Sonhar acordado

  • 25/08/2019 05:17
  • Sandro Rogério dos Santos

Acho que ando sonhando pouco, com coisas triviais. Gostaria de voltar a viver num país que, mesmo fantasioso, as pessoas se mantinham serenas diante das divergências cujos temas afetavam a todos. Hoje, seja no futebol, seja na religião, seja na política, seja na Amazônia, seja em qualquer outro assunto (até poderia destacar a cor do paramento do padre na hora da missa), há tanta violência verbal – mas não só. Sonho com a convivência pacífica entre os seres que se dizem racionais, dotados de inteligência e emoção... Acordado, tento dar vazão ao meu sonho, procurando discordar sem impor, mais ouvir e refletir, menos falar... Acordado, tento procurar as fontes e não me deixar levar por paixões. Acordado, nem sempre encontro iguais a fomentar o encontro e deixar-se tocar respeitosamente... Acordado, às vezes, me vejo obrigado a tentar despertar outros que, acreditando acordados, tentam adormecer os outros.

Dia desses alguém me falou de coisas tão belas, da utopia que há muito desejávamos alcançar. Como um bom “vendedor”, tirava do caminho os espinhos da comunicação. Seduzia-me para, então, me deixar com a sua verdade. Pena que a “sua” verdade era “vendida” como “a” verdade. Ao final e ao cabo, sobrou para a Igreja, essa da qual sou parte. Nunca devemos considerar o outro mais tolo que nós mesmos. A verdade não é minha e sequer está comigo sempre. Ela vai-se dando a conhecer no encontro, no diálogo respeitoso, no silêncio contemplativo que espera a hora certa de dizer palavra, pois nem sempre a palavra precisa ser dita. Mas infelizmente, nesse nosso tempo, as pessoas têm tanta pressa de afirmar a verdade, de se mostrarem corretas e (santo deus!) negar qualquer possibilidade de acerto no interlocutor. Como poderíamos viver em paz se estamos sempre preparados para a guerra?

Estimado leitor, preciosa leitora, você já tentou observar quanto de violência há em suas palavras? Se não for muita (e gratuita) provocação, faça o teste. Estamos sempre com bala na agulha, isto é, com palavra ofensiva/defensiva na ponta da língua. Estamos ficando surdos. Não queremos mais ouvir ninguém. Todos falam. Ninguém escuta. E assim caminhamos com as certezas que modificam o mundo, embrutecem e emburrecem os relacionamentos e ressecam a alma.

Amanheci esperançoso. Deixei-me tocar pela beleza. Da vida. Das pessoas. Da natureza. Deixei-me olhar sem pressa nem medo pelas pessoas que me circundam e que tanto bem me fazem; sem elas, como poderia reconhecer-me humano e desafiado a ser a minha melhor versão? O dia foi passando e um pouco de poeira (conversas fiadas, olhares esgueirados, palavras falsas e noticiário) tirou-me o brilho. Opacou a esperança. Vi crianças, voltei a acreditar na pureza e beleza da vida. Lembrei-me das pessoas que me ensinaram tantas verdades sem o desejo de me imporem o seu jeito de ser e de viver. Terminei o dia – agora é noite, quando escrevo – e devo dizer que estou cheio de vontade de viver, de amar, de sorrir, de sonhar, de me deixar encontrar e encantar. Que a verdade da vida não seja barateada por refrães e memes de gente ressentida e limitada em seus preconceitos afetando sabedoria.

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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Sandro Rogério dos Santos

Sandro Rogério dos Santos

Sandro Rogério dos Santos é pároco do Santuário Diocesano Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, situado no Jardim Maracanã, em Presidente Prudente.

Contato: padre@santuariosantateresinha.com

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