação Betesda. Fui contratado para ser assistente administrativo na instituição, mas não demorou muito para que os gestores vissem em mim um talento para desenhar e pintar. Ao mesmo tempo que eu era assistente administrativo, ministrava oficinas de desenho para os alunos e revitalizava o espaço. Quando entrei para a rede municipal de ensino, passei a desenvolver projetos de revitalização nas escolas. Nessa época, recomecei de fato a produção artística e a me envolver com arte e o ensino dela. Não parei mais.

 

Qual foi a sua reação ao descobrir que a Associação Betesda seria extinta e você se desligaria das crianças atendidas pela instituição?

Foi triste ver que um trabalho de 20 anos iria acabar por falta de dinheiro. Eu não estava preocupado com o que iria acontecer comigo profissionalmente, porque a Betesda foi uma oportunidade de aprendizado que me levou a adquirir formação e experiência para o mercado de trabalho. Porém, fiquei triste porque sabia que a gente atendia centenas de crianças ali diariamente, muitas das quais vi crescerem, se desenvolverem e se tornarem cidadãs de bem. Foi triste ver que tudo aquilo acabou.

 

Você acredita que seu trabalho como educador é uma forma de ensinar valores para as crianças em situação de vulnerabilidade social e evitar que elas sigam o mesmo caminho que você tomou na infância?

Eu vejo que o professor é uma das principais referências na vida de uma criança e entendo que a construção da nossa identidade humana e cultural se faz na nossa relação com o outro. Vejo no meu trabalho uma oportunidade de me relacionar com meus alunos de forma que eu possa contribuir para a formação humana deles por meio da minha experiência de vida. Posso levar a entendê-los que existem diversas formas de ver o mundo e que vão além daquilo que está ao seu redor. Tem aluno que chega aqui e sente orgulho porque o pai está na prisão, pois enxerga apenas aquela realidade. Sendo assim, eu tento fazer com que visualizem outra forma de viver.

 

Houve preconceito com relação ao seu passado?

Eu estava comentando com um amigo que terminei todo o meu curso de Pedagogia sem que ninguém soubesse que eu tinha ido em cana. Não porque eu sentisse vergonha, mas porque não queria que aquilo me definisse naquele momento. Depois, comecei a trabalhar na Betesda e, em 2015, entrei para a rede municipal de ensino. Até 2014, pouquíssimas pessoas tinham acesso a essa informação e conheciam de fato o meu passado. A partir do momento que lancei o livro [‘A Verdade que Liberta’], as pessoas souberam que fui preso e, apesar de ficarem espantadas, não me viram como um criminoso. Não sei se é a minha forma de ver as coisas, mas não consigo ver preconceito. Talvez tenha sentido isso no momento em que deixei a prisão, fui procurar emprego e me pediram os antecedentes criminais. Porém, no dia a dia, o preconceito existe quando você age como um criminoso. Se você for um, as pessoas não vão querer estar ao seu lado ou confiar em você.

 

Você ainda tem contato com os seus pais?

Meus pais estão vivos e hoje a gente possui uma relação até melhor do que quando eu era criança. Minha prima tinha um terreno na zona sul de São Paulo e, junto com meus familiares, construiu dois cômodos para eles morarem. Hoje, já são de idade e não têm mais forças para saírem de lá, mas recebem um auxílio do governo para se manterem.

 

Recentemente, sua história foi contada em rede nacional pelo “Caldeirão do Huck”, da TV Globo. Como foi ganhar esta visibilidade?

A experiência foi boa e acho que contribuiu para me promover como artista e profissional. Na realidade, acredito que me motivou a continuar fazendo o que faço e a fazer ainda melhor do que tem sido feito. Me deixou mais animado e com novos planos para o futuro.

 

Quais são seus planos para a vida pessoal e profissional daqui para frente?

Eu realizo um projeto chamado Leitura Campeã e, por meio dele, crio bibliotecas itinerantes com geladeiras. Meu objetivo é expandir isso para todo o país e até fora dele. Comecei a planejar isso e já consegui patrocínio para levar duas geladeiras para uma comunidade ribeirinha de Manaus [AM], mas também fiz contatos no Rio de Janeiro [RJ] e em São Paulo [SP]. Para a vida pessoal, já me sinto realizado junto com a minha esposa e gosto muito de viajar. Os meus planos profissionais contribuem para que eu realize alguns dos meus planos pessoais. Por exemplo, indo para Manaus, já vou desenvolver o meu projeto lá e, ao mesmo tempo, ter a oportunidade de viajar e conhecer a cidade.

 

Qual a sua avaliação a respeito do sistema prisional brasileiro?

Eu acredito que o nosso pensamento e o nosso caráter são construídos nas nossas relações. Às vezes, você comete um crime que não é muito grave, mas vai em cana com criminosos que cometeram homicídio ou tráfico de drogas ou são líderes de facções e passa a se envolver com o crime deles. Então pode-se dizer que é uma escola do crime. O sistema prisional é só um lugar onde se guarda um monte de gente que foi presa, é tratada de forma desumana, não estuda, não faz oficinas e, ao cumprir pena, espera-se dela que saia transformada. A transformação vem de relações com o outro; relações que possam contribuir para a construção de um pensamento novo. O caráter meramente punitivo e não educativo da prisão só prejudica. Toda a sociedade perde com isso, porque o egresso vai sair na mesma situação que entrou ou muito pior, já que estará com o nome sujo, ficha criminal e com dificuldades para encontrar um emprego. Diante disso, a alternativa é, muitas vezes, o retorno ao mundo do crime. 80% das pessoas que saem da prisão voltam a cumprir a pena. O sistema prisional não funciona. Não foi o sistema que fez algo por mim. Vejo que foram as oportunidades que me deram. Pessoas que foram me amando não pelo o que eu era, mas pelo que acreditavam que eu poderia ser.

 

Qual a diferença entre o Itamar nascido e criado em São Paulo e o Itamar que recomeçou a vida em Prudente?

É um Itamar evoluído, que conseguiu construir uma identidade humana tendo como referência pessoas com ética e honestidade. Todas essas referências possibilitaram que eu me tornasse uma pessoa melhor. Sou um Itamar transformado.

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