Gustavo Henrique Faria Araújo

“Considero pensar em uma aposentadoria após Tóquio”

Velocista superou, ao longo do caminho, obstáculos mais complexos do que aqueles presentes nas corridas e provas: aos 16 anos, foi diagnosticado com uma doença degenerativa na visão

ANDRÉ ESTEVES • 21/07/2018 09:29:00

Gustavo: "Meus ápices foram o campeonato de 2009, o Pan de 2015 e as Paralímpiadas. Meu plano agora é Tóquio". Foto: Marcio Oliveira

Ao descrever o Menino Maluquinho, personagem genuinamente brasileiro das histórias em quadrinhos, o cartunista Ziraldo coloca que o garoto tinha “vento nos pés e umas pernas enormes [que davam para abraçar o mundo]”. A definição faz parte de uma narrativa infantil, mas pode ser emprestada para apresentar o velocista Gustavo Henrique Faria Araújo, 25 anos, cujo talento para o atletismo o levou a percorrer continentes em busca de um lugar nos pódios.

De origem mineira, mas raízes prudentinas, o jovem superou, ao longo do caminho, obstáculos mais complexos do que aqueles presentes nas corridas e provas: aos 16 anos, foi diagnosticado com uma doença degenerativa na visão. A evolução do problema foi acompanhada pela incerteza e descrença de Gustavo em seu próprio futuro, considerando que o velocista chegou a pensar em desistir do esporte. No entanto, a ida aos Jogos Pan-Americanos, em 2015, e a troca de experiências com atletas paralímpicos suscitou no esportista o desejo de seguir – ou correr – em frente.

A baixa visão não impediu que Gustavo trouxesse medalhas para casa e alimentasse sonhos. Hoje, todo o seu preparo está voltado para a competição em Tóquio, no Japão, em 2020, que pode vir a ser a etapa final de sua carreira. A aposentadoria relativamente prematura tem uma explicação plausível: o interesse em formar atletas. Em entrevista concedida a O Imparcial, o velocista relembra sua introdução no esporte, os desafios encontrados durante o trajeto e as conquistas que o levaram ao ápice. Acompanhe nas linhas a seguir:

O Imparcial: Em que momento o esporte entrou em sua vida e por que o atletismo?

Gustavo: Tudo aconteceu em 2008, quando a minha escola realizou um evento para celebrar as Olimpíadas daquele ano [em Pequim, China] e promover o espírito olímpico. Participei de uma prova de corrida e ganhei. Como eu já jogava bola na época, um professor me perguntou se eu tinha interesse em participar do atletismo. Tudo era muito novo para mim, mas concordei. Comecei a treinar duas vezes por semana, porém, eu ainda pendia muito para o futebol e sonhava em ter algo concreto neste esporte, então me doava pouco para o atletismo. Em 2009, no entanto, fui vice-campeão brasileiro nos 100 metros da categoria [em Maringá, Paraná], o que me despertou. Pensei: “pode dar certo!”. O grande problema que eu encontrava no futebol é que era um esporte coletivo – não que eu não tivesse espírito coletivo, mas sentia que eu dependia muito dos outros. Queria praticar algo que dependesse apenas de mim e que, caso eu acordasse cedo, treinasse e fizesse tudo certinho, pudesse colher bons frutos. Foi quando migrei de fato para o atletismo. De todo modo, a corrida sempre esteve presente na minha vida, porque, desde criança, fazia tudo correndo. Minha tia dizia que me dopava com maracujina para eu poder dormir à noite, pois eu não parava. Este campeonato brasileiro em 2009 foi minha primeira oportunidade, já que até então eu não levava a sério. Percebi que, se treinando sem compromisso eu já havia conseguido um grande feito, a dedicação poderia me levar às Olimpíadas um dia. A partir de então, tive uma vivência em quase todas as modalidades. Hoje sou velocista em 100, 200 e 400 metros, mas já fiz distância, barreira e prova longa.

Você competiu no atletismo convencional até descobrir uma doença degenerativa na visão. Como ocorreu o diagnóstico?

Eu descobri a doença aos 16 anos e, já com 17 ou 18 anos, comecei a perder a visão, ainda que de forma gradual. Trata-se de uma doença genética. Tanto é que quando fui fazer a consulta, meu irmão também acabou sendo diagnosticado. Enquanto eu realizava o exame, o médico percebeu que ele forçava a visão e tentava enxergar o que eu estava fazendo. Então o médico perguntou se ele tinha algum problema de visão para a minha mãe, que nunca o ouviu reclamar. O especialista também quis fazer o exame nele e identificou que o problema estava 10 vezes pior do que o meu. Não é à toa que todos os procedimentos que conseguimos fazer e pagar na época foram para ele, porque meu irmão estava perdendo a visão muito mais rápido do que eu. Hoje, ele é transplantado de um olho e não enxerga pelo outro, mas está tentando conseguir um segundo transplante. No meu caso, sempre usei óculos. Comecei com um grau baixo e, aos poucos, foi aumentando. Chegou um momento em que os óculos não adiantavam mais, porque eu continuava enxergando borrado. Fiz o mapeamento da córnea e retina e acabei encontrando o problema. Foi uma bomba dentro de casa.

