Rodolfo Cunha Cordeiro

“Estar na guerra é viver com a incerteza se haverá o dia de amanhã”

Nascido em Prudente, o militar de 30 anos embarcou por conta própria, em 2014, para Donbass - região do extremo lesta da Ucrânia

ANDRÉ ESTEVES • 26/07/2018 05:41:00

Rodolfo “MacGyver” atua na República Popular de Donetsk desde 2014. Foto: Arquivo pessoal

O nome de batismo é Rodolfo Cunha Cordeiro, mas a alcunha de guerra – literalmente – é Rodolfo MacGyver, em alusão ao célebre personagem da década de 1980, interpretado por Richard Dean Anderson, que chamou a atenção do público ao resolver conflitos aparentemente insolúveis. Nascido em Presidente Prudente e antigo morador do bairro Ana Jacinta, o militar de 30 anos deixou, em 2014, o cargo de agente de segurança e o curso de Direito na Unoeste (Universidade do Oeste Paulista) para embarcar por conta própria em uma viagem para Donbass – como é chamada a região do extremo leste da Ucrânia, país que, desde 2013, vivencia uma intensa crise política e econômica. Em um contexto geográfico, Donbass engloba a autodeclarada República Popular de Donetsk, onde o aventureiro passou a integrar as Forças Armadas.

Em um resgate histórico, as ruas de parte do território ucraniano foram tomadas por manifestações de grupos pró-russos após o ex-presidente Viktor Yanukovich ser pressionado a assinar acordos com a União Europeia e se afastar das relações com a Rússia. Depois que a revolta pró-europeia resultou na destituição do líder, grupos separatistas emergiram em combate ao novo governo e em defesa da população russa contra os “ataques ucranianos”. Com o objetivo de prestar solidariedade para este povo, Rodolfo pegou em armas e atuou como combatente até 2017, quando passou a integrar as tropas internas do Ministério do Interior. Pedindo desculpas pelo português “enferrujado” devido ao uso contínuo do idioma russo, “MacGyver” relata a O Imparcial sobre a sua participação direta em uma guerra civil e sua experiência como um cidadão da nova república. Acompanhe nas linhas a seguir:

O Imparcial: O que o levou a Donbass e quais eram os seus objetivos ao aterrissar nesta região?

Rodolfo: Eu decidi ir a Donbass por solidariedade, propósito e aventura. Meu objetivo era aumentar os próprios horizontes e ajudar a maioria étnica russa com residência no leste da região, que fazia parte da Ucrânia, mas declarou independência. Na época, este povo vivia em meio a um caos político e econômico e era submetido à violência genocida do governo golpista, radicais nacionalistas e grupos neonazistas.

De onde surgiu o interesse pelo conflito e como foi o processo de mudança para este novo país?

Quando o conflito estourou, em 2014, nada indicava que uma legião de estrangeiros de diversos países do mundo fosse se apresentar como voluntários. Vi várias matérias e vídeos a respeito do assunto na internet. Acompanhei essas pessoas pegarem em armas e lutarem. Algumas não tinham qualquer experiência militar, mas conheceram de perto o que era a guerra e o medo e lutavam com muita coragem. Esse gesto de solidariedade me comoveu. Entrei em contato com alguns cidadãos de dentro da República Popular de Donetsk e recebi todas as informações sobre como me juntar à causa. Eu havia acabado de sair do hospital após uma cirurgia no joelho e, mesmo sem ter feito as sessões de fisioterapia e sem falar russo, larguei tudo, vendi minha moto, comprei as passagens e segui em frente. Entrei pela Rússia com passaporte brasileiro, apenas com carimbo de turismo, e segui em direção à fronteira da República Popular de Donetsk, onde meus contatos me aguardavam durante a travessia. Fui bem recebido, lutamos juntos e testei todos os meus limites físicos e emocionais. Não foi fácil, mas a resiliência esteve presente em todo momento.

Durante quanto tempo você fez parte das Forças Armadas de Donetsk e qual era seu papel dentro do batalhão?

Estive nas Forças Armadas da autoproclamada República Popular de Donetsk entre 2014 e 2017. No início, eu fazia parte de um batalhão diferenciado formado por uma legião de voluntários estrangeiros de diversos países, como França, Espanha, Sérvia e Brasil. Uns vieram em busca de aventura, outros para usar suas experiências militares e alguns são ativistas de esquerda. Nossa função era reconhecimento, que se trata de uma operação militar conduzida por forças especiais, com o propósito de obter informações referentes às atividades e meios do inimigo ou coletar dados acerca da área provável de operações. Basicamente, os pontos fracos. Este tipo de reconhecimento completa o uso de outros sistemas de inteligência e sempre visa informações de valor estratégico. Para tanto, requer sigilo elevado e é executada por grupos de pequeno efetivo, que se valem de técnicas de combate de caráter evasivo.

Após deixar as Forças Armadas, passou a ocupar qual cargo na República Popular de Donetsk?

