Paulo Miguel - Roy Isaac defende que toda escola, pública ou não, deveria ter fanfarra e prática esportiva

Foto: Paulo Miguel - Roy Isaac defende que toda escola, pública ou não, deveria ter fanfarra e prática esportiva

ENTREVISTA

ROY ISAAC: DE PRUDENTE PARA O MUNDO

Professor de educação física, técnico de futebol, músico e cantor prudentino tem em seu histórico desfile em escolas de samba no Rio de Janeiro e atuação em três continentes

  • 17/11/2019 08:30
  • HOMERO FERREIRA - Da Reportagem Local

O encantamento pelo samba e o gosto pelo esporte levou o prudentino descendente de sírio a um mundo pouco provável para quem é do interior paulista, quase na fronteira com o Paraná e Mato Grosso do Sul. Roy Isaac desfilou em grandes escolas de samba do Rio de Janeiro, onde conviveu com renomados compositores e conheceu a realidade dos morros. Entre idas e vindas, viveu 20 anos na Europa, Oceania e Ásia, atuando como preparador físico, técnico de futebol, músico e cantor em grupos de diversos ritmos, especialmente brasileiros e caribenhos.

Com múltiplas visões transcontinentais, defende a tese de que toda escola pública ou privada deve ter fanfarra e prática esportiva, no sentido de que música e esporte são essenciais à saúde da mente e do corpo, além de serem linguagens sonoras e corporais universais. Quando criança, morador do bairro do Bosque, ficou encantado ao ver os Acadêmicos do Bosque; possivelmente a primeira escola de samba de Presidente Prudente, criada por Tomás, jogador de futebol da Apea (Associação Prudentina de Esportes Atléticos).

Durante o ensino básico em escola pública, no IE (Instituto de Educação) Fernando Costa, o menino teve a oportunidade de tocar caixa na fanfarra conduzida pelo professor Paulo Roberto Lisboa, o Caracu. Pouco tempo depois, tocava o mesmo instrumento na Escola de Samba Malacos do Tênis, do TCPP (Tênis Clube de Presidente Prudente). Como formação profissional escolheu ser educador físico e ingressou no Imespp (Instituto Municipal de Ensino Superior de Presidente Prudente), que foi encampado pela Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Com a escolha de morar no Rio de Janeiro, terminou o curso na Universidade Gama Filho. Também entre idas e vindas, foram 20 anos na “Cidade Maravilhosa”. Tempo para criar raízes no samba e tocar em baterias de 10 escolas, entre as quais a Portela, Salgueiro, Caprichosos de Pilares e Vila Isabel, agremiação de Martinho da Vila que tinha vindo a Prudente em 1972 e com ele o Carlinhos Pandeiro de Ouro, com quem o prudentino fez amizade e gosto pelo instrumento de corpo, pele e pratinelas. Nas escolas cariocas tocou pandeiro e caixa.

CAMPEÃO NA

VILA ISABEL

Uma das grandes emoções, daquelas inenarráveis, foi ser campeão, pela primeira vez, na Vila Isabel. Foram dois dias sem dormir. O ano era 1988 e o enredo Kizomba A Festa da Raça, com letra e música de Luiz Carlos da Vila; um dos grandes compositores com o qual conviveu. Roy Isaac lembra que africanos participaram do desfile e canta: “Valeu, Zumbi. O grito forte dos Palmares, que correu terra, céus e mares influenciando a abolição. Zumbi, valeu. Hoje a Vila é Kizomba, é batuque, canto e dança, jongo e maracatu. Vem menininha pra dançar o Caxambu”...

A escola da Vila nasceu na entrada do Morro dos Macacos e seu grande nome, do ponto de vista de ser conhecido nacionalmente, é Martinho da Vila, que teve sua origem nos Aprendizes da Boca do Mato. O sambista prudentino transitou por lá e em vários outros berços do samba, tendo a felicidade de conviver com figuras de grande expressão do samba cariosa, tais como: Jamelão, Condonga, Marçal, Catoni, Ary do Cavaco, Dedé da Portela, Ary da Mangueira, David Corrêa, Carlinhos Sideral e Walter Rosa, dentre outros. Também desfilou com Valéria Valenssa na Caprichosos de Pilares.

Embora goste do ritmo atual dos sambas de enredo, Roy Isaac prefere a cadência de antigamente. Entende que o samba na velocidade das novas tecnologias perde o balanço que toca o coração. Estima em cinco vezes mais o seu desempenho em relação ao negro para poder tocar nas baterias das grandes escolas, até enxergarem a sua alma que é algo sem cor: nem preta e nem branca. Nas praias, no futebol de areia e no futvolei conviveu com jogadores famosos como Carlos Alberto Pitinho, Geraldo Assoviador, Paulo Cézar Caju e Mozer, por quem foi convidado para jogar em Portugal e na França.

Como fez curso de treinador de futebol ofertado pelo sindicato da categoria, realizado na USP (Universidade de São Paulo), nos tempos do presidente Olten Ayres de Abreu, em suas andanças pelo mundo foi preparador físico e técnico de times de base na Coreia e na Austrália. Porém, a música falou mais alto ao receber o convite para tocar em churrascaria australiana, após ser visto tocando com amigos em um aniversário. Daí entrou na noite, tocando em boates e com grupos de samba e bossa nova; e de salsa, com artistas cubanos.

GRUPO MPB E

LATINIDADE

Atualmente em Prudente mantém o Grupo MPB e Latinidade, que tem muito de tudo que viveu no Rio e no exterior. Sua esposa Raquel Vanalli canta divinamente, acompanhada por músicos de qualidade: Luiz Ramos, arranjador e violão de sete cordas; Marlon Camatari no trompete; e Roy Isaac no vocal, bateria e percussão, incluindo outros profissionais que atuam como convidados especiais. Outra ocupação musical do personagem desta reportagem é de aluno no curso de bacharelado em MPB e jazz pela Escola Municipal de Artes Professora Jupyra Cunha Marcondes.

Filho do comerciante Ilem Isaac, natural de Três Lagoas (MS) e já falecido, e de Mariana Isaac, que tem 98 anos e vai às apresentações do filho; Roy, cujo nome de batismo é Ronaldo, é neto de Melem Isaac, que veio da Síria. Seus seis irmãos são: Sérgio, Neder Renato, mais conhecido como Teco, Pérsio, Mariza, Cássia e Ilem. Depois do bairro do Bosque, a família morou na casa 501 da Avenida Washington Luiz: lugar de encontro de amigos e de música de qualidade; como as de Miltinho e Elza Soares.

Roy Isaac nasceu em 14 de janeiro de 1955, na Rua Joaquim Nabuco, no bairro do Bosque, local de sua infância, nas proximidades da Apea e onde se encantou com o samba, vendo a escola de samba do Tomás. Seu envolvimento com esse gênero musical é tão arraigado que conhece as raízes do seu nascedouro no Recôncavo Baiano, mas com tradição construída no Rio de Janeiro, que tem no desfile das escolas de samba um dos maiores espetáculos do mundo. Seu gosto pelo esporte, notadamente o futebol, o faz pensar que não dá certo jogador brasileiro apreciador de outras variedades musicais.

No seu entendimento, Neymar é um monstro como jogador, mas poderia caminhar melhor se tivesse interesse pelo samba e não por música de apelo popular, com conteúdo duvidoso. Roy Isaac tem a opinião de que, culturalmente, o brasileiro está vivendo um tempo chulo. Ainda como parte de suas andanças, foi professor concursado e trabalhou em Ceilândia (DF) nos anos 1980, período em que viu de perto os treinamentos do campeão olímpico Joaquim Cruz.

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