Celas invisíveis

 07/11/2017 10:21:57  - Arlete Piai

Nenhum ser humano nasce pronto, como nenhuma nação nasce pronta. A história da Europa, por exemplo, foi confrontada com migrações bárbaras que aniquilavam gerações inteiras, monarcas cruéis, a peste negra, a divisão do império entre Leste e Oeste e a devastadora Idade Média, que se instalou no coração da Europa Ocidental. Foram séculos de escravidão e lutas contínuas até que se chegasse a Europa dos dias de hoje.

Nos tempos coloniais do Brasil, os direitos políticos se restringiam a uma parcela de proprietários de terra, conhecidos como “os bons”. Eles decidiam os cargos políticos e se moviam para que fossem vitalícios na economia e no poder. Com a independência do Brasil pouco mudou. A República já se inicia com “generais de ferro”, perdura o espírito monárquico, os mesmos privilégios e os mesmos vícios. Em 1930, Getúlio Vargas fez manobras políticas escandalosas e permaneceu por quinze anos no poder, até 1945. Somente em meados do século 20 começa a nascer o gérmen da democracia no Brasil. Mas, quando o espírito democrático ensaia seus primeiros passos, vem o golpe dos militares em 1964, que estabelece “uma ditadura dura” durante 20 anos. E, a partir de 1984, conquistou-se o voto sem conquistar a democracia, de fato.  

Hoje, no Brasil, vivemos um misto do espírito colonialista e monárquico injustificável para o século 21.  O povo é refém de 513 deputados e 81senadores, os quais bancamos, além dos seus salários astronômicos, mordomias e crimes. Recentemente, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) resolveu dar uma voltinha por Israel, Palestina, Itália e Portugal com nove deputados convidados, e lá se foram, em três dias de recreação, mais R$ 90 mil dos nossos impostos. Questiona-se: se temos 26 Estados, por que centenas de deputados? Será que um ou dois por Estado não seria o suficiente? Até setembro, a Câmara custou aos brasileiros R$ 345,1 milhões. E veja ainda, leitor, Michel Temer (PMDB) decidiu fazer viagens internacionais em Boeing 767, com custo de R$ 71 milhões. Só para encher o tanque dessa aeronave gasta-se entre R$ 600 mil e R$ 1 milhão. Ainda, para engavetar suas próprias denúncias, liberou mais de R$ 156 milhões dos nossos impostos. 

O Brasil precisa ter juízo! É tempo de estar consciente de que somos os patrões dos políticos e não o inverso, porque os pagamos e, excessivamente, a fim de que sejam serviçais da nação. A democracia deve ser incômoda, ativa, barulhenta; ela só pode sobreviver se o povo grita, diz o que pensa, cobra, acerta, erra, dá volta, contorna, retoma o seu caminho.

Hoje vivemos com a falsa sensação de democracia e de liberdade porque estamos rodeados de celas invisíveis. Como nos libertar? Pelo voto, é claro; e também entendendo que democracia não é vitrine de celebridades bossais que o sistema deseja que sejam ícones de admiração e imitação para nos alienar. A autêntica liberdade é matemática e música, é teorema e poesia, é utopia e realização. “Ninguém se pretende que a democracia seja perfeição. Talvez seja até a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. (Winston Churchill)

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