Tonho da Calabresa

“Minha filha disse que queria voltar e eu falei para ela que era comigo mesmo”

Conheça a história do homem simpático, tímido, mas com um dom culinário que não é de se questionar

GABRIEL BUOSI • 30/06/2018 06:52:00

Tonho vende 200 lanches por dia e usa uma tonelada de calabresa por mês. Foto: Marcio Oliveira

Ele voltou! Se os prudentinos pudessem escolher um nome e um estabelecimento para que recebesse o título de patrimônio histórico do município, Tonho da Calabresa, sem dúvidas, estaria entre os primeiros da lista. O homem simpático, tímido, mas com um dom culinário que não é de se questionar, por trás do chapeiro, se chama Danton Félix de Moura, 59 anos, que ainda jovem saiu da roça, no Distrito de Ameliópolis, em Presidente Prudente, e pouco tempo depois se viu diante de um ponto de lanches na Avenida Manoel Goulart, que futuramente seria conhecido pela deliciosa extravagância quando o assunto é o capricho com o ingrediente.

Após 29 anos no local, Tonho deu uma pausa com o estabelecimento, o que causou certo arrependimento na época, mas, 5 anos depois, os prudentinos e também municípios da região podem se alegrar, pois ele está de volta! Em uma entrevista exclusiva a O Imparcial, que você confere abaixo, essa figura marcante revela que em 35 anos no ramo, nunca deu sequer uma entrevista, e revelou alguns detalhes do empreendimento, que rende ao dia cerca de 200 lanches e aproximadamente uma tonelada de calabresa ao mês para cumprir com a demanda.

Quem foi Tonho da Calabresa antes do sucesso com o lanche?

Eu nasci na roça e me criei por lá, em Ameliópolis. Mas foi com 17 anos que vim para a cidade, pois a roça não dava dinheiro, mesmo sendo um ramo tão importante, e vim trabalhar em um hotel como empregado em Presidente Prudente, mas ele não existe mais. Depois de 6 anos trabalhando lá, o hotel foi vendido e eu fiquei meio perdido na época. Com isso, o dono do local, por gostar do meu serviço, comprou o ponto de lanches que ficava na Manoel Goulart, em agosto de 1983, e pediu para eu ficar por um tempo cuidando do lanche para ele, sendo que depois ele arrendaria para mim, o que ocorreu depois de cerca de um ano. Trabalhei por um bom tempo pagando aluguel até conquistar o ponto.

O lanche já foi um sucesso logo no início?

Não, isso demorou um pouco, pois o lanche já estava montado lá e era outra pessoa que cuidava do estabelecimento antes de eu entrar. Foi quando ele foi vendido e eu percebi que o movimento era bem baixo, apenas de cachorro-quente, sendo pão com salsicha. Após um tempo, decidi inovar e nos lanches que iam calabresa eu comecei a caprichar um pouco e vi o quanto o pessoal gostava daquilo. Foi uma sacada, pois há outros ingredientes que você não consegue aumentar a quantidade, como o hambúrguer ou a salsicha, já a calabresa, por ser fatiada, pode ser acrescentada à vontade.

Foi neste momento que o senhor viu a oportunidade de lucrar com os lanches?

Sim, pois a partir de então eu foquei em caprichar em lanches que iam a calabresa, mas também entendi que não poderia deixar de vender os demais. 

E quando percebeu que o seu produto era um sucesso?

Para falar a verdade foi apenas quando eu parei, há cerca de três anos, pois até aquele momento as pessoas falavam, mas eu não acreditava muito. Assim que parei eu vi que muita gente vinha me pedir que continuasse a fazer os lanches, ligavam, mas foi uma decisão que custei a voltar atrás.

E por qual motivo o Tonho da Calabresa fechou as portas em 2013?

Naquela época eu trabalhava com a minha filha e minha esposa, mas minha filha casou-se, disse que ia sair do estabelecimento e isso acabou me desanimando um pouco, foi por isso que decidi parar. Na época eu me arrependi, pois vi que poderia ter colocado algum outro funcionário para trabalhar comigo e manter o atendimento, mas optei por fechar. Financeiramente não me afetou tanto, pois eu tinha uma reserva e não sou de gastar muito, mas o dinheiro ia acabar uma hora se eu não voltasse logo.

E o que fez nestes quase 5 anos parado?

Inicialmente eu fiquei por cerca de seis meses fazendo alguns trabalhos de servente e alguns bicos, alguns serviços aleatórios, mas vi que não dava certo não. Foi quando decidi abrir um espetinho, aqui no endereço onde estou hoje, mesmo não tendo um rendimento igual ao que eu tinha antes, mas assim eu fui mantendo por pouco mais de 4 anos, até reabrir o ponto, totalmente renovado.

Quais fatores influenciaram na escolha de voltar ao lanche?

Foi minha filha que teve a iniciativa e disse que queria voltar a fazer nossos lanches, então, eu falei para ela que era comigo mesmo, pois com ela eu sei que vou longe. Ela é uma mulher muito boa de serviço, nunca falta, é motivada e, junto do meu genro e demais funcionários, reabrimos no dia 4 de junho de 2018. Desde então me sinto muito feliz, pois as pessoas vieram desde o primeiro dia igual formigas, tinha dia que não tinha onde sentar e, por isso, muitos foram embora.

É gratificante ser bem recebido desta maneira?

Isso é muito bom, eu penso que não consigo nem explicar o que eu sinto, pois eu não esperava esse movimento tão intenso logo no início, acreditava que fosse demorar um pouco mais para voltar a fazer sucesso, mas foi já no início. Eu sabia que ia vender uma boa quantia, mas não que seria bem aceito logo de cara. As vendas já se assemelham ao que eu vendia no outro ponto e fico mais do que feliz, pois a gente faz com mais gosto ainda, isso me motiva muito.

O senhor fica na chapa ou no atendimento?

Eu e minha filha ficamos na chapa, mas normalmente sou eu mesmo que faço os lanches. Penso que se eu colocar outra pessoa no meu lugar vai mudar todo o sabor, ou talvez não faça tão caprichado como eu gosto que seja, por isso, prefiro garantir o meu serviço e fazer com a certeza de que vou agradar todos os nossos clientes.

Sobre o famoso ingrediente, quanto é utilizado?

Aqui sai uma média de 250 quilos por semana, sendo uma tonelada por mês. Os lanches que são compostos por calabresa são os que mais saem e vendo uma média de 200 unidades por dia, sendo que pelo menos 180 são aqueles que têm calabresa dentro dos ingredientes. Disparado, o “dog calabresa” é o mais pedido, mas não é o que vem mais calabresa.

Alguma história te marcou em todos esses anos?

Nada muito inusitado, apenas os grupos de pessoas que apostavam para ver quem comeria um lanche todo, com maior número de ingredientes, ou pessoas que vinham de cidades vizinhas, como Indiana, Taciba, Santo Anastácio.

Para finalizar, pensa em parar novamente?

Jamais, agora só paro quando eu não estiver mais andando, me sinto em casa fazendo isso, e isso será por um longo tempo.

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