Sexualidade feminina e seus desdobramentos

  • 23/08/2019 02:08
  • Maria Angélica Amoriello Bongiovani

A sexualidade feminina é uma preocupação desde sempre. Sigmund Freud (1882) recebia em seu consultório mulheres com muitas queixas, principalmente frigidez, histeria e muitas inibições. Sempre houve muito tabu, pudor, e preconceito a respeito da sexualidade. A intimidade juntamente com a sexualidade está relativamente imbricada. Lamentavelmente a intimidade é algo esquecido e não podemos correlacionar com modernidade. É algo assim, como uma construção. Seu início envolve um movimento sem intenção. Naturalidade e espontaneidade o compõem. A pressa não entra.

Atualmente as queixas das mulheres não sofreram tantas modificações como no tempo de Sigmund Freud. Um dos problemas que mais afetam o relacionamento amoroso é o vaginismo. É a condição em que a mulher sente dor durante a relação sexual. A dor na hora da relação sexual - causada muitas vezes pelo medo e estresse excessivo - é um problema e afeta de 3 a 5 por cento da população feminina. Muitas vezes encarado como “frescura”, o vaginismo tem cura e merece atenção.

 Frases como você precisa “relaxar” ou “tomar um vinho que passa” são ouvidas com certa frequência por quem tem o distúrbio. Mas a mulher que tem vaginismo se sente totalmente incapacitada para o sexo, pois seus músculos vaginais se contraem involuntariamente e a penetração se torna inviável por causa da dor. E a causa do problema, na maioria das vezes, é psicológica.

Mulheres que tiveram uma educação muito rígida e religiosa, em que a virgindade é muito valorizada, podem desenvolver vaginismo. Traumas e abusos também podem estar relacionados ao distúrbio. O abuso sexual gera desconfianças, terrores, incapacidade para vínculos e ligações amorosas. As lembranças do abuso reverberam constantemente e as reações são das mais diversas possíveis; como desprezar e rejeitar o parceiro na hora do coito.

Há mulheres que têm dificuldade de ter relação sexual porque contraem tanto a musculatura impossibilitando a penetração. Somente o ginecologista não conseguirá ajudar a mulher. É necessária ajuda especializada de profissionais como psicanalista ou psicoterapeuta e fisioterapeutas. A psicanálise amplia com seu arsenal da técnica, teoria e prática clínica uma escuta especializada para o problema da sexualidade feminina.

O complexo de Édipo não elaborado pode levar ao problema. Recusa ao desenvolvimento, crescimento e maturidade impedem as transformações corporais, inclusive. Há jovens casadas que continuam apegadas aos pais, dependentes da mãe ou do pai, e o cônjuge não participa do conluio. E assim não há fertilização do casal. E jovens que durante seu desenvolvimento psicossexual infantil internalizou em seu mundo fantasias ou realidades terroríficas. E o seu psiquismo encontra-se inundado de aspectos maus e agressivos. E sendo assim, não há espaço para penetrabilidade da ordem emocional. Muitas vezes vão de médico em médico sem conseguir resolver o problema. Isso gera muitas angústias.

O tratamento depende de cada caso, mas em geral engloba exercícios de relaxamento da musculatura vaginal, além de técnicas de respiração e o fundamental: psicoterapia. Um dos principais problemas que geram vaginismo é o medo de sentir muita dor. Há casos de pessoas que estão há muitos anos casadas, mas sofrem do problema. Muitas vezes as mulheres adiam a busca por ajuda, pois seus parceiros são muito bonzinhos. As mulheres chegam aqui no consultório muito desanimadas, com a autoestima baixa, deprimidas, fóbicas, ansiosas, e com sintomas associados como alopecia (perda de cabelos), dermatites e alguns outros transtornos alimentares como anorexia, bulimia e compulsão alimentar.

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Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Maria Angélica Amoriello Bongiovani é psicóloga clínica, psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Contato: angelicabongiovani@stetnet.com.br

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