O que é a sua doença e no que ela implica?

Eu tenho atrofia no nervo óptico. Em um linguajar mais coloquial, há o olho e um fio que liga nele. O problema é que, na minha situação, é como se esse fio estivesse desencapado e não fornecesse a informação direito. Por esta razão, preciso forçar a visão para ver se consigo focar em algo. Além disso, tenho um início de ceratocone, que faz com que a córnea adquira o formato de um cone mesmo e perca o campo visual. Só tenho a visão central, ou seja, enxergo reto. Se acontece alguma coisa nas laterais, tenho que me virar. Colocar porcentagem em cima de visão é errado, mas para que as pessoas entendam, tenho aproximadamente 30% ou 35% de visão, número que varia conforme local ou horário. Durante a noite, chega a 15%. Dependendo do lugar em que estou, sou cego. Para me classificar para o esporte paralímpico, tive que fazer um exame chamado eletrofisiologia ocular, em que colocam eletrodos na cabeça e nos olhos. Você olha para uma tela e, a partir dos impulsos nervosos, é possível mensurar o problema e dar um diagnóstico sobre a real situação da visão. O procedimento concluiu que, quando olho para um objeto, não há impulso nervoso, pois não há essa ligação do olho com o nervo. Hoje faço tratamento e tenho uma boa qualidade de vida, mas só porque já enxerguei, o que me permite assimilar objetos.

Em sua vida pessoal, de que forma você recebe a notícia de que está perdendo a visão?

Como eu era novo na época, não tinha a real noção do problema e pensava que eu poderia resolver. Com o tempo, fui caindo na real. A princípio, eu conseguia usar a lente rígida, mas, depois de seis meses, ela não parava mais no meu olho, porque a córnea já estava adquirindo o formato de cone. Aos poucos, tive que me aproximar mais das coisas para poder enxergar, passei a sentar na frente do quadro negro na sala de aula e a usar o celular mais perto do olho. Durante o processo de diagnóstico, pulei de médico em médico e cada um falava algo diferente, até que achei um especialista que se sentou comigo e se dispôs a descobrir o que eu realmente tinha. Ainda hoje, tenho receio de voltar ao médico, porque todo retorno vem com uma novidade. Na última vez em que fiz o acompanhamento, foram descobertas manchas negras na minha retina. O oftalmologista não me deu certeza, mas provavelmente era a degeneração da retina.

Já no esporte, como isso reflete em seu desempenho?

A doença muda muito a mecânica. Uma pessoa saudável corre sempre olhando para frente, porque ela tem a visão do chão e a periférica, o que lhe permite correr com firmeza. Já quem não enxerga adequadamente, precisa baixar a cabeça, porque o chão é o ponto de estabilidade que temos. Sem falar no ziguezague. Mesmo em 100 metros, há o risco de eu invadir raia. Ao invés de ir linearmente para frente, acabo indo para os lados, o que faz com que eu perca tempo. Quando está sol, treino de óculos escuros, pois tenho sensibilidade à luz. Já em dias nublados, é horrível, uma vez que não está claro nem escuro. Prefiro treinar quando está bem escuro, porque há a uniformidade e evita que eu fique nesse meio a meio. Em uma competição, havia um poste que fazia sombra na pista. Quando me aproximei dessa quebra de luz, desviei e corri para a outra raia, o que me prejudicou. Hoje, eu não tenho CNH [Carteira Nacional de Habilitação], tendo em vista que não possuo visão periférica. O farol na minha cara me deixa sem enxergar por alguns segundos, então, imagine isso em sequência dentro de uma rodovia. Portanto, sou inapto para dirigir.

Todo o seu treinamento é voltado para corrigir esses desvios?

Sim, tento ao máximo desenvolver uma mecânica correta. Os erros estão sendo menos graves, mas como ainda vou continuar correndo com a cabeça baixa, a mecânica permanece alterada. Um ponto positivo que conseguimos é perder um pouco mais o medo de altura para a realização de saltos, que são essenciais. Atualmente, eu não tenho receio do chão e do momento em que vou alcançá-lo para conseguir responder. Foi só na mecânica que não me enquadrei ainda e, quando erro, é porque estou tentando encontrá-la. Há situações em que percebo que estou encostando no cara ao lado, então volto. Porém, nesta fração de segundos, já perdi muito tempo. Houve uma competição em que até cheguei primeiro, mas que eu poderia ter feito em um tempo menor.

Desde a descoberta da doença, você já cogitou desistir do esporte?

