"Como vereadora, passei por uma grande frustração"

ANDRÉ ESTEVES • 03/03/2018 12:20:45

Nascida e criada na roça, a fisioterapeuta Bernardete Bosso Querubim leva hoje uma vida sossegada e confortável no Parque Residencial Dahma 2, em Presidente Prudente. Os dias tranquilos sucedem uma rotina agitada, a qual envolveu a administração de uma clínica de fisioterapia, a perda do marido e o empenho na construção do Hospital Regional do Câncer. A implantação de um modelo de referência em oncologia na cidade era o maior sonho de seu marido, que passou diferentes momentos da vida lutando contra a doença. Viúva aos 37 anos e com dois filhos para criar, Bernardete encontrou no trabalho e no voluntariado a válvula de escape para a sua dor.

Em 2008, foi eleita vereadora pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro) com 7,4 mil votos, mas após deixar o partido, teve o mandato cassado em 2011 por infidelidade partidária. Em sua carta de despedida, a ex-parlamentar escreveu: “Descobri que na política é assim: ou você entra no fogo e faz o que eles querem ou você é destruída”. Atualmente com 56 anos, ela descarta qualquer possibilidade de retornar ao cenário político e pretende se dedicar integralmente ao voluntariado. Além de ocupar o cargo de vice-presidente do Centro de Apoio ao Paciente com Câncer, em Londrina (PR), Bernardete traça planos de viajar para a África a fim de trabalhar com crianças carentes. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

 

O Imparcial: Quem é Bernardete Querubim Bosso e como se deu a trajetória dela em Presidente Prudente?

Bernardete: Eu nasci na roça, em Alfredo Marcondes. Em 1964, meu pai perdeu tudo. Ficamos com um único sitiozinho no dia 1º de maio. Trabalhei pesado na roça dos 8 aos 17 anos. Não tem um serviço que eu não sei fazer. Então tive uma pneumonia que quase me matou. Falei para meu pai que não trabalharia mais na roça e que iria para a cidade. Meu irmão me arrumou um emprego como vendedora de calçados e trabalhei com isso durante 11 meses. Mas o que eu queria mesmo era estudar. Meu sonho era ser médica. Só que eu via que isso seria difícil, porque eu teria que ir embora. Quem estudou em roça tinha condições de passar em uma faculdade federal? Não tinha. Minha prima, que era professora de educação física, foi fazer Fisioterapia e eu decidi acompanhá-la. Aí prestei [o vestibular] e não entrei. Comecei a fazer um cursinho junto com ela e voltei a trabalhar como subgerente da loja de calçados. Posteriormente, prestei de novo e entrei. Comecei a fazer estágio no primeiro ano de faculdade e já saí empregada. Eu ia para o estágio e assistia todas as cirurgias, porque tinha vontade de aprender tudo para ver com o que eu ia mexer depois. Fui trabalhar na Clínica Nossa Senhora Aparecida, onde fiquei por 25 anos. Tornei-me sócia, com direito a 75%, e trabalhei em consultório com mais cinco fisioterapeutas. Enquanto meu marido estava vivo, ele me ajudou a administrar a clínica. Depois que ele faleceu, ficou super difícil, porque fiquei dividida entre clínica, Hospital do Câncer e filhos. Como eu tinha muito medo de drogas, levei todo mundo para a Igreja Maristela [Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Vila Maristela], que foi o que me tirou do fundo do poço. Então, fui para São Paulo estudar RPG [Reeducação Postural Global]. Em 1996, participei de um tour científico e fui para França, Suíça e Holanda. Voltei com os diplomas. A certa altura, pensei: “Meu marido morreu de câncer, mas eu não vou”. Vendi a clínica para uma mulher que foi minha paciente, adorou a fisioterapia, se formou nisso e foi trabalhar comigo. Hoje eu tenho LER [lesões por esforços repetitivos], acabei com meus braços, porque fisioterapia não é só passar a mãozinha, você tem que mexer com a fáscia, que é aquele tecido que envolve os músculos. Se você não alongar tudo aquilo, não adianta. Dei meus 100% em minha profissão. Hoje eu quase não atendo, somente aquelas pessoas que fazem muita questão. Graças a Deus, eu fui muito bem-sucedida no que fiz. O que tenho hoje é graças à minha profissão e, se eu não tivesse entrado no Hospital do Câncer, teria três vezes mais do que tenho, mas valeu a pena. O hospital está lá.

