Primeiro teatro de ópera do país é grandioso

Monumento neoclássico, de Belém do Pará, tem 130 anos de história e acústica perfeita

Da Redação • 16/07/2018 17:28:00

Foto: Eliseu Dias / Secom Ag. Pará - O Theatro da Paz remonta a 1874, construído com dinheiro da extração da borracha da Amazônia

Luxuoso, imponente, rico em todos os seus detalhes de arquitetura e decoração, o Theatro da Paz, em Belém, foi construído com recursos auferidos da exportação de látex, durante o Ciclo da Borracha. É o maior teatro da região Norte e foi o primeiro do país projetado para exibir grandes espetáculos de ópera – os de São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus foram todos inaugurados posteriormente. Com aproximadamente 130 anos de história, é considerado um dos teatros-monumentos do país. Tem 1.100 lugares, acústica perfeita, lustres de cristal, piso em mosaico de madeiras nobres, afrescos nas paredes e teto, dezenas de obras de arte, gradis e outros elementos decorativos revestidos com folhas de ouro.

Originalmente chamado Theatro Nossa Senhora da Paz, teve seu nome dado pelo bispo da época, dom Macedo Costa, em homenagem ao fim da guerra do Paraguai. O nome, porém, foi modificada a pedido do próprio bispo – ele achou que era indigno o nome de “Nossa Senhora” figurar na fachada de um espaço onde havia apresentações mundanas e nenhuma representação eclesiástica.

A pedra fundamental do edifício foi lançada pelo bispo que lhe deu o nome, em 3 de março de 1869. Projetado pelo engenheiro pernambucano José Tibúrcio Pereira Magalhães, foi construído por Calandrine de Chermont. Ficou pronto em 1874, mas naquela época o superfaturamento de obras públicas já ocorria: houve denúncias contra os construtores, foi aberto um inquérito e o teatro só foi inaugurado quando as investigações chegaram ao fim, quatro anos depois.

Com o drama de Adolphe d’Ennery, “As duas órfãs”, no dia 16 de fevereiro de 1878, o Teatro da Paz foi aberto ao público, ao som da orquestra sinfônica do maestro Francisco Libânio Collas. Mas, a apresentação de óperas, que fizeram a fama do teatro no Brasil e na Europa, só começaram dois anos depois, em 1880, com a encenação de “Ernani”, de Verdi, título muito apreciado à época. Só naquele ano, a temporada teve mais oito peças líricas, incluindo “O Guarani”, de Carlos Gomes, reapresentada em 1882, quando foi regida pelo próprio autor. As temporadas anuais de ópera aconteceram ininterruptamente até 1907, com a presença de cantores como Bidu Sayão, Carlo Bulterini, Leonilde Gabbi, Franco Cardinali, Giulio Ugolini, Maria Peri e Inocente De Anna, criador de “Lo Schiavo”, de Gomes.

O Teatro da Paz, é um monumento neoclássico por excelência. Nas laterais, pátios cercados de colunas, escadas que dão acesso à Praça da República. As cadeiras são de palhinha, (não de almofada), seguindo o formato de ferradura. No saguão, há dois bustos talhados em mármore de carrara: José de Alencar e Gonçalves Dias, introdutores do indianismo no Brasil. No salão nobre, ao lado de espelhos de cristal, estão os bustos dos maestros Carlos Gomes e Henrique Gurjão.

No palco do Da Paz, Carlos Gomes regeu sua mais famosa ópera – O Guarany – e a bailarina russa Ana Pavlova passou com suas sapatilhas. O decorador desse cenário privilegiado foi o italiano Domenico de Angelis que, posteriormente, decorou o Teatro Amazonas, de Manaus. Ele foi também o autor do belo painel representando os deuses gregos Apolo e Diana no cenário amazônico, que fica no teto da sala de espetáculos.