Em 2014, quando comecei o processo de ir para o paralímpico, pensava nisso todos os dias. Falava para mim mesmo: “Será que realmente vale a pena?”, pois eu também punha a culpa no esporte. Tinha me doado a vida inteira para ele e estava sendo retribuído com uma doença, o que me parecia um sinal para parar, sobretudo porque eu não via nenhum atleta olímpico com problema. Acho que comecei a reclamar menos quando fui para os Jogos Pan-Americanos [em Toronto, Canadá], em 2015. Até então, eu só tinha contato com a Jerusa [Santos, velocista], que, por ser tão independente, nunca me pareceu ter qualquer problema. Ao chegar ao Pan, vi tanta gente com deficiência que percebi que meu problema era muito pequeno. Estava sentado em um banco, quando se aproximou um competidor sem uma perna e sem um braço e disse para mim: “Hoje é o dia mais feliz da minha vida”. Fiquei quieto, mas ele repetiu: “Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Olha onde eu estou. É o seu também, não é?”. Se, para ele, era o dia mais feliz de sua vida, por que não poderia ser o meu? Tenho braços e pernas. Posso não ter uma visão perfeita, mas a minha situação era muito menor que a de outras pessoas. Acho que esse foi o estopim para eu perceber que era a hora de parar de reclamar. Eu estava em outro país, representando o Brasil e ainda questionando o porquê disso. Foi quando tentei blindar a minha cabeça para não reclamar mais e ver o quanto eu era abençoado e feliz por estar ali e que tudo o que havia acontecido na minha vida era por um motivo. A partir de então, notei que eu deveria fazer o mesmo que aquele cara fez por mim e ligar a chavinha nas pessoas para que elas também parassem de reclamar da vida e reconhecessem o que há de bom e tudo a seu tempo. Em 2016 [nos Jogos Paralímpicos de Verão, no Rio de Janeiro], eu estava em segundo no ranking mundial e era para estar entre os três primeiros, mas acabei não indo bem e tive que competir novamente alguns dias depois. Nesse intervalo, eu chorei e fiquei bravo comigo e com a minha situação, mas acho que foi necessário para que eu tivesse a noção do que estava acontecendo. Nasci no dia 14 de setembro de 1992 e fui campeão paralímpico em 14 de setembro de 2016. Concluí que tudo o que aconteceu era para acontecer.

Destaque as suas principais conquistas dentro do atletismo e o que ainda almeja alcançar.

Meus ápices foram o campeonato de 2009, o Pan de 2015 e as Paralímpiadas. Meu plano agora é Tóquio [no Japão]. Desde que acabou o Rio, todo o meu pensamento e trabalho estão voltados para lá. Embora seja só em 2020, já estamos praticamente no fim de 2018. Ano que vem já é 2019 e, para mim, 2019 é 2020. Este ano, vamos começar cedo o trabalho de base para competir no ano que vem e já garantir o índice para Tóquio. Assim, quando começar a temporada, vou estar treinando só para as Paralímpiadas. Eu costumo dizer que só vou responder pela minha vida depois disso. O que não foi no Rio vai ter que ser lá.

Você já transitou tanto no atletismo convencional quanto no esporte adaptado. Na esfera relacional, qual é a diferença no contato com os outros atletas?

O adaptado veio para deixar o esporte o mais igual possível. Na minha classe, todos os atletas têm a mesma “porcentagem” de visão que eu e, basicamente, as mesmas doenças. O paralímpico é diferente do esporte convencional, em que há o diálogo, mas não se estabelecem vínculos fortes. Eu participei dos dois e fiz muitos amigos, porém, sinto que, no atletismo adaptado, a amizade é maior do que a competitividade. Você vê atletas dentro e fora da pista se relacionando, formando um círculo de amizade e tendo relacionamentos de uma maneira positiva, diferente do convencional, em que há rivalidade na mesma prova e ocorre até mesmo de um país não conversar com o outro. No paralímpico, ninguém está ali para competir, ganhar e almejar dinheiro para comprar um carro de luxo e fechar uma balada. Está ali para superar uma deficiência.

Além do esporte, sabemos que você mantém uma relação muito profunda com a educação. Para você, qual a importância de o atleta também se dedicar aos estudos?

Durante a faculdade de Direito, a perda de visão foi evoluindo, então, decidi trancar o curso. O fato de não estar estudando, no entanto, sempre me incomodou. Por isso, retomei em 2017, quando decidi que era preciso dar um norte para a minha vida. Foi quando comecei com a intenção de prestar Medicina. Hoje, faço cursinho de forma paralela ao esporte. Treino de manhã e estudo durante a tarde. Por conta dos problemas que tive com acessibilidade, estou fazendo aulas particulares. No fim do ano passado, prestei vestibular em Prudente, São José do Rio Preto [SP] e Minas [Gerais], porque tenho muita vontade de voltar para lá. Cheguei a ficar em filas de espera, mas não fui chamado. Meu projeto de entrar para faculdade é porque, embora ainda não seja certo, considero pensar em uma aposentadoria após Tóquio. Depois disso, quero tentar a medicina esportiva, ajudar e, quem sabe, formar outros atletas. Conheço médicos que são treinadores e podem trabalhar em cima de coisas que são restritas a um profissional da educação física. Também tenho o interesse de criar um instituto e trabalhar com crianças, a fim de que tenham a mesma oportunidade que eu tive.

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