Viver agora

  • 26/05/2019 07:30
  • Sandro Rogério dos Santos

Todos queremos ser olhados, acolhidos, servidos, ajudados, confortados... e amados. O olhar do outro – não julgador – é a força que procuramos para certificar o nosso próprio valor. Entretanto, uma das dificuldades porque passamos é a de não estarmos onde estamos agora. Vivemos projetados ao futuro, mergulhados (ou distraídos?) em ideias e desejos à frente, planejamos os dias e as horas enquanto a vida está passando; as presenças reais são ignoradas e descartadas; ‘focados’ em nós mesmos, nos fazemos prisioneiros do próprio umbigo. Quem nunca foi trocado pelo papo no celular quando estava conversando com um parente ou amigo? Ignoramos aqui-agora, pois ansiamos ali-jájá. Nessa linha, cito uma passagem da obra “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – uma investigação sobre valores”, na qual o autor distingue entre a “escalada egocêntrica” e a “escalada desprendida”.

Aparentemente, não há qualquer diferença entre a escalada egocêntrica e a escalada desprendida. Ambos os tipos de alpinistas avançam colocando um pé na frente do outro. Ambos inspiram e expiram à mesma velocidade. Ambos param quando estão cansados. Ambos prosseguem depois de descansar. Mas como são diferentes! O alpinista egocêntrico é como um instrumento descalibrado. Está sempre atrasado ou adiantado na caminhada. Corre o risco de deixar de ver a beleza dos raios de sol passando através das copas das árvores. Ele prossegue mesmo cansado, a passos trôpegos. Descansa nas horas erradas. Fica olhando para cima, para ver o que o aguarda, mesmo quando já sabe o que existe adiante, porque já olhou para lá há apenas um segundo. Vai muito depressa, ou muito devagar em relação às condições reais e, ao falar, fala sempre sobre outro lugar e outras coisas. Está aqui, e, ao mesmo tempo, não está. Rejeita o presente, não se conforma com ele, quer prosseguir, mas, ao atingir o ponto desejado, fica tão insatisfeito quanto está agora, porque o lugar antes distante se transformou no “aqui”, no lugar presente. Aquilo que ele procura, aquilo que ele deseja, está ao redor dele, mas ele não aceita, justamente porque está ali pertinho. Cada passo requer um tremendo esforço, tanto físico quanto espiritual, porque ele imagina que o seu objetivo é externo e distante. (Robert M. Pirsig)

Deve-se escalar montanhas com o mínimo desperdício possível de energia e sem desejo de chegar a algum lugar. Nossa natureza é que deve determinar a velocidade da escalada. Se a gente estiver impaciente, pode-se apertar o passo. Se ficar sem fôlego, convém ir com mais calma. A montanha deve ser escalada num equilíbrio entre a disposição e o cansaço. Aí, quando a gente não estiver mais pensando no que vai encontrar, cada passo será não um meio para alcançar um fim, mas um acontecimento em si mesmo. Esta folha tem bordas recortadas. Esta pedra parece que está solta. Deste lugar não se pode ver bem a neve, embora estejamos mais próximos dela. São coisas que vamos percebendo, de um modo ou de outro. Viver somente para alcançar um objetivo futuro é mesquinho. A vida floresce nas encostas da montanha, não nos cumes. Aqui é que nascem os seres vivos. Referente à vida espiritual, talvez, para aprender, devo primeiro ficar quieto num lugar. Não posso transformar uma escalada desprendida numa viagem egocêntrica. Não posso na ânsia de alcançar alguma coisa lá adiante, descuidar do meu entorno, agora, quando a vida acontece. Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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Sandro Rogério dos Santos

Sandro Rogério dos Santos

Sandro Rogério dos Santos é pároco do Santuário Diocesano Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, situado no Jardim Maracanã, em Presidente Prudente.

Contato: padre@santuariosantateresinha.com

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