Delegada seccional

“Meu sonho profissional é melhorar cada vez mais a Polícia Civil, para que seja uma corporação de excelência”

Questionada sobre o caso que marcou sua vida, Ieda Maria Cavalli de Aguiar Filgueiras não hesita em mencionar o assassinato do então juiz Antônio José Machado Dias

GABRIEL BUOSI • 06/10/2018 09:59:00

Ieda, delegada seccional: “A Polícia Civil me fez ser quem eu sou”. Foto: Marcio Oliveira

A trajetória de sucesso da delegada seccional de Presidente Prudente, Ieda Maria Cavalli de Aguiar Filgueiras, teve início quando ela ainda era jovem, aos 17 anos. Ao optar pelo curso de Direito, a atual delegada, possivelmente, não imaginava o caminho que trilharia a partir do ensino superior. Com uma história marcada pelas mais diversas oportunidades, Ieda lembra que o seu primeiro contato com a Polícia Civil foi aos 18 anos, ao participar do primeiro concurso público de sua vida, e lembra que foi em 1988 a nomeação para o cargo que lhe proporcionou desafios, que, inclusive, são as razões que a fazem querer continuar.

Questionada sobre o caso que marcou sua vida, ela não hesita em mencionar o assassinato do então juiz Antônio José Machado Dias, Machadinho, em 2003. “Foi uma investigação que me trouxe um aprendizado imenso. Isso nunca tinha ocorrido aqui, e toda a polícia que se envolveu no caso reconhece como um marco à carreira”. Em uma entrevista a O Imparcial, Ieda comenta sobre pontos positivos e negativos de exercer a profissão, e traz detalhes que vão além da profissional, mas que marcam também a história pessoal, que é composta ainda pelo amor ao marido e às três filhas, todas formadas em Direito.

Sobre a criminalidade na região de Prudente, a responsável pela Delegacia Seccional afirma que esta é uma das áreas mais seguras do Estado, por apresentar índices controlados, e lembra que, além disso, a corporação conta com elevados índices de esclarecimentos de crimes. “Antigamente, tínhamos uma média de um roubo ao dia, hoje temos 0,3 roubo por dia no mês na área de toda a Seccional, então, são índices muito confortáveis. A comunidade quer menos crimes e ela merece menos”.  Confira abaixo informações sobre o início da carreira, percurso até chegar onde está hoje e motivações da delegada.

O Imparcial: Entrar para a Polícia Civil foi sempre um sonho?

Ieda: Na realidade, quando criança não era o meu sonho, mas depois, na adolescência, e na hora de escolher uma faculdade, como a gente não tinha muitas opções, escolhi o curso de Direito, por entender que ele poderia me abrir uma série de portas. Neste meio tempo, entrei na faculdade aqui em Presidente Prudente, ainda com 17 anos, também porque eu precisava trabalhar e era um curso noturno, então, alguns fatores me levaram a essa decisão.

E como foi a inserção no cargo de delegada?

Durante a faculdade, com 18 anos, eu prestei um concurso público da Polícia Civil, foi meu primeiro, e eu trabalhava na santa casa na ocasião. Passei como escrivã de polícia, e a partir daí penso que comecei a gostar ainda mais do trabalho policial. Houve uma ocasião, no entanto, quando concluí a faculdade, que não me vi trabalhando com Polícia Judiciária, mas em um serviço administrativo da polícia. Eis que houve a inauguração da DDM [Delegacia de Defesa da Mulher] em 1986, em Prudente, e esse foi o marco, pois, a partir de então, eu decidi ser delegada. Foi uma época de expansão de inaugurações de DDMs em todo o Estado, e isso ocorreu também aqui. Fui para a unidade local como escrivã e a partir daí me interessei pelo cargo. Depois de pouco mais de um ano, em julho de 1988, fui nomeada como delegada de polícia.

O início da profissão ocorreu assim que nomeada?