 

A quais atividades você se dedica hoje em dia?

Atendo alguns pacientes e sou voluntária do Centro de Apoio ao Paciente com Câncer, em Londrina, onde sou vice-presidente. Vou para lá uma vez por mês. Temos um trabalho muito lindo, que se chama Beleza Contra o Câncer. Ganhamos um kit da Abihpec [Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos], juntamos 15 pacientes e ensinamos elas a se maquiarem, fazemos bagunça, nos abraçamos e nos beijamos, então todas saem de lá muito felizes. Além disso, sou dona de casa, coisa que eu nunca tinha sido antes. Atendia no meu consultório das 7h às 22h, então eu acordava, tomava café da manhã com os meninos, deixava eles na escola e ia para o consultório, de onde eu só voltava à noite. Quando fiquei viúva e começamos o Hospital do Câncer, eu aproveitava o horário do almoço e o período da noite para correr atrás do hospital. Se eu descobria algum gerente de banco novo, já ia procurá-lo para mostrar o Instituto de Oncologia, que tinha o nome do meu marido, Antônio Sérgio Querubim.

 

Por que a senhora decidiu abraçar com tanta força a iniciativa de termos um hospital de referência em oncologia?

Porque era o sonho do meu marido. O Antônio foi portador de câncer, então era muito difícil para ele sair de Prudente e deixar os filhos, porque quando você está com a família, você tem mais força. Quando ele ia para São Paulo, se sentia sozinho. Sempre havia alguém para dar o suporte necessário, porque ambos éramos autônomos, então eu tinha que ficar trabalhando e visitá-lo aos finais de semana. Como ele tinha câncer nos ossos, as viagens eram muito dolorosas. Não tinha morfina que desse conta. Então ele falou: “Vamos construir [um hospital] em Prudente”. Tudo começou quando ele participava como voluntário na Casa de Apoio Geraldo Ribeiro de Souza e viu que os pacientes sofriam muito com a quimioterapia, que deixava efeitos colaterais muito grandes. Juntamos um monte de amigos e começamos a comprar remédios para doar a eles. Meu marido faleceu antes de inaugurarmos o Instituto de Oncologia. Com isso, eu, a Maria Auxiliadora Constantino, suas filhas e as voluntárias – uma mulherada com garra – começamos a vender camisetas, depois fazer chá nas casas e binguinhos. Aquilo foi crescendo e passamos a realizar leilões. Virou uma bola de neve. Botei na mão de Deus: “Eu vou cuidar do hospital e você cuida dos meus filhos”. Ele cuidou direitinho. Hoje, meus filhos são uma bênção. E, graças a Ele, está aí o sonho realizado. Aquilo que está lá era o que eu visualizava toda noite.

 

Você continua ligada de alguma forma ao Hospital Regional do Câncer?

Não. Fiquei no hospital até entrar na política, em 2008. Acompanho de longe e meu filho canta lá toda quinta-feira. Estou muito feliz, porque o sonho do meu marido foi realizado. A única coisa que me deixa triste é que ainda não tem o nome dele, porque quem começou tudo foi meu marido. Mas eu tenho certeza que, a qualquer momento, vão colocar.

 

A senhora está satisfeita com a atual infraestrutura do hospital ou acredita que ainda há muito que avançar?

Infelizmente, aquele hospital não está credenciado. Isso é uma vergonha, porque os políticos prometeram uma coisa e não fizeram. O hospital era para estar funcionando 100%, não por falta de esforço do povo, porque deram o sangue, mas por conta da política. Hoje, há políticos que vão lá para sair na foto sem nunca ter dado um tostão, enquanto as voluntárias que largavam tudo em casa para nos ajudar desde o início não têm o privilégio. Isso é injusto e me revolta. As lideranças precisam tomar vergonha na cara e trazer o convênio para o hospital, porque o povo lutou muito para tê-lo. Quando fui apresentar o projeto em São Paulo, vi que estavam desenhando um ônibus de prevenção para Barretos [SP], sob a justificativa de que salvaria vidas. Fiquei louca, dizem que meu olho virava. “Salvar vidas é o que queremos”. Fomos falar com a diretoria da Andorinha: “Não são só os médicos que salvam vidas, são vocês. Se nos derem um ônibus, já pensaram quantas vidas serão salvas?”. No final do ano passado, vieram me falar que o ônibus bateu 100 mil exames preventivos. Quando ele saiu pela primeira vez, tinha uma mulher que não fazia um exame há sete anos. Os políticos deveriam estar vendo isso, porque a prevenção é muito mais importante do que o tratamento. O custo é muito menor.

