Thiago Tobias da Rosa

“Não acho que a cegueira seja um impeditivo, mas as empresas, sim”

Diagnosticado com cegueira total aos 3 meses de vida, o morador de Santo Anastácio afirma que é preciso se impor para que a sociedade entenda que os deficientes também têm o direito de serem respeitados

ANDRÉ ESTEVES • 18/08/2018 09:45:00

Thiago é estudante de Geografia da FCT/Unesp e ainda se depara com entraves. Foto: José Reis

Aos 32 anos, os olhos do estudante Thiago Tobias da Rosa nunca viram as cores, as formas, nem os rostos das pessoas. Sem o recurso da visão, ele desenvolveu toda a sua percepção de mundo a partir dos seus outros sentidos e do que lhe foi passado por familiares e amigos. Quando tinha apenas três meses de vida, o menino foi diagnosticado com cegueira total, resultante de uma distrofia retiniana. A notícia chegou como uma bomba para a mãe Diva Rosa da Silva, 56 anos, que precisou vencer o sentimento de revolta antes de aceitar o processo de adaptação. No consultório médico, ela foi informada de que o gene pode ser portado pelos pais e se manifestar em sua descendência. A recomendação do profissional era que Diva cuidasse do filho, lhe provesse amor e procurasse orientações especializadas. Na época, os dois ainda moravam na capital paulista e passaram a ser assistidos por duas instituições voltadas ao atendimento de pessoas com deficiência visual.

Mais tarde, Diva decidiu se mudar com o filho para o interior paulista, precisamente em Santo Anastácio. Não demorou muito para que ele fosse integrado na Escola Estadual Professora Maria Luiza Formosinho Ribeiro, de Presidente Prudente, onde passou a frequentar a sala de recursos para alunos cegos. Ainda no município, também passou a ser assistido pela Associação Filantrópica de Apoio aos Cegos. Neste intervalo de tempo, Thiago precisou enfrentar e superar desafios como falta de acessibilidade e de equipamentos, que não foram sanados com o tempo. Ainda hoje, o estudante de Geografia da FCT/Unesp (Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista) encontra dificuldades no transporte coletivo, na locomoção dentro do campus da universidade e no acesso ao material apropriado.

Para dar conta dos estudos, Thiago utiliza um gravador para registrar as aulas. Em casa, consegue fazer a “leitura” de textos por meio de um programa que converte as palavras em sons. E, apesar da autonomia, conta com a ajuda indispensável da mãe, que também lê os conteúdos para ele e o auxilia com as tarefas. A parceria levou Diva a aprender braile durante a infância de Thiago e a conhecer o conteúdo programático do curso de Geografia. Hoje, ela brinca que, assim como o filho, será uma geógrafa – mas, diferente dele, sem o diploma.

O Imparcial: Em que momento da sua vida ocorreu o diagnóstico da distrofia retiniana?

Thiago: Minha mãe descobriu a distrofia de Leber após o meu nascimento, quando eu já estava com mais de três meses de idade. Desde recém-nascido, nunca enxerguei. Tenho cegueira total e só consigo diferenciar quando está claro e escuro. Isso varia de acordo com o local em que estou. Dependendo da iluminação, vejo meio preto ou meio branco. Esta é a única percepção de cor que eu tenho.

Como é a vida de alguém que não consegue enxergar?

Eu não tive problemas com a adaptação. Para quem já nasceu sem a visão, a cegueira não é um problema. Acredito que seja pior para quem se torna deficiente visual ao longo da vida. Toda a minha infância foi muito tranquila. Sou nascido na capital paulista, sendo que lá fui atendido na Fundação Dorina Nowill Para Cegos [instituição que oferece, de forma gratuita, serviços especializados para pessoas com deficiência visual, bem como suas famílias, nas áreas de educação especial, reabilitação, clínica de visão subnormal e empregabilidade] e no Laramara [organização não governamental que oferece serviços socioassistenciais para pessoas cegas], onde tive aulas de orientação e mobilidade. Em seguida, minha família se mudou para o interior e consegui entrar para o Formosinho [Escola Estadual Professora Maria Luiza Formosinho Ribeiro de Presidente Prudente, que dispunha de uma sala de recursos para alunos com deficiência visual]. Mais tarde, fui acolhido pela Associação Filantrópica de Apoio aos Cegos, onde fiquei 10 anos e tive a oportunidade de compreender melhor a minha condição.

Quais são os principais problemas de acessibilidade encontrados em seu dia a dia?

Aqui em Presidente Prudente, cidade onde estudo, há pontos acessíveis e outros que ainda ficam a desejar. No calçadão [da Rua Tenente Nicolau Maffei, no Centro], por exemplo, consigo andar normalmente perto das lojas, pois o chão dispõe do piso tátil. Já na praça, não há. Acredito que todos os espaços deveriam propiciar isso, pois não favorece acessibilidade apenas para as pessoas com deficiência, mas aos idosos, gestantes, mulheres que carregam carrinhos com crianças pequenas. Enfim, favoreceria todo mundo.

É comum ouvir que as pessoas com deficiência visual apuram os demais sentidos para compensar a falta da visão. Você também desenvolveu isso?

Sim. No meu dia a dia, utilizo mais a audição e me guio principalmente pelos sons.

Como é o seu relacionamento com a família, amigos, professores e até mesmo desconhecidos?

Procuro me relacionar sempre por meio da voz e, quando tenho a curiosidade de imaginar a pessoa, pergunto como ela é. Quando me sinto seguro, chego a tocá-la. A maioria das pessoas permite a aproximação, mas há outros que não deixam, então, fico quieto para não caçar confusão. Como não quero ofender ninguém, acabo deixando para lá. Reservo o toque para pessoas com quem tenho mais vínculos ou intimidade.