Candidatei-me, em seguida, à outra força de segurança nacional, conhecida como tropas internas do Ministério do Interior. É uma espécie de grupo policial especial que pertence à Polícia Federal de Donetsk. Trabalhamos com combate em ambientes confinados ou combate a curta distância. O cenário típico desse tipo de intervenção é o ambiente urbano, como casas, apartamentos, prédios e quartos e caracteriza-se pela velocidade, agressividade e precisão da força letal ou não letal. Hoje sou um policial altamente especializado e treinado para atuar em operações de potencial de grande risco. Aos 30 anos, já recebi várias medalhas pelos serviços prestados à República Popular de Donetsk e passei de segurança no Brasil a herói de um novo país. Não sou um mercenário. Faço isso porque gosto do meu trabalho e da vida militar.

Quais são os riscos que você assumiu após aceitar o trabalho?

Estas ações impõem muitos riscos pessoais, como ser capturado por grupos rivais, lesões ou até mesmo morte.

Quais foram as principais mudanças sociais, políticas e econômicas que você vivenciou durante o tempo que permaneceu na Ucrânia?

Quatro anos após o golpe a um país tomado pelo caos, decadência e corrupção, Petro Poroshenko é o novo presidente da Ucrânia e substituiu Viktor Yanukovich. Mesmo depois de empossar uma nova legislatura, a nação continua profundamente mergulhada no caos político e econômico: está à beira da falência, sua economia destroçada continua afundando e o governo ucraniano é tão fraco que não consegue realizar coisas básicas. As maiorias étnicas russas no leste da Ucrânia respondem a hostilidades e, ao se sentirem expulsas, seguem o caminho da independência e, se possível, da reintegração à nação-mãe – a própria Rússia. Segundo estimativas da ONU (Organização das Nações Unidas), desde o início da crise, as hostilidades culminaram em mais de 10 mil mortes e, embora acordos de paz estejam em andamento, dificilmente a situação voltará a um ponto de retorno. Hoje, o ucraniano ganha menos, os serviços públicos pioraram, a população foge do país – geralmente, para a Rússia –, a corrupção aumentou e a taxa de deserção militar é imensa.

Qual foi o passo a passo até se tornar efetivamente um cidadão da República Popular de Donetsk?

No começo, havia apenas uma milícia, em que todos eram voluntários, ou seja, não havia salário. Com o tempo, as coisas começaram a mudar e nasceram as Forças Armadas de Donetsk. A permanência no serviço militar, portanto, ficou mais burocrática e eu teria que ter a cidadania. Recebi a cidadania da autoproclamada República Popular de Donetsk por meio de um decreto do primeiro-ministro Alexander Zakharchenko, que a concedeu também para outros estrangeiros em virtude de sua participação nas ações militares. A República Popular de Donetsk é o nome de uma região separatista que declarou independência da Ucrânia em 7 de abril de 2014 e só foi reconhecida pela federação russa. Atualmente, os cidadãos da República Popular de Donetsk têm total acesso sem visto a todo o território da federação russa e lutam para ser reintegrados a ele, porque ninguém aqui quer voltar a fazer parte da Ucrânia, que bombardeia o nosso território. Estamos cansados dessa guerra e queremos acabar logo com isso.

Quais as diferenças entre o Brasil e esta nova república? Você voltaria ao nosso país? O que mais sente falta daqui?

Diferente do Brasil, aqui tem um toque de recolher às 23 horas e só há serviço de correspondência interno, ficando impossibilitado de enviar e receber cartas e pacotes de outras partes do mundo. Não há sistema bancário internacional e só é possível realizar operações internas na república. Sim, voltaria ao Brasil, mas não penso nisso por enquanto. Sinto falta dos amigos, familiares e também da nossa tradicional comida brasileira.

Como é viver em meio a uma guerra civil? Há traumas?

É viver com a incerteza se haverá o dia de amanhã. É estar, ao mesmo tempo, perto e longe do fim. É enxergar diariamente, nos rostos das pessoas, sentimentos como medo, pânico, dor e esperança de que tudo isso acabe logo. Depois que você passa a viver em uma guerra, você se torna outra pessoa. É como uma espada forjada – você pode não notar a diferença, mas a estrutura interna foi modificada. O cenário de guerra não me assusta e eu me sinto mais seguro aqui do que no Brasil, onde, apesar de não haver uma guerra, há muita criminalidade e violência. E quanto ao que passei aqui, não guardo nenhum tipo de trauma.

Descreva como é estar em uma frente de batalha.

A rotina é bem dura, sempre há tiros e os perigos são diários. Não são todos que estão dispostos ou preparados física e psicologicamente para vivenciar as dificuldades a serem enfrentadas, como dormir em abrigos subterrâneos improvisados para se proteger do frio e de ataques. Vivíamos cercados diariamente pelo perigo em meio a snipers [atiradores especiais], tiros, tanques, artilharia e minas terrestres. Não é fácil. Devemos estar sempre prontos para um ambiente insalubre, convivendo, inclusive, com o racionamento de água e comida.

Há outros brasileiros na nova república? Como é o seu relacionamento com eles?

Não há mais brasileiros aqui e nunca houve outro prudentino além de mim. Ao todo, já passaram 14 pessoas do Brasil, mas todas voltaram em pouco tempo.

Quais são seus planos para o futuro, tanto na vida pessoal quanto profissional?

Espero viajar ao redor do mundo, conhecer o Monte Everest, ter contato com outras culturas, expandir cada vez mais os horizontes e penso em começar a empreender.

 

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