Tão longe e tão perto

  • 20/09/2019 04:59
  • Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Estava quarta-feira na Associação Filantrópica de Proteção aos Cegos dando, a convite, palestra sobre “Setembro Amarelo: Prevenção ao Suicídio”. Iniciei dizendo que não estava ali para proferir uma palestra e sim, junto com eles, discutirmos as vicissitudes desse ato tão doloroso e real em nosso meio. Passei um vídeo sobre transtorno depressivo e então fomos falar do tema proposto. Assim, finalizando, abri espaço para que todos pudessem manifestar-se de qualquer forma e com seus instigantes questionamentos. E foram muitos. Alguns queixaram de não serem levados a sério quando se referem às suas angústias.

A deficiente visual, fóbica em decorrência de um acidente no elevador evoluiu para transtorno de pânico, comenta sobre sua dificuldade em ser aceita, entendida e acolhida em seu meio de transporte usual e diário por aliviar-se ao sentar na porta, caso aconteça outro acidente, saíra primeiro. Ou seja, queixa-se da falta de conhecimento sobre fobias e transtornos de ansiedade, depressivos, alimentares, etc. E tem muito fundamento sua fala.

Precisamos conhecer os problemas de saúde mental antes de julgarmos o outro. Dizer que depressão não existe é covardia. Recomendar trabalho como, um tanque cheio de roupas sujas, é de uma maldade e ignorância sem dimensão. É importante ter em mente que a dor não é só corporal e local. A dor psíquica é inodora, insípida e incolor. Ela existe e está na alma. E é avassaladora. Um trauma, dependendo de sua magnitude, dura por toda uma vida se não for expresso e elaborado. A dor psíquica precisa ser enfrentada e semanticamente vivida. Transformada nos fortalecemos.

Então foi quando outra moça manifestou levantando a mão em desejo de pronunciamento. Ela iniciou desabafando com choro, em seguida relatou que estava muito deprimida e pensando em suicidar-se, pois, estava ficando cega total. Pausei. E em todas as camisetas dos deficientes visuais da associação havia uma frase estampada atrás que dizia assim: “O essencial é invisível aos olhos”, foi o que primeiro observei quando lá cheguei. E foi o que primeiro pensei e devolvi a ela. E acrescentei que nem todos que enxergam têm capacidade para ver. Nem todos que escutam têm capacidade para ouvir.

A sensibilidade na contemporaneidade tem ficado cada vez mais escassa. Rara como água no deserto. Os deficientes visuais possuem os órgãos dos sentidos aguçados. E no conflito, estresse e diante dessa dor que estava vivendo, teria que enfrentar de forma a reinventar-se. Já havia feito o mais importante, que foi buscar ajuda e auxílio na Associação Filantrópica de Proteção aos Cegos. Lá encontraria suporte, integração, atividades das mais diversas. E por identificação de mesmas dificuldades, poderia encontrar razões e sentido para enfrentar novos problemas.

Todos nós deveríamos conhecer essa instituição tão carente e com um objetivo tão rico. Razão de vida de muito deficientes visuais. A questão a respeito de suicídio tem um aspecto de ser e estar longe, mas tão longe. E não imaginamos que pode estar tão perto. Fiquemos atentos aos sinais.  Parabéns à associação!

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Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Psicóloga clínica, psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Contato: angelicabongiovani@stetnet.com.br

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