Coletivo Balaio/Cedida - Leniza:

Foto: Coletivo Balaio/Cedida - Leniza:

ENTREVISTA

Preconceito cultural ainda assombra a modalidade

Leniza Garrido - técnica de Futebol Feminino da Semepp

  • 31/01/2020 08:19
  • OSLAINE SILVA - Da Redação

Primeiro lugar na Copa Maringá de Futebol Feminino, Campeonato Municipal de Paraguaçu Paulista e campeãs do 48º Campeonato Estadual Paulista de Futebol Feminino, que Presidente Prudente sediou. Estas foram algumas das conquistas das meninas da Leniza Garrido, técnica da Semepp (Secretaria Municipal de Esportes), que fala sobre a modalidade no país e no mundo, mídia, patrocínio e o amor pelo seu trabalho.


Sua equipe sub-17 fechou 2019 com louros e glória vencendo o 48º Campeonato Estadual Paulista de Futebol Feminino, que Prudente sediou em novembro. Eu estava lá e me arrepiei a cada lance da final podendo testemunhar o grito de: “É campeão!”. Qual foi o sentimento naquele dia, Leniza?

É inexplicável! Foi um ano todo pensando neste campeonato, programando detalhes, a responsabilidade de estar com meninas menores de idade... enfim, fiquei muito feliz com o resultado, com o desempenho delas, jogaram como “gente grande”! E terminar o ano sendo um time campeão estadual é maravilhoso!

O que precisaram enfrentar para estar em campo no campeonato, uma vez, que suas meninas são do futsal?

Essa é uma questão interessante, pois o futsal dá a elas a velocidade no toque de bola, que foi o nosso diferencial nesta competição. Uma equipe tranquila e ao mesmo tempo buscando sempre o gol, então, acho que nos ajudou. Esse fator, somado à vontade delas de vencer, foi fundamental e o resultado todos que estavam lá, viram! Mesmo estando atrás, no resultado, como foi o jogo da final, eu sempre acreditei que virariam, pela qualidade delas.

O que você diria sobre a falta de público, Leniza?

Bom, são vários fatores que juntos acabam afastando o público: primeiro a questão cultural que envolve o assunto “futebol feminino”, que já vem desde dentro de casa, e por isso sempre peço às meninas que levem os pais aos treinos e jogos, para acompanharem nosso trabalho. Assim, eles podem ver o quanto o esporte, independente de qual seja, é fundamental para a formação delas como cidadãs de bem, e fazer o que gosta é muito mais produtivo. Outro fator, que foi o que também interferiu no público, foi o horário dos jogos, a maioria das pessoas estava trabalhando. E em relação a veículo de comunicação é triste ver o espetáculo que essas meninas deram em campo e nenhuma TV local ter prestigiado, acredito que se eles tivessem dado mais ênfase na competição teríamos mais público. Isso deveria ter acontecido antes e durante a competição, como O Imparcial fez!

Além do estadual, quais competições disputaram em 2019?

Participamos do Torneio de Futsal Feminino de Paraguaçu Paulista, que ficamos como vice-campeãs; Jogos da Juventude [sub-18]; Jogos Infantis [sub-16]; Copa Maringá de Futebol Feminino - 1° lugar; Jogos Regionais [Futsal e Futebol Feminino livre]; Campeonato Municipal de Paraguaçu Paulista - 1° lugar; e Torneio de Futsal Feminino de Taciba.

Em uma postagem no Facebook você agradeceu a todos os parceiros que fizeram com que o ano da equipe fosse tão especial: Semepp, Villa Casa Móveis, Frigorífico Better Beff, Espetos Bar e Gerson Esportes. Tem mais algum? Por que o apoio (patrocínio) é importante ao esporte, em especial ao futebol feminino?

Esses apoiadores foram fundamentais para nossos gastos em 2019. O apoio é fundamental, pois a Semepp, sozinha, não consegue arcar com todas as despesas. São muitas modalidades. E na realidade, embora o futebol feminino não tenha um custo alto, ainda assim é muito difícil conseguir apoio. Tivemos outros parceiros que nos deram alguns produtos, mas somente para os Jogos Regionais [Life Med - produtos para primeiros-socorros e Sucos Jacobinho que deram algumas garrafas de suco].

