Conflitos internos

Recorrentes na adolescência, problemas emocionais requerem atenção e diálogo

  • 06/02/2019 09:54
  • ANDRÉ ESTEVES - Da Redação

Para muitos pais, lidar com os filhos adolescentes pode ser ainda mais difícil do que quando eram bebês. Afinal, é nesta etapa da vida que se iniciam as mudanças físicas, psicológicas e sociais. Embora todos os jovens passem por conflitos internos e externos neste período, cada um vivencia-os de maneira individual e única. Nesse contexto, ao mesmo tempo em que há aqueles que conseguem sair “ilesos” da adolescência, há outros que encontram percalços no caminho que colocam em risco a sua própria saúde. Os problemas emocionais e mentais em jovens não são ficção. Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) revelam que metade de todas as condições de saúde mental aparece aos 14 anos de idade, no entanto, a maioria dos casos não recebe diagnóstico ou tratamento. Mundialmente, a depressão é uma das principais responsáveis pela incapacidade entre adolescentes, sendo o suicídio a terceira maior causa de morte entre pessoas de 15 a 19 anos.

A psicóloga e psicopedagoga, Giovana Garcia Fukaya, conta que não há uma única razão para o desenvolvimento desses problemas, tendo em vista que são “inegáveis” as diversas transformações, tanto internas quanto externas, que o período da adolescência e juventude causa em uma pessoa – até mesmo a estranheza em relação a si próprio. Além disso, esta etapa é marcada pela pressão social e familiar em torno da conclusão do ensino médio e transição para um possível ensino superior. “A cobrança pode surgir de todos os lados e a angústia passa a fazer parte do cotidiano dos jovens”, comenta.

BUSCANDO AJUDA

Pensando em prevenção, a profissional sempre costuma orientar os pais a ter um bom diálogo com os filhos, buscando pontuar e entender o que se passa com ele e demonstrando interesse pelo seu mundo. “É necessário que também fiquem atentos a sintomas físicos que possam surgir no jovem, já que, por vezes, ‘o corpo fala’ e dá sinais”, relata.

Na ocorrência de algum transtorno, o psicólogo organizacional da Santa Casa de Misericórdia de Presidente Prudente, Leonardo Ratti, defende que, assim como toda doença, quanto mais cedo iniciar o tratamento, melhor será o resultado. Por isso, o paciente não deve se intimidar em buscar ajuda. “Independente de gênero, todos nós precisamos ir atrás. A saúde mental é tão importante quanto a saúde física. A depressão, por exemplo, é silenciosa. Se o indivíduo não procurar acompanhamento quando houver os primeiros sinais, o desafio vai ser muito maior”, ressalta.

EMPATIA É NECESSÁRIA

Nesse processo, o apoio da sociedade é primordial, apontam os psicólogos. Giovana aconselha que as pessoas se portem com empatia em relação ao próximo, colocando-se no lugar do outro e tentando oferecer o que gostaria de receber em troca. Leonardo vê também a necessidade de acabar com o preconceito de que a pessoa precisa estar “louca” para ir ao psiquiatra ou psicólogo. “Ao contrário do que se acredita, pedir ajuda é uma coisa corajosa e inteligente”, argumenta.

APRENDENDO A IDENTIFICAR

Giovana esclarece que um jovem com problemas emocionais e mentais pode possuir baixa tolerância à frustração, alterações de humor e sintomas físicos “sem explicação médica”. Segundo Leonardo, também podem ser registradas falhas de memória, autoestima baixa e postagens em redes sociais em que expressa sentimentos de inutilidade. “Estas características podem ajudar os pais, professores e amigos próximos a identificar o problema”, pontua o psicólogo.

O que jamais dizer para pessoas que estão em depressão

- Você está exagerando, não é tal mal assim;

- Todos temos problemas, você precisa reagir;

- Sei o que você está passando, já me senti assim também;

- Você precisa tomar o controle da situação e melhorar de uma vez;

- Melhorar depende apenas de você. Basta querer;

- Reaja! A vida continua;

- Você está sendo egoísta.

Fonte: Ministério da Saúde

O que deve ser dito para pessoas em depressão

- Estou aqui para o que precisar;

- Você não está sozinho (a);

- Não é culpa sua;

- O que eu posso fazer por você?;

- Está precisando de algo?;

- Vamos conversar?;

- Em que você está pensando?;

- Eu te amo.