 

Depois do espetáculo da fé, Belém faz a festa da música

Este ano, o tradicional e concorrido Festival de Ópera do Theatro da Paz, em sua 18ª edição, começa  logo depois do Círio de Nazaré, e só vai terminar dia 1º de dezembro. Serão seis semanas de óperas, concertos, recitais e outros eventos, todos acontecendo no primeiro teatro de ópera construído no Brasil e uma das grandes atrações turísticas da cidade. “Esperamos que o 18º Festival de Ópera seja o melhor de todos os realizados até agora. A programação musical, a escolha dos solistas e dos maestros convidados, além do tradicional e consolidado apoio do público, nos permitem acreditar que o evento será um enorme sucesso”, diz Gilberto Chaves, diretor geral do Festival.

Se você estiver em Belém nesse período, não perca a oportunidade de assistir a um espetáculo rico e grandioso no teatro que tem a melhor acústica do Brasil, segundo a absoluta maioria dos maestros. E se sua estada não coincidir com a data de espetáculos, você pode – e deve – fazer visitas monitoradas para conhecer o teatro. Elas acontecem de hora em hora, das 9h às 17h, de terça-feira a sexta-feira. Aos sábados, domingos e feriados, a visitação ocorre apenas no período da manhã, das 9h às 12h.

O festival será aberto com uma das mais famosas óperas de todos os tempos: “Cavalleria Rusticana”, de Pietro Mascagni, com récitas dias 17, 19 e 20, sempre às 20h.

A segunda ópera do Festival será “João e Maria” (dias 1, 3 e 4 de novembro), com direção de Flávio de Souza, regência do maestro Jamil Maluf e os solistas Luciana Bueno, Laryssa Alvarazi, Regina Helena Mesquita, Adriana Clis, Leonardo Neiva, Luciana Tavares e Aliane Sousa. Trata-se da ópera de maior sucesso de público já montada no país: estreou há 10 anos e desde então já foi apresentada em diversas capitais brasileiras.

A terceira ópera é o grande desafio deste ano, por causa da sua grandiosidade e complexidade musical: “Salomé”, de Richard Strauss, dias 24, 26 e 28 de novembro. Conta a conhecida história da princesa que exigiu do padrasto Herodes a cabeça de João Batista numa bandeja de prata. “É uma obra difícil de ser interpretada, cantada e tocada. Sem dúvida é a peça mais difícil que a nossa orquestra já tocou, em qualquer época”, assinala o diretor geral. A cantora que fará o papel-título vem da Holanda: Annemarie Kremer, uma das mais disputadas sopranos europeias. João Batista será vivido por Rodrigo Esteves, considerado um dos principais barítonos brasileiros da atualidade e que no ano passado participou da montagem de “Tosca” em Belém. Os demais papéis serão vividos por Paulo Queiroz, Andreia de Souza, Giovanni Tristacci, Josy Santos, Daniel Germano, Andrei Mira, Antonio Wilson Azevedo, Rodrigo Valdez, Marcos Carvalho, Marcio Carvalho, Raimundo Mira, Idaías Souto, Ytanaã Figueiredo, Nilberto Viana. Jéssica Wisniemski e Tati Helene (doppione de Salomé). A direção é de Mauro Wrona e a regência é do maestro Miguel Campos Neto.

O 18º Festival de Ópera do Theatro da Paz termina no dia 1º de dezembro, com um grande concerto ao ar livre, em frente ao teatro, reunindo duas orquestras, dois corais e os principais cantores do festival.

 

Ingressos

Os turistas, de qualquer lugar do Brasil, poderão solicitar reservas para os espetáculos do Festival ou agendar visitas ao Theatro através de e-mail bilheteriatp@supridados.com.br. Apenas quatro espetáculos do Festival serão pagos: as óperas “Cavalleria Rusticana”, “João e Maria” e “Salomé”, a preços populares, que variam de R$ 20 a R$ 60. O concerto “Quando oJazz encontra a Ópera” tem preços menores: de R$ 10 a R$ 20. Todos os outros eventos serão gratuitos.

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