COTIDIANO

Wall-E: Somente uma ficção?

  • 19/07/2019 04:13
  • Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Wall-E, abreviação de “Waste Allocation Load Lifter Earth-class”, é o ultimo robô deixado na terra. Um filme muito interessante, instigante, envolvente e reflexivo de 2008. Ganhou o Oscar de melhor filme de animação, entre outros. Para quem não assistiu, vale a pena. Representa um “despertador” nos despertando para uma realidade que não tem nada a ver com ficção. Questões psicossociais, culturais e ambientais são tratadas com muita propriedade no filme, como um chamado ou alerta aproximando do real.

Após entulhar a terra de lixo e poluir a atmosfera com gases tóxicos, a humanidade deixou o planeta e passou a viver em uma gigantesca nave. O plano era que o retiro durasse alguns poucos anos, com robôs sendo deixados para limpar o planeta. Wall-E é o ultimo destes robôs, que se mantêm em funcionamento graças ao auto-conserto de suas peças. Sua vida consiste em compactar o lixo existente no planeta, que forma torres maiores que arranha-céus, e colecionar objetos curiosos que encontra ao realizar seu trabalho. Até que, um dia, surge repentinamente uma nave, que traz um novo e moderno robô: Eva. Curioso, Wall-E logo se apaixona pela recém-chegada.

O que choca no filme são as questões que passam a ser encaradas obsoletas como, por exemplo: emoção, vida vegetal, flora, amor e mobilização corporal. Há o desaprendizado do exercício físico. Os habitantes não sabem mais andar. Atrofiam aos poucos seus pés e pernas. Ficam sentados olhando para os computadores o tempo todo. Vamos pensar se já não estamos próximos dessa realidade. Observem os estabelecimentos comerciais. Ao entrar, os vendedores estão todos sentados e olhando para seus computadores ou celulares. A atitude é de indiferença e passividade. Nós, consumidores, não sabemos para quem nos direcionar. E os vendedores não se levantam para ir em nossa direção. Nós, consumidores, que temos que ir até eles. Tudo se realiza com eles sentados. Isso nas casas de tintas, produtos de limpeza, produtos dos mais diversos.

Estamos sendo estimulados a resolver tudo pelo aplicativo ou sites. Tudo está caminhando para ficarmos o dia todo no computador ou celular para resolver tudo. Já falamos em consultas médicas, psicoterápicas, exames, online. No filme, há como pano de fundo um apelo para os já  “tão esquecidos e obsoletos”: amor, paixão, emoção, beleza e a tão importante intimidade. Hoje testemunhamos descasos com o lixo, bens públicos, idosos, fauna e flora, enfim, com os seres humanos. Estamos vivendo experiências de banalizações. Narcisismo se alastra como uma praga descontrolada.

O mal que provocamos ao meio ambiente recai sobre todos nós. Não estamos isentos do mal que o próximo provoca ao meio ambiente. Todos estamos relativamente imbricados com a desgraça alheia. Uma imagem chocante foi quando, no supermercado, ao comprar um peixe, a consumidora perguntou onde estava a sacola de plástico para embrulhar o peixe e a moça do caixa disse: “Está dentro do peixe”. Por descaso, egoísmo, narcisismo, corrupção, psicopatia teremos de deixar o planeta Terra?

Acordem! Façam cada um o seu papel. No filme, há uma cena chocante entre Wall-E e Eva (não tem esse nome por acaso), em que os dois robôs apaixonados dançam. A mensagem nada mais é do que um chamado à apreciação sobre a beleza entre a emoção e o já tão obsoleto amor. Os robôs querem transformar em humanos, como outro filme maravilhoso chamado “O homem bicentenário”, com Robin Willians. E todos nós, humanos, estamos robotizando?

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Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Maria Angélica Amoriello Bongiovani é psicóloga clínica, psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Contato: angelicabongiovani@stetnet.com.br

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