A faculdade dispõe de todos os recursos e dispositivos para acolher uma pessoa com deficiência visual?

Não. No chão da parte externa, por exemplo, não há piso tátil. Quando preciso ir até a cantina, biblioteca, ponto de ônibus ou qualquer lugar lá fora, preciso da ajuda de alguém, pois a acessibilidade do prédio deixa muito a desejar. Já conversei com a direção e coordenação e eles falaram que iam providenciar, mas até agora sem sucesso. Além disso, os professores têm que oferecer materiais que eles próprios elaboram, porque a faculdade não fornece este aporte. Uma vez que os livros não são em braile, utilizo um gravador, que eu mesmo tive que comprar, já que a universidade não concede. Outra coisa que cobro bastante é um curso de qualificação e capacitação para os professores. Até hoje, o coordenador diz que vai ter, mas ainda não houve. Entendo que há uma série de questões impeditivas, como a falta de verbas, por exemplo. O governo não ajuda nem um pouco. Nesses últimos anos, está tudo muito escasso, inclusive a contratação de docentes. Para realizarmos os trabalhos de campo, temos que investir com dinheiro do nosso próprio bolso, pois os repasses são poucos.

Como é a sua rotina dentro da universidade?

Eu uso os meus próprios materiais, peço a ajuda das pessoas para me deslocar e, durante as aulas, sou acompanhado por uma monitora de texto, que me auxilia com a realização dos trabalhos individuais e relatórios. Nas provas, ela fica ao meu lado caso o professor não tenha um estagiário. As avaliações são orais, que considero mais fáceis, e utilizo minhas gravações como método de estudo. Tenho o conhecimento do braile desde a infância e utilizava esta linguagem na escola, mas todo o equipamento foi por minha conta e eu levava de casa, porque a rede de educação também não fornecia. A curto prazo, espero que adequem o chão e ofereçam o material apropriado. Hoje, não há necessidade de os livros serem em braile, porque consigo converter os textos para PDF e deixar que um software de computador faça a leitura por mim.

Nossa reportagem foi informada que há uma campanha em andamento para a compra de um óculos inteligente, que simplificaria o seu dia a dia. Como isso começou?

Os óculos realmente podem me ajudar muito. Há cerca de quatro meses, vi uma reportagem em um programa de televisão sobre esse dispositivo. Como eu não tinha muito conhecimento a respeito, minha prima, que se formou em Jornalismo no mês passado, foi atrás e mobilizou uma campanha na internet para arrecadar os recursos. Desde então, as pessoas vêm fazendo suas contribuições. Os óculos não servem apenas para a leitura, mas para tudo, e seriam muito úteis para mim.

Você é um exemplo de que a deficiência não pode ser encarada como um fator limitante, tanto é que já avança para o final da graduação em Geografia. Por que este curso em especial?

Escolhi o curso de Geografia porque foi a área com que mais me identifiquei. Gosto do que faço e pretendo seguir no campo da pesquisa. Tenho feito alguns trabalhos com temas relevantes para a sociedade, como a inclusão de negros e pessoas com deficiência nas escolas e universidades, e pretendo continuar me debruçando sobre esses assuntos.

E com relação ao mercado profissional? Você acredita que os cegos têm mais dificuldades de encontrar um emprego do que pessoas com outras deficiências?

Acredito que seja difícil para todo mundo, mas os desafios são maiores para o deficiente visual. O problema é que as empresas não abrem seus espaços para nós e nem se empenham para adequá-los. Elas estão preocupadas apenas em cumprir a lei, não tomar processo e pronto. Eu mesmo já tentei entrar várias vezes, fiz entrevistas de emprego em diversos lugares, mas nunca tive resposta. Não acho que a cegueira seja um impeditivo, mas as empresas, sim.

Você mora em Anastácio, mas viaja todos os dias a Prudente para estudar. O transporte coletivo tem te acolhido bem?

Não são todas as empresas que nos recebem bem em termos de acessibilidade. A maioria possui seis bancos na parte dianteira, mas essa que utilizo só dispõe de três. Quando está cheio na frente, há aqueles motoristas que abrem a porta do meio para mim, no entanto, tem outros que não abrem de jeito nenhum, porque gostam de idolatrar seus patrões.

Você é amigo de outras pessoas com deficiência visual? Qual a importância de estabelecer este contato?

Sim, conheço um monte. Para mim, é importante ter esse apoio, porque essas pessoas me ajudam a conhecer e aceitar melhor a minha condição.

Qual mensagem você deixa para as pessoas com deficiência visual?

Em determinadas situações, essas pessoas têm que se impor bastante para ser respeitadas, senão viram pau mandado dos outros, fazem só o que eles pedem, não desenvolvem autonomia e nem têm vida própria. É preciso se impor para que a sociedade entenda que você também tem o direito de ser respeitado. Na faculdade, por exemplo, tenho conseguido. As pessoas me acolhem e me ajudam quando preciso. Espero somente a adaptação do espaço, mas não sei se deve acontecer, porque até agora não mexeram em nada. Tudo depende do governo de Estado, que, infelizmente, não se interessa pela educação. Esse não é um problema exclusivo da Unesp, USP (Universidade de São Paulo) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), ocorre também nas escolas públicas. Eu não tenho nada contra o governo, mas não aprovo o que fizeram com a educação. Não só na educação, pois o país vive um caos terrível em todas as áreas.

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