Tempo de ditadura

  • 23/07/2019 07:30
  • Arlette Piai

No tempo da ditadura, a gente não podia escrever sobre o tempo da ditadura, nem qualificar o regime como uma ditadura. No tempo da ditadura, todos eram suspeitos, subversivos em potencial. Formou-se no início de 1964, no tempo da ditadura, o fantasma diabólico de um comunismo ameaçador, embora o povo brasileiro jamais desejou ou sonhou com o comunismo. No tempo da ditadura foi decretado o AI-5 (Ato Institucional 5), baixado pela Junta Militar, que caçaram muitos e cassaram muitos outros, entre eles o grande sociólogo Darcy Ribeiro, um amante da democracia; o economista Celso Furtado, Juscelino Kubitschek, e Paulo Francis, jornalistas.

Raul Seixas, depois de ironizar o regime com a “Mosca na sopa” e milhares de outros que lutavam contra o regime ditatorial foram exilados ou mortos. Teatros foram depredados, atores espancados. Os ditadores sempre se deslumbram com o poder eternizado e se acham acima do bem e do mal e fazem da política massacre sem parâmetros. Diziam eles que o Golpe de 1964 impediria o comunismo e restauraria a democracia em dois anos, que virou 21 anos.

Rascada a constituição, no tempo da ditadura, os despachos da Presidência de República passaram a valer mais que leis. Os presidentes agiam pior que monarcas, podiam decretar intervenção de Estados e municípios e fazer tudo que quisessem. No tempo da ditadura, não se discutiam os investimentos e militares faziam o que bem entendiam como a construção da usina nuclear com tecnologia obsoleta que depois de jorrar bilhões do dinheiro público foram abandonadas. Devastaram índios, e construíram a mercê da própria vontade a  Transamazônica, depois abandonada e tomada por florestas. Colaboraram para o desmantelamento da malha ferroviária brasileira – coração do transporte. 

Final da ópera: O Brasil talvez tenha sido vítima de urna das maiores farsas da História, porque nunca correu o risco de virar comunista. Nos 21 anos de ditadura ocorreu o estímulo à privatização do ensino e foi conduzida a queda do ensino público brasileiro, daí o aumento vertiginoso das desigualdades sociais.  Ocorreu o “desmanche” das pesquisas científicas e a queda da saúde pública. Nesses 21 anos vigorou censura, torturas e concentração de renda. A crise da dívida externa desestruturou profundamente a economia brasileira, desestruturação essa, que vivemos seus resquícios até os dias atuais. De positivo, ocorreu crescimento do PIB nos primeiros anos.  Mas em menos de uma década ocorreu empréstimo no FMI (Fundo Monetário Internacional) também sem que o povo soubesse. 

A democracia é muito frágil e o povo brasileiro precisa estar muito alerta, afinal sem a complacência do povo, nenhuma ditadura é instalada. Entretanto, se instalada é dolorosa e irreversível. Mas afinal, a democracia no Brasil é admirável? Não! Longe disso! Mas pode ser aprimorada com o “poder do povo” e o “poder do voto”. Disse acertadamente Adolf Hitler: “Que sorte para nós que os homens não pensam”.

 

 

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