Fonte: Ministério da Saúde

PERFIL

                                                               Arquivo pessoal

Nome: Helen Gallis

Idade: 20 anos

Função: Estudante

O Imparcial: Inicialmente, discorra sobre o problema emocional que você desenvolveu e a que foi atribuído.

Helen: Eu tenho o famoso distúrbio de ansiedade, que agora na fase adulta jovem foi se agravando. Provavelmente se desenvolveu por causa de um trama de infância. Então, desde criança, sofro com crises de ansiedade e medo.

 

Quando você sentiu que era hora de buscar ajuda médica?

No começo do ano passado, comecei a desenvolver alguns problemas sérios com o meu ciclo menstrual, tive algumas hemorragias e, a princípio, fui procurar a minha ginecologista, mas ela não conseguiu achar uma resposta para o sangramento contínuo. Fui atrás de outros profissionais e, na quarta tentativa, o tratamento deu certo. Aparentemente, eu estava com uma massa “desconhecida” no útero. Comecei o tratamento e, entre os remédios receitados, havia um calmante natural, mas eu não sabia. Depois de um mês, quando voltei para o retorno, eu já não sentia dor e nem tinha mais hemorragias. Ela me explicou sobre o calmante e, olhando meus exames, teve certeza que o meu problema era emocional e psicológico. Desta forma, me instruiu a procurar um psicólogo, mas demorei ainda. No último bimestre do ano passado, voltei a ter crises e a mais grave foi a que levou ao fim do meu relacionamento de cinco anos. Quando terminei, entendi que precisava de um acompanhamento. Não só pelo relacionamento, mas por tudo. Tirei minha primeira nota baixa na faculdade e não conseguia aceitar. Enfim, foi o ápice mesmo.

Além do tratamento medicamentoso, quais práticas passou a adotar no dia a dia para se sentir melhor e superar a ansiedade?

Atualmente, não uso mais medicamentos, só em dias de crises mesmo. Tento seguir alguns passos “simples”, como alimentação saudável, me manter ocupada durante o dia e praticar algum exercício no tempo de sobra. Tudo isso para conseguir dormir bem. Fora isso, leio bastante sobre, até para autoconhecimento e os acompanhamentos. Mas é sempre uma luta diária.

Quais as orientações para quem passa por uma situação semelhante? O seu conselho é que busque o tratamento desde cedo?

Sim, sempre preferimos adiar, ninguém gosta de se “expor”, mas o acompanhamento psicológico salva a gente de nós mesmos, é o que eu costumo dizer. Fiz serviço voluntário por muitos anos e vi pessoas passando por coisas piores, talvez por esta razão eu não conseguisse admitir que precisava de ajuda. Comparava a minha vida com a do outro – e isso é o pior costume do ansioso –, pensava: “mas fulano passou por isso e aquilo e mesmo assim não adoeceu. Se ele aguentou, também posso”. Hoje, entendo que não é assim. Cada um tem o seu limite.

DICA DE FILME

                                                                      Divulgação

Elena (2012)

Neste filme lançado em 2012, a cineasta Petra Costa documenta o caminho percorrido por sua irmã Elena, que cometeu suicídio em 1990, quando tinha 19 anos de idade. Antes da fatalidade, a jovem seguiu para Nova Iorque com o sonho de se tornar atriz, deixando para trás a irmã de sete anos. Vinte anos depois, Petra, agora também atriz, embarca para a cidade estadunidense a fim de refazer os passos de Elena e se reconectar com ela nos cantos e esquinas da cidade. Com uma narrativa melodramática e poética, Petra faz um desabafo intimista sobre depressão, saudade, compreensão e a importância de aprender a deixar quem amamos partir.

 

Garoto Interrompido (2009)

                                                                      Divulgação

Enquanto “Elena” acompanha a busca de uma mulher por fragmentos da irmã morta, “Garoto Interrompido”, lançado em 2008, é narrado sob o ponto de vista de dois pais que perdem o filho de 15 anos para o suicídio. Por meio de entrevistas, fotos e vídeos caseiros, os dois constroem um registro sobre a breve vida do filho e investigam os motivos por trás da radical decisão de tirar a própria vida. O título do documentário faz alusão ao drama “Garota, Interrompida”, filme de ficção sobre o convívio de meninas com problemas e distúrbios mentais em um hospital psiquiátrico.