Uma pequena história da nossa aldeia

  • 22/07/2019 07:00
  • Persio Isaac

“Se quiseres ser universal, começa por pintar a sua aldeia” – Leon Tolstói. Essa poética frase desse grande escritor russo, levo no meu coração desde a minha juventude. Sou um filho de Presidente Prudente. Onde estiver sempre terei suas cores, sempre cantarei a minha cidade. Aqui é o meu lugar. Aqui sou o que sou, nem triste, nem alegre, mas feliz por sentir e conhecer as minhas origens. Venho de uma família de imigrantes de origem árabe. Meu pai se chamava Ilem Isaac (In Memoriam) e minha mãe se chama Mariana Moysés Isaac. Ela tem 97 anos. Tenho cinco irmãos e duas irmãs. O mais velho se chama Sérgio e mora em Campo Grande (MS), depois vem o Teco, eu, Roy, Ilenzinho, Mariza e Cássia que moram a mais de 30 anos nos Estados Unidos. Sou casado com Cristiane, a Mulher Maravilha, tenho duas filhas maravilhosas, a Luiza que é médica e a Flávia que é publicitária.

E para completar ainda mais essa grande família, a Luiza nos deu uma neta que se chama Isabel. Ela vai fazer 1 ano no dia 30 de agosto. A casa da Avenida Washington Luiz, número 501, era mágica. Vivia cheia de amigos, música, sonhos e muito amor. A felicidade não precisa de luxo. Minha mãe acolhia a todos sem escolher o credo, a raça, a cor, rico ou pobre. A calçada era como se fosse a área da casa. À noite sentávamos no chão, nas cadeiras ou banquinhos para jogar conversa fora, dar risada ou cantar algum samba olhando para lua. Quem iria imaginar que um dia o homem iria pisar na lua? Pensávamos que a lua era dos namorados. Acabou a fantasia, acabou o mistério e o encanto. A lua não era mais virgem. A maldade ainda não tinha nascido, pelo menos nesse tempo nunca apareceu nesse pequeno universo de inocência. Na escola, no I.E. Fernando Costa, sempre sentava no fundão, lugar aonde me sentia seguro abraçado na minha timidez. Dona Neusa Macuco era a professora de Português. Suas chamadas orais eram para mim um martírio, como se eu estivesse em alto mar e visse uma barbatana de um tubarão branco, cortando o oceano vindo em minha direção. Oh Dona Neusa, chama o Tiago Marcondes, ele é estudioso, me ajude aí. Ainda bem que o sinal tocou e saí correndo. Dessa vez escapei com vida. Fiquei 1 mês sem aparecer nas aulas da Da. Neusa, na esperança que ela me esquecesse.

Descia a Avenida Washington Luiz, ainda sem asfalto, a pé para o Tênis Clube, escutando o barulho do motor de um Simca Chambord. Seu Mário Tumitan, seu Afonso, Dona Dina eram os anjos da guarda de uma juventude que nem sabiam como era o mundo. Até hoje, ninguém descobriu os métodos do seu Mário no tratamento da água da piscina grande. A água tinha uma cor verde exageradamente escura por causa da alta quantidade de cloro. Só ele sabia os segredos e os macetes químicos para chegar nessa cor. Um gênio que ainda o mundo não descobriu. Não precisava nem passar pelos exames do Dr. Abel que já sabia que as micoses não iriam se criar nas águas dessa lendária piscina. Os olhos vermelhos, corpos esverdeados, assim que a rapaziada ficava quando saia da água, seres de outros planetas. Se quisesse esconder era só pular na piscina que ninguém te achava. Para sair da água tinha que ser pela escadinha, pois se tentasse pela borda teria que escalar um muro como se fosse um alpinista de tão alto. Que ignorância. O duro era aguentar os famosos caldos do Jamanta. Era impressionante, se não tivesse um bom fôlego morria.  E a água da piscina média? Era mais gelada que o mar do Polo Norte. Se ficasse mais que 5 minutos seu corpo poderia entrar em um estado de hipotermia. Mas quando se é jovem tudo é engraçado. E era mesmo. O que mais gostava, era ver a bela Solange Zacharias (In Memoriam) tomando sol com aquele corpão moreno escultural. A imaginação ficava sem pai e sem mãe, livre, sem amarras, sem a moral repressora que morria aos pés dos desejos proibidos.

Via o mundo através da tela do Cine Presidente, sentado nas cadeiras largas, estofadas do Pulman chupando as gostosas balas de leite ou de café, imaginando ser um Bruce Lee na Operação Dragão. Não poderia esquecer-se do querido amigo, Besteirento. Quem não se lembra desse amigo? Besteirento era um tipo de menino de rua com um humor sagas e muito rápido de raciocínio. Sabia tudo de cinema. Passava em casa quase todos os dias e nos falava: “Não percam hoje no Cine Presidente na seção das 20h, o filme os Brutos também amam com Stewart Granger”. Esse era Besteirento. E o Salim Turco? Para mim o homem mais forte do mundo. Essa é uma pequena parte da minha história, da nossa aldeia, das nossas raízes. Vamos pintá-la, vamos cantá-la. É bonito. A história existe para sabermos quem somos.

Fiquei muito honrado pelo convite do Sinomar para ser o cronista de O Imparcial, um jornal que sempre cantou a sua aldeia.

 

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Persio Melem Isaac, empresário e cronista aos domingos em O Imparcial. Contato: persiomisaac@gmail.com

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