Lembro que fui nomeada em 19 de julho de 1988 e foi quando passei a fazer a academia de polícia. Em setembro fui designada para minha primeira unidade e penso que, neste momento, começaram os primeiros desafios da profissão, já que houve certa decepção, não pelo cargo ou pelo local, mas por certa situação. Éramos uma turma de 100 delegados e eu tinha que escolher uma DDM e só tinham 10 unidades no Estado que seriam inauguradas, então, eu fui para a região de São Carlos, onde fui bem recebida, no município de Dourado. Eu trabalhava diretamente ligada à Seccional, até que fosse inaugurada a DDM de São Carlos.

E como foi sua trajetória a partir de então?

Na região de São Carlos eu fiquei pouco tempo, pois meu concurso foi o primeiro de uma série. Eram 100 vagas, sendo que passaram 10 mulheres, que, em seguida, foram assumir DDMs. Como foi um período muito profícuo de concursos, muitos delegados que tinham vindo para cá queriam sair e voltar para seus lugares, então, abriram algumas vagas aqui na região e foi quando eu consegui voltar em 1989 para a Seccional de Prudente, quando assumi a delegacia de Caiabu, onde fiquei quase três anos. A partir de então, cheguei a assumir, por exemplo, o 4º Distrito de Polícia de Presidente Prudente, por quase 10 anos; assumi a DIG [Delegacia de Investigações Gerais], de 2002 a 2008; e assumi a titularidade em Dracena, passei pela Corregedoria. Nesse meio tempo, fui promovida à primeira classe na polícia, o que me possibilitou a inscrição para o curso superior de polícia em São Paulo. Fiquei lá por quase oito meses, retornei e fui convidada para montar a CPJ [Central de Polícia Judiciária] de Presidente Prudente. Isso foi em 2012, e foi uma época marcante. Lá nós aglutinamos os seis distritos policiais em um único local e inauguramos o Necrim [Núcleo Especial Criminal]. Houve uma recepção muito boa por parte da comunidade e órgãos representativos, lá eu fique até 2015 e foi nesta época que assumi a Delegacia Seccional, onde estou até hoje.

Com a experiência que adquiriu até hoje, poderia citar os maiores desafios da profissão?

Todo lugar e todas as mudanças são desafios, então, penso que o que me caracterizou nessa jornada foi eu aceitar as diferentes mudanças. Sabemos que a gente se acostuma com as pessoas, com a rotina, com sua sala, então, uma mudança é o maior desafio que você pode ter, e eu tive várias delas. No entanto, de todos, aceitar a DIG foi um dos maiores, pois eu vinha de um trabalho de gabinete e toda a investigação era feita pela DIG, diferente do que é hoje, por ser distribuída. Então, tínhamos uma posição mais cômoda nos distritos e ir para lá foi um aprendizado muito grande, além do desafio, pois lidei com equipes maiores, me dividi entre todas elas, e, ao mesmo tempo, isso me deu uma bagagem muito grande.

E o lado positivo da profissão? O que te motiva?

Posso dizer que são justamente, também, os desafios. Na Seccional, por exemplo, você é mais do que polícia, você é um administrador. E talvez essa seja a parte mais difícil, você ter que lidar com tantas pessoas, além de ser um lado bom da profissão. Eu tive um chefe que falava que toda a mudança é boa, ainda que seja para pior. Tudo o que é desafio enriquece a gente e isso nos faz aprender, inclusive com os erros. Aqui estou em um desafio contínuo e penso que seja o maior deles, por ser o último que eu assumi. Nos distritos, eu trabalhava com 10 policiais, passei a lidar com 25 na DIG, e com um tipo de demanda diferente, e já na Seccional eu tenho que relacionar com o público interno, com todas as unidades policiais, características de cada um, com as qualidades e habilidades de cada colega e saber reconhecer tais habilidades. Além disso, reconhecer as próprias falhas e defeitos. Hoje, temos cerca de 310 policiais na Seccional, então, lidar com pessoas é um grande desafio, talvez o maior de todos, o que também encaro com positividade.

E o lado negativo? Algo te preocupa, como o risco que a profissão causa?

