Autonomia

“Aceitei minha condição de paraplégico desde o primeiro dia e isso me fortaleceu”

Conheça a história do barbeiro Raphael Ferreira, que retomou sua vida com garra, mesmo preso a uma cadeira de rodas

ANDRÉ ESTEVES • 14/09/2018 09:59:00

Cadeira de rodas não impediu que barbeiro voltasse à atividade. Foto: José Reis

A vida do barbeiro Raphael Luiz Silva Ferreira, 30 anos, é dividida em dois momentos. Antes dos eventos que marcaram o dia 24 de abril de 2017, o prudentino fazia planos de dar entrada na casa própria e se tornar pai. No entanto, precisou adiar temporariamente os projetos para encarar um novo desafio: a adaptação na cadeira de rodas. Em uma tarde de segunda-feira, ele estava em sua motocicleta, quando colidiu contra uma VW/Kombi e lesionou a sua medula, o que o deixou paraplégico.

Após 21 dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e uma temporada de reabilitação no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília (DF), o jovem voltou para casa com um único objetivo: retomar de onde parou. A oportunidade surgiu ao ser convidado para integrar o quadro da Barbearia 88, localizado no Jardim Vale do Sol, em Presidente Prudente. Com o apoio dos amigos, ele providenciou uma faixa torácica – feita de cintos de segurança de veículos – que lhe garante equilíbrio e impede que seu corpo vá para a frente enquanto realiza os cortes. O retorno de Raphael ainda é recente, mas já ganha as redes sociais e a curiosidade dos clientes.

Em sua conta pessoal no Instagram, o barbeiro deixa claro na descrição do perfil que, embora tenha lhe tirado a mobilidade das pernas, a lesão na coluna não é um fator limitante. “Sua mente é livre para voar, pode prender o seu corpo, mas jamais o seu pensamento”, escreve. A rede social lhe serviu, a princípio, para esclarecer dúvidas com outros paraplégicos, mas hoje ele já a utiliza para o caminho inverso: aconselhar pessoas que se descobrem na mesma condição que a sua. Em entrevista concedida a O Imparcial, Raphael compartilha sobre o acidente, seu processo de adaptação e como passou a enxergar a vida sob um novo prisma: o daqueles que dependem das políticas de acessibilidade para garantir a sua autonomia. Acompanhe nas linhas a seguir:

O Imparcial: Raphael, você sempre foi barbeiro ou iniciou a atividade após o acidente?

Raphael: Não, antes de me tornar barbeiro, eu mexia com decoração de festa infantil. Como eu sempre cortava o meu cabelo, o pessoal me questionava por que eu não fazia o curso. Respondia que cortar o meu era muito mais tranquilo, enquanto o dos outros poderia ser mais difícil. Então, minha esposa também passou a me incentivar, decidi escutá-la, fiz o curso e gostei. Mais tarde, comecei a fazer corte a domicílio e continuei mexendo com decoração de festa infantil, até que apareceu a oportunidade de trabalhar em uma barbearia grande de Prudente. No entanto, em pouco tempo, aconteceu o acidente. Eu estava na moto quando uma Kombi me fechou sem dar seta. Bati a 40 quilômetros por hora e rompi a medula. De lá para cá, a adaptação foi difícil e demorada. Tive que ir para o Hospital Sarah Kubitschek, para fazer a reabilitação. Felizmente, quando retornei a Prudente, voltei uma pessoa mais adaptada e que não via a hora de voltar a trabalhar. Na época do acidente, minha esposa teve que sair do trabalho para cuidar de mim e começou a vender roupa. Ao vê-la trabalhando para sustentar a casa, eu ficava imaginando o que poderia fazer para ajudar. Minha vontade era voltar para uma barbearia, mas achava que só conseguiria se eu tivesse uma cadeira que me deixasse em pé. Comecei a pensar em uma forma de adaptação e o pessoal da barbearia onde estou me deu uma força para voltar a fazer o que eu gosto. Isso porque, atualmente, a maioria dos trabalhos para pessoas em uma cadeira de rodas é dentro do escritório, mas essa não é a minha praia. Deu certo voltar a cortar cabelo e estou gostando muito. Moro aqui perto, dá para vir batendo o braço e estou muito feliz. O pessoal correspondeu, os clientes antigos estão voltando, estamos fazendo novos clientes e, graças a Deus, tem dado tudo certo.

Compartilhe conosco quais foram as circunstâncias do acidente.

Era uma segunda-feira e eu estava em um dia de folga da outra barbearia. Por volta das 15h20, passei por uma lombada da avenida do campus 2 [da Universidade do Oeste Paulista] e avistei uma Kombi na frente. Quando dei uma aceleradinha para passar, ela bicou para fazer o contorno e não viu que eu me aproximava. Bati na lateral do veículo, a 40 quilômetros por hora. Fui conduzido ao HR [Hospital Regional Doutor Domingos Leonardo Cerávolo], onde fiquei internado por 31 dias, sendo 21 na UTI. Uma vez que a lesão foi na medula, minha situação era grave. Como me disseram que não havia 1% de possibilidade de eu voltar a andar, não via a hora de me adaptar logo para poder voltar ao trabalho. No Brasil em que a gente vive, prefiro trabalhar e ganhar um pouco mais do que ficar aposentado dentro de casa com direito a um salário mínimo.