Quais as maiores dificuldades, obstáculos que as meninas que jogam futebol ainda enfrentam em pleno século 21?

Volto a frisar a questão cultural do futebol “somente pra homem”. Às vezes, a menina gosta de jogar, tem talento, mas a família tenta de todas as formas que ela faça outro esporte. E isso ainda afasta muitas meninas do futebol. Outro fator é o amadorismo, pois enquanto elas são novas, só estudam, e ainda conseguem conciliar o estudo e o esporte, mas chega uma hora que a família exige que elas trabalhem, então, se o esporte oferecesse uma ajuda de custo seria mais fácil mantê-las treinando até a categoria adulta. Mas acredito que a questão mais importante seja mesmo o preconceito cultural, social e de gênero.

Como você analisa o futebol feminino no Brasil e no mundo? Qual a diferença do nosso país e dos demais nesta modalidade?

Eu vejo, da época que eu iniciei no esporte para hoje uma mudança significativa, porém, ainda estamos bem longe do ideal. A profissionalização no Brasil começou há pouco, no exterior já existe há algum tempo, por isso perdemos muitas atletas que deixam o Brasil procurando melhores condições lá fora. E os salários, tanto aqui quanto lá fora, ainda deixam muito a desejar em se tratando de futebol. Mas, como tudo no mundo, precisamos que o futebol feminino apareça mais, para que seja interessante para investidores, pois tudo hoje é comercial, por exemplo, os patrocinadores querem que sua marca apareça, se a mídia não mostra não há interesse em ajudar... e é assim que funciona! Os jogos devem ser transmitidos constantemente, não só em competição como Copa do Mundo, Copa América, os campeonatos nacionais e estaduais também merecem mais visibilidade. Mas, eu acredito que isso vá mudar, não importa quanto demore, mas vamos continuar lutando.

O que podemos esperar das “meninas da Leniza” em 2020?

Com a repercussão deste campeonato, temos alguns planos para essas meninas em 2020, pensamos em manter a base para as principais competições deste ano, mas dependemos do apoio da Semepp, Prefeitura e patrocinadores.

Quem é a Leniza? Como o futebol entrou em sua vida?

Leniza é uma amante do esporte, sonhadora e lutadora! Eu sempre fui apaixonada por esporte, sempre pratiquei tudo, na época do ensino médio, uma grande amiga [Laura], que na época da escola era adversária no intercalasses, me chamou pra treinar futsal lá no PUM (Parque de Uso Múltiplo], o treinador era o Sebastião Carlos “Porto”, e muito do que sei e sou hoje devo a ele.

O que te levou a escolher esta modalidade?

Fui treinar e nunca mais parei! Na época da faculdade [fiz Unesp - Universidade Estadual Paulista, me formei em 2003], fiz vários estágios em várias áreas da Educação Física, mas foi no futebol que me encaixei, pois já era atleta, aí foi só decidir se continuaria atleta ou se me dedicaria a ensinar e treinar. E, senti que seria mais útil trabalhando em prol da modalidade e estou aí desde então!

Já praticou outro esporte?

Também sou faixa preta de caratê, dediquei alguns anos a esta modalidade, fui até campeã algumas vezes, por alguns anos trabalhei ensinando esta arte que é outra paixão, mas o futebol falou mais alto, e quando vejo a evolução dessas meninas com os treinos e a gente faz amizades, aconselha e vê como se dedicam sem pedir nada em troca... é maravilhoso, não tem preço!

PERFIL

Nome: Leniza Garrido

Idade: 39

Formação: Educação Física - Licenciatura plena

Atividade profissional: treinadora de futebol feminino

Onde nasceu: Presidente Prudente

Filiação: Vera Maria de Souza e Levi Garrido

E-mail: legarrido4@hotmail.com