O risco talvez seja até um defeito nosso, pois a gente se acostuma a trabalhar no dia a dia com ele e, às vezes, deixamos de dar a importância devida. Contudo, ele faz parte da profissão e, sabendo disso, temos que adotar sempre as cautelas necessárias e nos aprimorar em utilizar os recursos que a instituição nos coloca à disposição. Precisamos saber lidar com o risco. Sobre os lados negativos, não tenho tristezas, pois tenho uma facilidade muito grande de esquecer as coisas ruins, me apego às coisas boas e vejo que a instituição me fez quem eu sou e ela me deu infinitamente mais do que ela me tirou.

Qual foi o episódio marcante na sua carreira?

O caso da minha vida é a morte do doutor Antônio José Machado Dias, que foi em março de 2003. Ele foi assassinado perto do Fórum de Presidente Prudente e foi uma investigação que me trouxe um aprendizado imenso. Isso nunca tinha ocorrido aqui, a investigação foi presidida por mim, na época como delegada da DIG, e com o auxílio do DHPP [Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa], que enviou uma equipe. Toda a polícia que se envolveu no caso reconhece como um marco à carreira, pois a cidade de São Paulo está acostumada com esse tipo de investigação, mas era algo inusitado aqui. Esse foi o caso emblemático, principalmente por se tratar de uma autoridade morta, em uma época que trouxe à tona o crime organizado, e isso chocou e teve repercussão internacional. Conseguimos esclarecer o crime, todos foram presos e até alguns anos atrás eu ainda ia para São Paulo ser ouvida sobre o caso, pois o inquérito foi concluído pelo DHPP em São Paulo.

Por falar em criminalidade, como a avalia na nossa região?

A região da nossa Delegacia Seccional é uma das mais seguras do Estado, quiçá do Brasil, pois temos índices muito controlados e realizamos uma análise considerando o índice por 100 mil habitantes, que trazem os menores índices de roubos, homicídios. Além disso, temos ainda índices bons de esclarecimentos de crimes. A exemplo disso estão os homicídios que tivemos neste ano, sendo que apenas um não foi esclarecido. Antigamente, tínhamos uma média de um roubo ao dia, que não é muito perto de outras regiões, hoje temos 0,3 roubo por dia no mês, e isso na área de toda a Seccional, então, são índices muito confortáveis. Lógico que a comunidade quer e merece menos crimes, mas é impossível. Penso que nossos índices são resultados do nosso trabalho, que envolve a Polícia Militar e a Científica.

Falamos muito sobre a profissional, mas e sobre a pessoa Ieda. Quem é e o que gosta de fazer?

Eu gosto muito de viajar, faço isso sempre que tenho oportunidade, e sou muito caseira. Meu marido e eu vivemos mais para a família. Temos três filhas maravilhosas, todas formadas em Direito, talvez por terem visto um bom espelho dentro de casa, pois meu marido também é advogado, e uma  neta à caminho. Em relação às viagens, elas ocorrem ou por lazer ou para visitar minha filha, por exemplo, que mora fora.  Sou a mais velha de quatro irmãs e sou conhecida por ser aquela que faz visitas, e a que os tios esperam, pois gosto de me reunir, ter um bom papo e do contato com as pessoas. Estando em casa, gosto de cozinhar. Sou descendente de italianos e adoro receber as pessoas com fartura e isso é o que me move. Ademais, gosto de ler livros e assistir filmes.

Por fim, há algum sonho que ainda não tenha realizado ou acredita já ter alcançado todos?

Penso que a hora que a gente achar que conseguiu tudo, é o momento de ir embora para casa. Então, enquanto eu gozar da confiança dos meus superiores, o meu sonho será melhorar cada vez mais a Polícia Civil, melhorar o trabalho e contribuir para que isso ocorra. Ter uma polícia de excelência, e esse é meu sonho profissional. Enquanto me sentir apta, terei esse objetivo. Já no âmbito pessoal, quero viajar mais, aprender a falar outras línguas, como o italiano e o francês, e não fiz talvez porque esteja um pouco preguiçosa. Já fiz inglês e espanhol e adoro, parece que temos outra vida, é fascinante.

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