Como você recebeu a notícia de que havia perdido a mobilidade das pernas?

Na verdade, eu já imaginava isso no momento do acidente. Quando colidi contra a Kombi e fui para o chão, eu já não sentia mais nada e não conseguia me mexer nem me levantar. Na hora, veio na minha cabeça que eu ficaria paraplégico. Mas aceitei. É a vida. Em nenhum instante, fiquei em estado de negação, aceitei minha condição de paraplégico desde o primeiro dia e foi isso que me fortaleceu. Ao se entregar, você só piora, corre o risco de entrar em depressão e prejudicar a sua vida.

E como foi a recepção do público no momento em que retomou a atividade como barbeiro? Os clientes ficaram receosos em cortar o cabelo com uma pessoa que está na cadeira de rodas? Houve esse tipo de preconceito?

Até agora, não vi nenhum preconceito e, caso eu veja, direi que sou uma pessoa normal. Estou na cadeira de rodas, mas tenho a função das mãos. Enfrento alguns desafios no ofício, pois há ângulos que me deixam um pouco limitado. Apesar de demorar um pouco mais, consigo fazer. Só preciso agendar os clientes a cada uma hora, pois, durante o corte, tenho que fazer intervalos para alívio. Como fico sentado o dia inteiro, esse descanso é necessário. Agora, a altura do cliente não interfere tanto porque a cadeira já está em um patamar legal e, caso contrário, peço para o ocupante dar uma escorregadinha para baixo.

Fora do local de trabalho, você tem encontrado problemas com a acessibilidade?

Infelizmente, Presidente Prudente ainda deixa a desejar em termos de acessibilidade. O pessoal constrói uma rampinha e diz que já é acessível, mas não é bem assim. Há rampas que são muito inclinadas ou o comecinho é quebrado. Caso você for de frente, a rodinha trava e há o risco de cair frontalmente. Calçadas inclinadas também são horríveis para o cadeirante. Se você quer ser independente, precisa andar no meio da rua, porque há calçadas em péssimas condições. Estou me desdobrando para conseguir minha autonomia e não vejo a hora de ficar totalmente independente.

O processo de adaptação dentro do casamento foi difícil?

Não. Graças a Deus, a minha esposa sempre me apoiou. É claro que o começo foi difícil e cansativo, mas ela entendeu. Foi uma etapa da nossa vida que passou logo. Hoje em dia, sou mais independente em casa, peço pouca ajuda e, dentro dos meus limites, consigo auxiliá-la. Quanto à minha família em geral, todos ficaram chocados no começo, mas atualmente me dão muita força. Falam que sou um exemplo de vida e superação.

Quais são seus sonhos daqui para frente?

Fazer o que eu amo, seguir trabalhando na barbearia e vê-la crescer devagarzinho. Se Deus quiser, logo logo todo mundo vai vir aí para apreciar o meu trabalho.

Hoje, não há qualquer expectativa de que você volte a andar?

Os médicos não me deram 1% de chance, porque a lesão foi completa. Sendo assim, é muito difícil voltar a andar, mas mantenho a fé em Deus e entrego a minha vida nas mãos Dele. Se Ele quis que eu ficasse assim, viverei desta forma. A vida não pode parar.

Você continua tendo acompanhamento médico?

No começo, eu tinha acompanhamento frequente. Hoje, já não tenho mais, porque fiz reabilitação em Brasília e aprendi muita coisa. Daqui para frente, no entanto, vou precisar pagar plano médico mensalmente, pois, como estou paraplégico, qualquer coisa pode acontecer no meu corpo.

Você guarda algum arrependimento ou mágoa em relação ao seu acidente?

A única mágoa que tenho é por conta do condutor, porque a família não me deu nenhuma assistência até hoje. No primeiro e segundo dias, chegaram a enviar mensagens para minha esposa, mas não foram ao médico para se certificar de que eu estava bem ou precisava de um mero remédio para dor. Infelizmente, vou precisar entrar na Justiça contra eles, pois gastei muito, ao passo que não consertaram sequer minha moto. A perícia apontou que eu estava certo e ainda assim não tive qualquer suporte da outra parte.

Há planos que você fazia antes do acidente e que, por conta dele, precisaram ser desfeitos?

Enquanto eu estava na barbearia, fazia muitos planos para este ano. Eu daria entrada em uma casa e já conversava com a minha esposa para termos filhos, o que ficou difícil por conta da lesão. Provavelmente, terei que fazer inseminação artificial. Tivemos que atrasar um pouco esse projeto, mas logo vai acontecer, se Deus quiser.

Que mensagem você deixa para outras pessoas que se encontram na mesma condição?

Sugiro que tentem retornar ao mercado e busquem uma atividade para distrair a cabeça, a fim de que possam ganhar a vida trabalhando honestamente.

Estilo do Site
  • Luz
  • Alto Contraste