 

Além de sua participação na construção do Hospital Regional do Câncer, a senhora também ocupou uma cadeira na Câmara Municipal. Como avalia a sua passagem pelo Plenário?

Para mim, foi uma tortura, porque você não consegue fazer o que quer. Eu entrei na Câmara com todo o gás, queria fazer tudo, mas cheguei lá e não consegui fazer nada. Um barra daqui, outro barra dali e não vai. Eu tive três projetos importantes. Um deles era a respeito da orientação postural nas escolas. O outro colocava que o portador de câncer não ficaria em fila de jeito nenhum e não pagaria para andar de ônibus. Passou parcial. Eles têm que pagar ônibus, sendo que não têm dinheiro nem para comprar remédio. Por fim, tem muita gente que chega em casa e descobre que está com a água cortada, porque não teve condições de pagar ou porque esqueceu, então eu gostaria que antes de haver o corte, falassem com o responsável e dessem a oportunidade para ele se explicar e fazer o pagamento. Há pessoas que chegam em casa e não têm como tomar um banho ou ferver uma água para fazer um arroz. Como vereadora, passei por uma frustração muito grande. Sinto uma gratidão imensa por quem votou em mim, mas a frustração foi tão grande que eu não podia estar lá enganando o povo e quem acreditou em mim. Cumpri dois anos e cinco meses de mandato, perdi porque saí do partido. Hoje, eu não voltaria para a política, porque não consigo fazer nada lá.

 

Como foi a sua vida após a morte do marido?

Para mim, foi muito triste. Na época, eu fiquei muito revoltada com Deus. O Hospital do Câncer foi a minha fuga. Eu queria construir aquilo de qualquer forma. Eu pensava: “Deus me levou ele, mas nós podemos salvar vidas. Vou dar 100% para outras pessoas não morrerem”. Eu pensava no hospital dia e noite, fiquei obcecada. Não tinha um leilão ou um evento que eu não participava. Parava em casa só para dormir. Mas de modo geral, foi um período muito difícil para mim. Fiz terapia, porque eu não aceitava a morte dele. Até hoje é complicado, pois meu marido era uma pessoa boníssima. Antes de pensar nele, ele pensava no próximo. Quando estava fazendo radioterapia em Campinas (SP), fazíamos orações em família todas as manhãs. Certa vez, ele começou a pedir pelos amigos, que estavam melhores do que ele. Meu marido não havia dormido naquela noite, tinha gritado de dor, então eu fiquei muito brava. Falei: “Reza para você, que está precisando mais que os outros”. Na hora, perdi a paciência. Mas ele era assim, uma pessoa que veio para me ensinar e fazer o Hospital do Câncer acontecer. Nunca vi ele xingar alguém ou entrar numa briga. Ele ensinava: “Não brigue, sai de perto”. Meus filhos levam isso à risca: “Se bater de um lado, eu dou o outro”.

 

Quais são seus planos daqui para frente e o que espera para o futuro?

Na minha vida pessoal, se eu reclamar de alguma coisa, estou pecando. Tenho dois filhos maravilhosos, muitos amigos, e hoje estou fazendo o que nunca fiz, que é viajar. Além disso, realizo o meu trabalho voluntário que eu amo muito. O que espero é continuar com saúde e paz e ver meus filhos bem e meus netos nascerem, porque ainda não tenho nenhum. Já para o Brasil, espero pessoas mais conscientes e íntegras. Tenho um sonho imenso, que é ir para a África cuidar de criança. Se eu não conseguir esse ano, vou para outro lugar que já estou estudando. Quero cuidar das crianças, passar um pouquinho do meu conhecimento para elas e mostrar que por meio delas podemos fazer um mundo melhor. Eu só queria um mundo um pouquinho melhor e isso depende apenas de nós.

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