Águas de janeiro

 08/01/2018 10:57:01  - Sandro Rogério dos Santos

A água é eloquente símbolo da vida. Sabemos por senso comum que sem alimento, a depender de algumas condições, é possível viver cerca de um mês, enquanto o mesmo não se dá com a falta d’água – quatro a sete dias. Somos aconselhados a tomar bastante água diariamente (dois litros?). Ela é valiosa para a vida, toda vida. Daí que essas ‘águas de janeiro’ sobre a nossa região (mas não só) podem ser vistas como uma bênção. Deus regando a terra para que a seu tempo ela dê frutos.

Com as chuvas, o clima ameniza, a poeira inexiste e os que sofrem com forte calor, tempo seco e alergias agradecem. Mas há quem veja a chuva como atrapalho. Lavar e secar roupa, deslocar-se de ônibus, a pé ou de motocicleta, os buracos nas vias, o mato alto, alagamentos pela cidade, atoleiros nas estradas rurais, perigo no trânsito, galhas e árvores caídas e até quedas de pontes e destelhamento ou queda de casas (em geral, barracos construídos em áreas impróprias). – Para constar, enquanto escrevo, chove sem preguiça.

Saio um pouco do leito desse assunto para navegar outras águas. O fluxo existencial. A vontade de viver. As condições disponíveis e ao alcance para surfar nas ondas da vida. — Não estou de férias nem na praia; o exemplo pode ser uma indicação de para onde eu gostaria de me encaminhar (riso), embora eu não seja fã de praia-mar nem da prática do surf—. Volto. Assim como no exemplo da chuva que para alguns é bênção, enquanto para outros, atrapalho, as situações que nos acontecem podem ou não nos favorecer. Este é o primeiro domingo de 2018. Um novo ano.

A mudança do calendário de algum modo provoca inquietações de mudança interior e, às vezes, exterior. Um novo trabalho, uma nova série na escola/faculdade, um novo curso de graduação ou pós, uma nova construção, uma nova viagem, um passo a mais no namoro com o noivado ou o casamento, uma nova experiência com a gravidez e o nascimento do filho ou mesmo do neto, um novo emprego, novos desafios impostos ou autoimpostos etc. Parece-me que nesses dias de transição anual ‘novo(a)’ é a palavra que nos ocupa o imaginário e nos exige cuidado e atenção. O vulcão sinaliza erupção.

Lembrei-me daquela história do cientista preocupado em transformar o mundo para melhor. Para se livrar do filho pequeno que o importunava durante o trabalho, deu-lhe um mapa-múndi recortado em forma de quebra-cabeça para o menino montar. Acreditava que esse trabalho levaria possivelmente alguns dias. Surpresa. Em poucos minutos, o menino chamava o pai para mostrar-lhe o resultado. O pai, incrédulo, viu que de fato o mapa estava reconstituído e sem erros. Como você fez isso, perguntou o pai. O menino disse: — Enquanto você recortava o mapa, vi do outro lado do papel tinha um homem. Eu consertei o homem, daí do outro lado, estava o mundo consertado.

Acredito que as mudanças sejam necessárias o tempo todo para todos. Da mesma forma acredito que apenas donos de transportadoras e fazedores de frete são os que gostam de mudanças. O restante resiste. Resistimos ao desconhecido e ainda inominável, pois mesmo em situação ruim o já conhecido nos traz alguma segurança. Se você é daqueles que gosta de fazer propósitos, ainda dá tempo. Bom será, entretanto, não delirar nem ir além daquilo que sua estrutura suporta. Ciente de onde se quer chegar, um passo depois do outro. Mudando-se, o mundo em derredor jamais será o mesmo.

Comentário